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‘Tribunal’, protesto: Por que perpetuar a ‘cultura do cancelamento’?

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Não se pode mais discordar do pensamento dominante que já somos massacrados na internet. Que tóxico!

Poderia ser só uma versão do meme que tem circulado no Twitter, que vê com sarcasmo um elemento presente em nossa realidade, mas neste caso a coisa é séria mesmo. Não dá pra discordar da expectativa que os outros criam, porque logo o “tribunal da internet” determina o “cancelamento“.

É o que já aconteceu com a cantora Anitta no ano passado, quando ela não se posicionou objetivamente contra o candidato que veio a ganhar as eleições, e no começo deste ano, ao convidar o amigo Nego do Borel para cantar em um show, logo depois de ele ter feito comentários transfóbicos sobre Luisa Marilac. Foi o que também aconteceu com a cantora Valesca Popozuda, por causa de sua amizade com o maquiador Agustin, que durante as eleições defendeu uma postura agressiva contra os homossexuais. A ex-panicat Nicole Bahls teve o mesmo veredito, ao ser questionada sobre homofobia e responder de maneira que, por sua vez, foi considerada homofóbica. A cultura do cancelamento é tão presente que volta e meia alguém aparece na timeline perguntando: quem vamos cancelar hoje?

“Com o advento das redes sociais a facilidade de excluir de nossa visão aquilo que não concordamos estimulou esse tipo de comportamento entre as pessoas. Com o uso generalizado e massificado da internet e redes sociais observamos a criação de bolhas de interesse e de visões de mundo: os “micromundos”, definidos por Jonathan Crary em seu livro ’24/7 Capitalismo tardio e os fins do sono’. A partir disso, qualquer um que esteja ‘fora da bolha’ ou que traga alguma ideia incompatível com os valores daquele micromundo é excluído e enviado para a outra polaridade. Não existe integração e discussão de ideias”, explica a psicóloga Maria Eugênia Glustak, da Holiste Psiquiatria.

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É como se fechássemos os olhos para a multiplicidade de pessoas e opiniões que existe lá fora para que criássemos o fantástico da nossa idealização. E aí não ouvimos o que o outro tem a dizer, não nos esforçamos para entender seu ponto de vista, não estabelecemos diálogo. A solução mais fácil passa a ser “deletar” o outro do nosso feed.

“Nós estamos deletando e sendo deletados. Deletamos amores, deletamos famílias, deletamos amigos. Banalizou-se. Quando você não abre espaço para ouvir o argumento do outro e se aprofundar nestes argumentos, o banimento acaba sendo adotado como instrumento que serve para controle social, para manter uma ordem falsa, uma organização falsa”, observa o psicólogo Breno Rosostolato.

Segundo ele, essa noção de “instrumento para controle social” se assemelha ao que vimos – e ainda vemos – em ditaduras. Falando especificamente de Brasil, ainda existe a cultura da censura enquanto prática, entendimento e mentalidade social, em razão de todos os anos que vivemos sob o regime que pregava o controle. A lógica de Rosostolato é a seguinte: conquistamos espaços, passamos a nos expressar e falar abertamente sobre temas que eram tabus, mas à medida que não conseguimos proporcionar o diálogo, mantemos em aberto o precedente para essa cultura de censuras e limitações de mentalidades. “Cancelar” alguém por causa de seu ponto de vista é quase como eleger um pensamento como melhor do que outro, lógica semelhante à de um sistema totalitário.

“A gente viu na história da humanidade que sistemas totalitários que mantêm opressões, ditaduras, nunca funcionaram, nem vão funcionar, porque não é a maneira livre e democrática da gente poder permitir as opiniões e diferenças”, destaca o psicólogo. E eliminar o diferente do nosso convívio nos impede de ampliar, aprofundar algum debate.

“Cada vez que excluímos a diversidade do nosso contato, reduzimos nosso repertório para lidar com o diferente, gerando situações de intolerância e falta de empatia. Além disso, perdemos nossa capacidade de diálogo e argumentação e de suportar o erro do outro, criando relações superficiais”, acrescenta Eugênia.

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Os exemplos que mencionamos giram em torno de artistas e celebridades, mas quantas vezes viramos as costas ou determinamos que alguém é bobo por pensar tão diferente de nós? Por outro lado, quantas vezes fizemos com o outro aquilo que gostaríamos que ele fizesse conosco: nos desse atenção, ouvisse nosso argumento, entendesse nosso ponto, para que então pudéssemos dialogar?

Eugênia sugere que, em casos de discordâncias, cada um reflita sobre o porquê de aquilo incomodar tanto ao ponto de não suportarmos o diferente. Essa reflexão vai ajudar a entender com que tipo de sentimentos estamos lidando. A partir daí, a psicóloga recomenda o exercício de olhar para essa diversidade de opiniões de maneira mais tolerante.

“É dessa forma que vivemos em sociedade, sustentando e tolerando a diferença e os erros. Afinal, na vida real, fora da internet, não podemos ‘cancelar’ nossos familiares, colegas de trabalho ou amigos”, orienta.

É aquela coisa do não fazer com o outro o que a gente não gostaria que nos fosse feito. Se eu quero ser compreendida, por que serei incompreensiva com o outro? Se eu defendo liberdades e diversidade, preciso também defender o direito do outro pensar diferente, exercer sua liberdade para discordar do que eu penso. Até mesmo no caso de sermos alvos dessa “condenação”, o ideal é rompermos com esse ciclo e tentar promover o diálogo, que é mais democrático, construtivo e transformador – por mais difícil que isso seja.

“Sei que a gente não concorda em tudo e não vamos concordar, mas os consensos, as ponderações devem acontecer. Estes são comportamentos construtivos, saudáveis, plausíveis e esperados numa sociedade democrática. Nós precisamos conversar com o contraditório, o oposto, até para entender os pontos de vistas diferentes e a partir desse entendimento dialogar, cada um colocando seu ponto de vista e tentando construir conhecimento novo. É isso que se espera”, acrescenta Rosostolato.

Curiosa, jornalista e libriana. Mestranda no PósCom/Ufba, interessada nos valores - os meus, os seus, os de notícia e os humanos. Se piscar o olho, o cochilo vem, mas os olhos sempre estão abertos para uma série ou outra que desperte o interesse.

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