Third places: Já parou pra pensar em quais são seus lugares favoritos?

Third places: Já parou pra pensar em quais são seus lugares favoritos?

Num dia desses de buscas por pautas aqui para o blog, me deparei com uma pesquisa sobre os third places (“terceiros lugares“, em tradução do inglês). Não sei se vocês, não-antropólogas ou não-urbanistas, já ouviram falar nesse termo. Pra mim, foi novidade.

Em geral, os terceiros lugares são onde nos construímos enquanto indivíduos parte de uma comunidade. É um conceito da sociologia e do planejamento urbano que reconhece como promotores da associação social os lugares que frequentamos para além de casa e do trabalho. Por exemplo: restaurantes, bares, academias, templos religiosos e até salões de beleza.

Esses ambientes já existem há muito tempo. Em artigo para o site The Conversation, a pesquisadora Setha Low explicou que no passado os third places refletiam homogeneidade genealógica, religiosa, de gênero, cultural ou de classe.

Tal qual os clubes que só podiam ser frequentados por pessoas com um determinado poder aquisitivo, por exemplo.

Atualmente, os third places são baseados no espaço e tentam ser o mais diverso possível. O ambiente físico ganha relevância e é projetado para permitir e incentivar o acesso a diversas pessoas, de diversas origens.

O objetivo é mesmo proporcionar interação social ao ponto de as pessoas se apegarem ao local. A partir daí, se estabelece o vínculo entre os indivíduos e o espaço. Ele se torna, enfim, um lar.

Vai um third place pra chamar de seu?

Essa definição me lembrou o Velho Espanha, bar aqui de Salvador onde os progressistas costumam se reunir para sambar e aproveitar a boemia que a vida poderia lhe oferecer, fora do tradicional circuito do Rio Vermelho. O bar dos Barris tem uma história bonitinha, que já sugere um aconchego, o clima de segunda casa ou, ainda, de lugar onde a gente reúne a turma pra se encontrar. É uma graça.

+ Velho Espanha: Tradição para quem gosta de reunir os amigos numa mesa de bar

No entanto, a mesma definição de third place me fez questionar se tenho, de fato, um lugar pra chamar de meu. Primeiramente, porque não costumo sair assim sempre. Segundo, porque eu jamais parei pra observar por que vou aos mesmos lugares.

É diferente de pedir comida em casa nos mesmos lugares. Neste caso, eu já elimino o fator sociabilidade e construção do sentimento de comunidade inerente à definição.

E eu peço sempre nos mesmos lugares por dois bons motivos. O primeiro deles, costumam ter preço acessível. O segundo, eu já sei que é bom. Particularmente, detesto o risco de experimentar um lugar novo e a comida ser ruim! rsrs

Expandi o raciocínio e alcancei outros lugares da minha sociabilidade: academia, shopping, açaí, centro espírita. O primeiro, eu levo em consideração o preço e, depois, como me sinto. Então, talvez, a academia escolhida seja um “third place“. Entre aspas mesmo, porque não chega ao ponto de me sentir tal qual uma segunda casa.

Shopping é funcional. Está no caminho, tem o que preciso para despachar demandas e seguir meu rumo.

Já o açaí… Bom… O centro espírita é também um lugar a pensar.

O que nossos lugares dizem sobre nós?

Conhecer esse conceito dos third places me fez chegar à conclusão que eu posso até não me sentir em casa ou parte de tais espaços, ou que os frequento sempre por pura praticidade. No entanto, preciso admitir: racionais ou não, todas essas escolhas dizem alguma coisa sobre mim.

Os fatores que me fazem sentir à vontade para continuar numa academia têm a ver com a forma como me sinto diante de todos aqueles estímulos. Optar por um lugar mais simples para tomar meu açaí pode estar mais associado ao modo como tento levar minha vida. Frequentar o centro espírita A e não o centro espírita B é resultado de sentimentos e situações que falam mais sobre mim do que sobre o espaço em si.

A conclusão é incontestável, então. Se fala mais sobre mim, incorre também em falar mais sobre reconhecer e acomodar minhas necessidades. Exatamente como a pesquisadora Setha Low escreveu.

Sendo assim, eu devo ter meus third places. E sei exatamente o porquê de eles serem meus.

Já parou pra pensar em qual seria o seu?


A lógica dos “nossos lugares” poderia se aplicar facilmente às pessoas, não é? Não é todo lugar que nos cabe, da mesma forma que não é todo mundo que tem algo a nos acrescentar. Conto mais sobre isso nesse texto. Confira!

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