O que podemos concluir sobre as coleções com moletom lançadas na quarentena?

As novidades são bem parecidas e nos fazem questionar: Por que tão semelhantes? Por que tão caras? Quem pode usar moletom no Brasil, afinal?

É oficial: o moletom caiu nas graças de quem valoriza, e pode sustentar, o conforto. O período em casa devido à pandemia do novo coronavírus escancarou a necessidade de peças confortáveis e apresentáveis, porque de alguma sorte as que usamos para trabalhar no cotidiano não dão conta do bem estar e as que usamos para os dias de bobeira não são apropriadas o suficiente para a videochamada.

O moletom, ou hoodies, em inglês, caiu como uma luva para esse período. Não à toa assistimos a três lançamentos interessantes de coleções que tinham como elemento central a peça de algodão e poliéster. A empresária Helena Bordon e as atrizes Thaila Ayala e Marina Ruy Barbosa apostaram num dos ícones do sportswear e do street wear para investir tempo, imagem e dinheiro.

As novidades são bem parecidas e nos fazem questionar: Por que tão semelhantes? Por que tão caras? Quem pode usar moletom no Brasil, afinal?

Conforto e estilo

Estivemos trancafiadas em casa, oficialmente, entre março e julho. Nos dois últimos meses desse período de quarentena, Helena Bordon, Thaila Ayala e Marina Ruy Barbosa movimentaram as redes sociais com seus lançamentos. Alguns mais polêmicos do que outros, certamente.

Foi o caso da atriz Thaila Ayala, que em junho lançou a marca VIR.US, toda focada em moletons. O nome repercutiu negativamente nas redes sociais, por causa da pandemia. Depois do episódio, Thaila e suas sócias renomearam a marca para Amar.ca.

Foto: Divulgação/ Amar.ca

Em entrevista a Ela Digital, de O Globo, Thaila contou que a aposta da brand era produzir peças confortáveis para quem estava trabalhando de casa durante a quarentena. A marca, segundo ela, tem cadeia produtiva sustentável e feminina.

No mês seguinte, a empresária Helena Bordon lançou a segunda coleção de sua marca de moda, a Helena Bordon Essentials. Tendo como elemento central o moletom, foram dois modelos de casacos e dois modelos de calças em cores diferentes. A proposta cool e confortável se materializa em peças que, segundo a marca, são feitas 100% em algodão.

Em seu site, Helena Bordon trata as peças como possíveis para um aerolook e que podem ser usadas em conjunto ou não, como também em diferentes ocasiões. Dos três lançamentos, é o que parece mais fácil de incluir em contextos mais chiques sem parecer tão despojado quanto sugere o moletom.

Marina Ruy Barbosa se inspirou na arte e no design para as blusas, calças e shorts da Ginger, lançada também em julho. A primeira coleção, Prefácio, foi toda em moletom com cores como laranja, off-white e lilás.

+ Veja também: O lançamento da Ginger, marca de Marina Ruy Barbosa

O lançamento repercutiu bem nas redes sociais, apesar dos preços elevados. O short custa R$ 367, enquanto uma blusa que mistura tendências do ombro estruturado e mangas bufantes chega a custar R$ 527.

Marina garante que os preços são altos devido a fatores como qualidade dos tecidos, detalhes do acabamento, matéria-prima que gera menos impacto e o formato slow fashion com produção em menor quantidade.

Em entrevista ao UOL, a ruiva explicou que a sustentabilidade é uma preocupação da marca, que ainda tem como valores qualidade, versatilidade e estética apurada.

Kanye West Way of Wear

Quem vê o hype do moletom hoje, certamente, pode não lembrar que há alguns anos o item era marginalizado e suscitava preconceitos. A peça ganhou popularidade na cultura hip-hop e passou a ser usada por grafiteiros nos anos 1970 para garantir seu anonimato, de acordo com reportagem do Metrópoles.

Isso porque o capuz e as mangas longas protegem a identidade de quem usa. Por anos os moletons foram associados ao crime.

Uma exposição do Het Nieuwe Instituut dedicada aos hoodies contou a trajetória da peça, que representa diferentes aspectos do nosso tempo: desigualdade social, racismo, subcultura, brutalidade policial, medo, privacidade, cultura jovem, estilo. O escritor Troy Patterson, em artigo para a New York Times Magazine, lembra que essa cultura jovem foi responsável por tirar o moletom da esfera do sportswear e trazer para o street wear.

Foto: Divulgação/ Helena Bordon Essentials

Conforme conta, os hoodies foram desenvolvidos nos anos 1930 pela Champion Athletic Apparel para manter jogadores de futebol aquecidos nos bastidores. No entanto, os itens também atraíram empresas que atuavam em operações com retroescavadeiras, pickers e empilhadeiras.

Um trecho interessante do seu artigo ilustra como o moletom era simbólico para os garotos do hip-hop novaiorquino:

Havia e há um teatro do capô: puxando-o para cima com um floreio, puxando-o para baixo para se acomodar em sua postura enérgica. O capuz emoldura um look sujo, obscurece acne e ansiedade, mascara fones de ouvido na sala de estudos, forma um cone de solidão que bastará para um reino autônomo.

Troy Patterson, em para a New York Times Magazine

Das ruas e da periferia social, o moletom ganhou status de luxo ao desfilar nas passarelas da Vetements e da Balenciaga. Dominou as ruas, virou símbolo de estilo, passou a ter novos contornos e detalhes. O capuz também é bordado, os ombros ficam mais estruturados, até mesmo a gola alta vira inspiração.

Com a Yeezy, marca de Kanye West, a potencialidade do moletom foi ainda mais explorada. Em um grupo de amigas, brincamos com a moda do Kanye West Way of Wear. Tá na moda.

Quem está autorizado a usar?

Uma das coisas que mais me chamam a atenção na moda é a distinção social a partir da roupa. Geralmente, o ciclo funciona assim: os alfas e os betas, públicos inovadores e disseminadores, lançam e exploram uma tendência; nós, mera massa, estranhamos no início, nos familiarizamos até acharmos que combina com quem somos; daqui que passemos a usar e nos consideremos “na moda”, os alfas e betas já estão em outra.

Distinção. Eles se diferenciam o tempo todo.

No caso particular dos moletons, entendo o momento e a dinâmica. Esquenta, aquece, estimula a ideia do conforto. É a acolhida que precisamos em momentos desafiadores como os de pandemia. Mas entendo também como um símbolo de distinção ressignificada que foi apropriada pela indústria da moda.

Foto: Divulgação/ Ginger

Quem pode usar moletons hoje?

Não falo em relação às temperaturas, porque o Brasil é imenso e possui características climáticas diversas. A questão é o que Troy Patterson também questionava, lá em 2016, em seu artigo para a New York Times Magazine.

Os códigos sociais são estáveis e efetivos para determinar quem é o que, quem tem o que, de modo que questões de classe e raça continuam sendo os parâmetros de interpretação consolidados pelos estereótipos. “Quem tem o direito de usar um [moletom] sem objeção?”, Patterson pergunta.

Uma sociedade preconceituosa como a nossa certamente não aceita que qualquer pessoa vista moletom para trabalhar. Minorias sociais precisam reforçar na sua imagem a credibilidade que o outro não consegue reconhecer. Não é todo trabalho que aceita a casualidade, simplicidade e informalidade do moletom.

Quem são as pessoas que trabalham em ambientes que acolhem essa peça?

Não é todo mundo que está autorizado a usar moletom hoje. Não é todo mundo que tem R$ 300 disponíveis para comprar uma peça pra ficar em casa. Não é todo mundo que vai apostar em peças de manga longa, capuz, gola alta para andar na rua, pegar um ônibus, ir ao mercado, o que for.

Quem seria, então?

Deixo com vocês essa resposta.


O moletom dominou o street wear no inverno de 2018, mas, como já vimos, ela está longe de sair da moda. Veja aqui algumas inspirações para experimentar a peça!

Tipos de casacos para nos aquecer naqueles dias frios

Tudo bem que os fiscais do frio não acreditem que 25ºC são capazes de motivar o nordestino a tirar seus casacos do armário, mas fato é que a gente tira. E quem não tira, porque não tem, também não pode passar frio. E nem você, que enche o peito pra dizer que é no Sul que faz frio, não pode ficar descoberto quando as temperaturas ficam próximas de zero. O que eu quero dizer com todo esse sarcasmo?! Temos disponíveis algumas opções de casaquinhos – alguns não tão inhos assim – para nos aquecer nos dias mais frios. Tome nota!

Doudoune

Caracterizado por: é jaqueta de náilon forrada de pluma de ganso ou material sintético, segundo a especialista Glória Khalil.
É o querido dessa temporada de outono/inverno, carinhosamente referenciado ao edredom que nos força a perder a hora nas manhãs mais frias. É apropriada a temperaturas mais rigorosas, porque protege do vento e do frio. Por ser mais volumosa (embora diga-se que não pesada), é bacana usá-la com peças de baixo mais justinhas, pra equilibrar o visual. Substituir a calça skinny, por exemplo, pela meia-calça torna a composição bem atual. Há quem diga que dá para usar esse modelo em diferentes ocasiões, então não precisa ter medo, ok?

Kylie Jenner usa uma doudoune, jaqueta de náilon que lembra o edredom de nossa casa (Foto: Reprodução / Instagram)

Moletom

Caracterizado por: é um tipo de tecido macio, feito de algodão ou lã.
É um clássico americano criado inicialmente com capuz pela marca Champion nos anos 1930 para proteger trabalhadores do vento e do frio, segundo uma reportagem do Vice. O hoodie, como foi batizado, ganhou status cool desde quando as marcas de moda aderiram ao street wear e à cultura hip hop. Hoje você encontra diferentes modelos, estampas e cores de moletons para te proteger do frio. O mais legal de ter essa peça é poder combiná-la de modo a compor estilos distintos: uma saia mídi evasê com sapatilha fica bem menininha, uma bota pesada e calça jeans destroyed deixam o look mais agressivo; jeans skinny de lavagem escura e mocassim fazem com que o moletom perca o ar preguicinha que ele transmite.

Trench

Caracterizado por: inspirado numa peça militar, tem comprimento mídi, mangas longas, pode ser fechado por botões ou faixa, é acinturado e protege das intempéries
A peça criada por Thomas Buberry em 1914 para oficiais britânicos é uma daquelas que ultrapassam as barreiras do utilitário. Não é muito comum ver essa peça na região Nordeste do Brasil (acho que nem no próprio país), mas a conhecemos bem de filmes americanos. E se um dia precisarmos usá-la, já dá pra pegar algumas inspirações daí: dá pra usar aberto ou fechado, geralmente é um sobretudo que arremata a nossa proteção contra o frio, é adequado para ocasiões formais e informais. Uma dica é usar o trench fechado, como um vestido mesmo, por cima apenas de uma legging ou meia-calça, se aguentar.

Jaqueta

Caracterizado por: mangas longas, comprimento pode ser até a cintura ou descer um pouco mais; geralmente é fechada por botões e costuma vir em jeans
Essencialmente utilitário, o jeans hoje tem status de estilo e modernidade, sem perder de vista a praticidade. O mesmo acontece com as jaquetas, antes associdas ao trabalho árduo (fazendeiros, ferroviários e mineradores), mas imortalizada na imagem do cowboy. A peça ganhou popularidade na segunda metade do século XX, segundo o site Só Queria Ter Um, quando foi adotada por artistas, intelectuais, estrelas do rock e punks. Se usados os modelos com colarinho amplo, faz referência aos Dândis, os homens considerados mais estilosos da história da moda, e deixa a produção marcante. Se usar fechada e acinturada, lembra a Era Vitoriana – e para não restar dúvidas desse visual clássico, vale arrematar com saia rodada. Mas se você optar por usar a jaqueta aberta, combinada com estampas coloridas, a referência vai ser ao exótico do início do século XX. Miçangas, brincos longos e sandália rasteira de tiras finas completam o visual. Você ganha um visual rocker com a jaqueta de couro, mais comumente utilizada à noite, mas o contraste com peças mais suaves pode levá-la ao look do dia.

Cardigã

Caracterizado por: feito de lã leve, tem decote em V e botões
Conta-se que o cardigã é fruto de uma insatisfação do militar James Thomas Brudenell, conhecido também como Lorde James Cardigan, durante a Guerra da Crimeia (1853-1856). A peça na época era um paletó militar de malha lã penteada com mangas compridas, com debruns de pele ou galões abotoados na frente, segundo o Terra. Por outro lado, há quem diga que a peça é um derivado do suéter, que não tem botões. Pode ser usado aberto, como terceira peça para diferentes propostas. Uma alternativa é usá-lo fechado, como uma blusa. Se usado com saia mídi, relembra o New Look de Christian Dior, enaltecendo o feminino discreto. sapatilha ou salto gatinho com bico fino reforçam a feminilidade proposta pelo estilista logo após a 2ª Guerra.

Parka

Caracterizado por: pode ser considerada uma jaqueta no comprimento mídi, pode ter capuz, costuma ser fechada por zíper, não é justa ao corpo.
O nome tem origem na língua do povo Nenets, que vivia no que hoje é o norte da Rússia, segundo o site da Farfetch, mas a peça só veio a ser desenvolvida no século XX, para uso militar. Ela conseguia manter os soldados aquecidos em temperaturas de até -50oC, por causa do exterior feito de seda e nylon mistos, além de lã. A adoção ao cotidiano veio nos aos 1960. A parka militar, com padronagem camuflada, tem sido a queridinha do street style já há algum tempo. As variações são as peças lisas nas cores verde oliva e cáqui. Dá para usá-las em diferentes propostas, mas ganha personalidade quando combinadas a peças listradas ou em xadrez – neste último caso, garantindo um visual com referências grunge. Cores neutras podem ser uma alternativa, se você não for dada às ousadias fashionistas.

Esta sou eu ostentando a parka do meu pai, num desses dias de outono. (Foto: Moça Criada)

Terninho/blazer

Caracterizado por: item da alfaiataria, é fechado com botões, seu comprimento pode variar entre a altura do quadril e um pouco mais abaixo,
Essa é uma opção para quem gosta da elegância da peça clássica. O blazer, um dos itens do terno inicialmente feito para homens, tem sido uma das peças mais desconstruídas em termos de adaptabilidade. Quero dizer com isso que você pode usá-lo para se proteger das temperaturas mais baixas vestindo desde os looks mais básicos e para ocasiões mais simples até aqueles mais refinados para ocasiões mais formais. Sem contar que dá para manter a elegância no momento de lazer, trocando a calça ou saia-lápis pelo short jeans, a camisa de botão por uma blusa não tão justa ao corpo e o escarpin pelo tênis, por exemplo. Fica a seu critério.

*Uma dica: se você vai comprar um casaco novo, que tal abrir espaço no armário doando o que você já não quer mais para alguém que precise?! 😉

Veja mais:
http://chic.uol.com.br/como-usar/noticia/doudoune-pelerine-e-trench-gloria-kalil-ensina-a-usar-as-tres-principais-pecas-do-inverno-do-frio-pesado-ao-leve
https://www.vice.com/pt_br/article/d7g9zk/a-historia-do-hoodie-moletom-com-capuz
https://www.soqueriaterum.com.br/
https://www.terra.com.br/vida-e-estilo/moda/cardiga-tem-nome-ligado-a-guerra-da-crimeia-entenda,b3983e359bbc4410VgnVCM20000099cceb0aRCRD.html
https://www.farfetch.com/br/editorial/moda-feminina-parka.aspx
http://www.fashionbubbles.com/historia-da-moda/o-terninho-classicos-da-moda/

Moletom é queridinho da temporada de outono-inverno 2018

O street wear segue firme nessa temporada de outono-inverno. Mas se a queridinha no ano passado era a jaqueta bomber, tudo leva a crer que desta vez o moletom vai ocupar esse espaço. E pelas minhas percepções o moletom aparece não apenas como o casaco neste tecido, mas qualquer peça que venha nesse material macio e quente.

De todo modo, o moletom apareceu em diferentes composições nas edições 43 e 44 da São Paulo Fashion Week, em produções da Cotton Project, À La Garçonne, Memo e Juliana Jabour, bem como no último desfile do Minas Trend para a temporada de baixa estação. Neste último caso, o moletom apareceu nas coleções da Molett e Lucas Magalhães.

Não tem sido muito difícil encontrar moletons pra gente desfilar por aí. Já vi algumas peças divertidas na Riachuelo e outras no melhor estilo Kylie Jenner na Forever 21. O bacana dessa tendência, pelo menos pra mim, é que rompe com aquela ideia de que moletom é mais colegial. As composições feitas nas passarelas sugerem um jeito moderno e maduro, mas também divertido, de usar a peça.

Um jeito básico e confortável de usar o moletom é com calça jeans ou legging e tênis, ou um conjuntinho com casaco e calça na mesma tonalidade ou estampa. Quem prefere arriscar pode usar o moletom com alfaiataria ou combinado a outra jaqueta, de couro ou jeans. Dá também pra imprimir personalidade usando o moletom sobre camisa de gola Peter Pan ou uma peça com babados. O moletom no shape oversized é outro jeito bem modernoso de usar o casaco – e um passarinho soprou que o tamanho giga segue firme nessa temporada, viu?

Um truque de styling bem moderninho é combinar uma blusa de manga comprida sob o moletom com as mangas dobradas. Aí vai depender frio que você estiver sentindo. Outra opção é usar o casaco de moletom na versão cropped, com a qual você pode estar pronta para a balada se combinar com uma saia de cintura alta e uma bota de solado tratorado. Ou com outras peças que você achar mais confortável também, sem neuras.

Como o moletom agora tem sido aceito nas rodas mais chiques, sua escolha pode ser também por peças que tenham detalhes chamativos, como pedrarias e bordados. Caso queira um casaco mais neutro, complemente o visual com acessórios de destaque. Saltos também costumam chamar a atenção em looks assim, mas não precisa encarar como regra. Um sapato baixo que tenha a ver com sua personalidade certamente arrematará de um jeito bem melhor o seu visual.

Já tem planos pra botar o moletom pra jogo nos próximos meses?

Veja mais:

Moletom: A peça-chave do conforto também pode compor looks modernos. Inspire-se nas passarelas 

Molett – Outono-Inverno 2018 

Lucas Magalhães – Outono-Inverno 2018 

Juliana Jabour Primavera-Verão 2017/18