Extravagante é otimismo ou um escape?

O extravagante é uma das tendências listadas pela Vogue Portugal de março, após um ano de pandemia do coronavírus. Que perspectiva isso sugere?

O princípio fashion de que menos é mais está a cair por terra na temporada de alta estação do Hemisfério Norte. O extravagante é uma das tendências listadas pela Vogue Portugal de março, após um ano de pandemia do coronavírus.

Segundo a publicação, a época pede mais cores, mais estampas, mais mix de estampas, mais exuberância. Literalmente, “looks estrambólicos”.

Difícil imaginar tantas cores e vida daqui da América Latina, Brasil, Nordeste, Pernambuco, em meio ao colapso no sistema de saúde que incorre em mortes na fila de espera de um leito de terapia intensiva. Como vislumbrar extravagância no epicentro da Covid-19 no momento, que sofre não apenas por causa da crise sanitária, como também pelo desemprego, pela fome e pela falta de perspectivas no curto, médio e longo prazos?

Mas havemos de considerar que Vogue Portugal não fala para o Brasil, tanto do ponto de vista geográfico quanto cultural. Portugal é outra dinâmica.

Dados do Centro Europeu de Controle de Doenças (ECDC, na sigla em inglês) desta quinta-feira, 18, indicam que o país é aquele com menos casos de coronavírus entre as nações que compõem a União Europeia. Em relação ao número de óbitos, Portugal é o oitavo país com menos mortes por Covid-19 no bloco econômico. Em 14 dias, o número de pessoas hospitalizadas caiu para menos da metade.

Obviamente uma revista mensal não é produzida em um mês e a Vogue Portugal não trouxe a pauta pensando nesses dados de hoje. Os planos para a temporada de primavera-verão estão sendo pensados desde o início do ano, quando começou a campanha de vacinação na Europa.

Em janeiro falava-se na criação de uma espécie de passaporte de vacinação, apesar dos lockdowns decretados na época em diferentes países. O certificado comprovaria que a pessoa já não apresenta alto em risco em viagens. Controverso, mas em discussão.

Otimismo ou escape

Falar em “magia da extravagância“, como sugere a publicação, levanta a questão: é o otimismo de dias melhores ou escape à realidade que se impõe há um ano e sem qualquer previsão de término?

Outro dia escrevi aqui no blog sobre o lúdico como uma forma de escapar à vida real que nos cansa. Não seria também o extravagante, aquilo que por definição está fora do uso habitual e é estranho ou excêntrico para os padrões cotidianos? Talvez a gente precise mesmo desviar a atenção, encher os olhos de exuberância para compensar a monotonia das quatro paredes de casa.

No entanto, estranho a iniciativa quando há tanto para ser visto. As crises estão escancaradas, afinal, e, humanos como somos, creio que dificilmente apostaríamos em tanta diversão se percebêssemos que o caos se prolongaria.

É por isso que levanto também a hipótese do otimismo. Momentos críticos da história tiveram seu fim marcado por movimentos exuberantes da moda – coincidentemente ou não. Nos anos 1920, logo após a Primeira Guerra Mundial e a Gripe Espanhola, esta última com inúmeras similaridades com o momento que vivemos hoje, cores fortes, formas extravagantes e contrastes deram o tom das estampas por influência dos movimentos cubista e fauvista.

Cerca de 20 anos depois, o New Look de Christian Dior virou a página da Segunda Guerra Mundial. Se no período de combate as mulheres passaram a usar roupas mais funcionais, neutras e com tecidos duradouros, o New Look resgata a delicadeza performada no início do século.

Dali em diante, a moda refletiu momentos sociais importantes. Entre eles, o direito ao voto, a conquista de liberdade sexual feminina com a criação do anticoncepcional, a entrada da mulher no mercado de trabalho.

Também considero possível a aposta no extravagante como um passo rumo à superação da crise que tanto impactou nossas vidas. O que é, exatamente, não sou capaz de cravar.

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Mas me lembro daquele ditado sobre o arco-íris sempre aparecer depois de uma tempestade. Um fenômeno colorido, de fazer brilhar os olhos, que nos enche de esperança de dias melhores.

Seria o extravagante o nosso?

Tem limite para o divertido nas tendências de moda?

Na moda, o lúdico vem como um ponto de diversão em meio ao caos e está nos acessórios, nas estampas, nos calçados, nas cores, no design, nos formatos.

Há cinco anos vivíamos um verão todo imerso em frutas. Bananas, abacaxis, laranjas, melancias… Em um texto aqui no blog até usei a expressão “fun fashion” para resumir aquele momento. O conteúdo, em si, foi uma tentativa de tirar do particular e trazer para o público uma pergunta que me fez uma amiga das antigas e racional quanto às modas: “Como será que vocês vão olhar pra essa moda daqui a dois anos?

Não sei ao certo o que pensei disso em 2018. Mas agora, em 2021, com algumas experiências na bagagem e uma pandemia em curso, me senti intrigada depois de ver uma matéria da Glamour Brasil sobre anéis divertidos serem o acessório do momento. Essa tendência seria reflexo de uma estética kidcore, dopamine dressing, screen style, que entendo como uma espécie de escapismo da realidade.

São centenas de milhares de mortos no Brasil e em todo o mundo por causa da Covid-19. O número de infectados passa dos cem milhões no mundo. Milhares de pessoas voltaram a viver abaixo da linha da pobreza. Não há qualquer perspectiva de crescimento, progresso, prosperidade ou minimamente de saúde no Brasil.

A realidade cansa

Há diversas formas de fugir do que estamos vivendo. Algumas pessoas adotam a comida como válvula de escape – e já falei sobre isso aqui também, a tendência de recorrermos ao nosso lugar de conforto e boas memórias para escapar da realidade. Na moda, o lúdico vem mesmo como um ponto de diversão em meio ao caos. Isso está em tudo: nos acessórios, nas estampas, nos calçados, nas cores, no design, nos formatos.

Pesquisando sobre o assunto, encontrei um trabalho de conclusão de curso de Diego Leandro da Silva, que fez Design na Universidade Federal de Pernambuco, sobre o movimento Memphis. Trabalho rico, bem detalhado, que me ajudou um pouco mais a entender essas escolhas.

Por que o lúdico

A estética Memphis data da época pós-modernista, lá para os anos 1970, e prega que o funcionalismo não precisa ser o único princípio para o design, digamos. É possível adotar diversos elementos nos objetos, atribuindo valor estético e emocional para aquilo.

De acordo com o trabalho, o movimento Memphis foi inspiração para a moda dos anos 2010 – época das frutas, como mencionei no início do texto. Marcas como Moschino, Adidas e Ronaldo Fraga adotaram elementos que caracterizam essa estética e incorrem no lúdico.

Entre as características do lúdico está a harmonia entre contrastes de cores e de formas, representados pelas cores quentes e frias e pela assimetria, quando lados opostos são estruturados de formas distintas.

Brincar com uma maior variedade de elementos faz com que o momento se torne mais dinâmico, e a harmonia não é possível ocorrer apenas com um elemento formal. É necessário a variedade de elementos capazes de proporcionar os encaixes, as junções de peças que são atributos até mesmo que necessitam da interação do indivíduo.

Silva, 2017

No trabalho, Silva cita Silvia Orsi Koch (2016) para dizer que o humor, uma emoção despertada pelo lúdico, é um posicionamento de espírito que provoca o riso e transmite a sensação de bem-estar e prazer. E é essa sensação que nos afasta das preocupações, nos aproximando de uma vida leve, tal qual vivíamos na infância.

Entendo a escolha e o surgimento dessa tendência até aqui. Mas me questiono até que ponto o lúdico é válido para todo mundo.

Todo mundo pode usar?

Uso o caso dos anéis divertidos da Glamour Brasil só como gancho pra questionar se todo mundo pode usar o lúdico, o divertido. Penso que não. E aqui fica a deixa para quem acha que deve seguir todas as tendências de moda. Não precisa.

Alguns pontos me fazem acreditar que esse tipo de tendência não é pra todo mundo, assim como várias outras não são. E não digo isso como ditadora de regras ou bastiã da moral e dos bons costumes. Não é isso. Mas parto do ponto de vista sociocultural.

Em primeiro lugar, a nossa imagem sempre passa uma mensagem. Roupas, cabelo, acessórios, calçados, tudo reflete um código de vestimenta ou de identificação social que nos faz criar associações comportamentais. Quando vemos alguém vestindo uma saia lápis, blusa de botões com tecido fino, calçando um scarpin, usando uma bolsa estruturada, com maquiagem bem feita… Bom, a tendência é especularmos que aquela pessoa vive num ambiente mais formal. Por outro lado, quando vemos alguém usando uma calça mais folgadinha de algodão cru, uma camiseta cropped de tecido leve, cabelos mais desgrenhados, pouca maquiagem, nossa percepção é outra.

Agora imagine que tipo de ambiente deve frequentar uma pessoa que se adorna com anéis divertidos. Que estilo de vida deve ter essa pessoa; que imagem ela possui a que julgamento ela será submetida. Infantil? Síndrome de Peter Pan? Criativa? Ousada?

Quem vai usar

E aí eu parto para o segundo ponto desse insight: quem vai usar. No jornalismo existe algo que orienta todo o comportamento do produto jornalístico, que é a linha editorial. Com quem se pretende dialogar, de que forma será o diálogo, quais serão os assuntos desse diálogo, qual o posicionamento do produto nessa conversa.

Fiquei pensando no porquê esse tipo de conteúdo sairia num site como da revista Glamour Brasil. Ler o mídia kit da revista me ajudou a entender. O documento é usado pelo time comercial para prospectar anúncios e reúne informações da publicação e do seu público.

No caso da Glamour: mulher jovem, acima de 25 anos, classe AB, que trabalha e é dona da sua própria casa – consequentemente é uma pessoa independente, com ideias próprias, firmes. Partindo dos valores da Glamour, a gente ainda observa outras características: ser ousada, acreditar em propósitos, se ver como uma pessoa livre, valorizar a autoestima, ser divertida.

Me faz pensar em uma outra relação. Não que outros estilos de mulheres e valores sejam engessados essencialmente, mas esses orientam quem se pretende alcançar. Não é todo mundo. Quem é conservador em alguns aspectos, por exemplo, talvez não adote atitudes mais livres ou independentes. Da mesma forma, quem é mais ousado dificilmente vai aderir a posturas mais tradicionais. E isso implicas escolhas pessoais e profissionais também.

E está tudo bem. Somos diferentes, somos diversas mesmo. O natural é isso. O melhor é que não precisamos fazer o que todo mundo diz, ou o que todo mundo faz.

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Com o lúdico, da mesma forma. Não que devamos torcer o nariz pra essa tendência, excelente para momentos de escape. Mas talvez seja válido pensar se a gente precisa adotar o lúdico, e quando adotar.

Qual é a imagem que você quer passar? Qual é a imagem que você possui sobre si mesma? Como a gente lê uma pessoa que aposta no lúdico – e quem é essa pessoa, exatamente?

Vale pensar.

Ranking elege Riachuelo a marca de moda mais admirada do país

A empresa, parte do grupo fundado por Nevaldo Rocha, foi bem avaliada nas mensagens sobre a empresa postadas nas redes sociais pelos consumidores.

A Riachuelo é a marca de moda mais admirada do país, de acordo com ranking elaborado pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo (Ibevar) e pela Fundação Instituto de Administração (FIA). O levantamento elege as empresas mais representativas no varejo brasileiro em 17 segmentos.

A empresa, parte do grupo fundado por Nevaldo Rocha, foi bem avaliada em mensagens postadas pelos consumidores nas redes sociais. O levantamento utilizou tecnologia de mineração de dados para coletar os conteúdos.

Para avaliar a opinião dos consumidores e definir padrões, foram aplicados critérios de análise semântica e linguística, por meio de Programação de Linguagem Natural. As informações são da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit).

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“Esse ano, todos passamos por um período delicado e desafiador por conta da pandemia, em que o mundo todo enfrentou e, ainda enfrenta, uma crise global. Mas seguimos resilientes, firmes com nossos valores e carregando o propósito de transformar vidas – essa é a essência da Riachuelo”, disse o diretor Executivo de Marketing, Elio Silva.