Compulsão alimentar: Por que você deve se atentar à fome emocional

Em momentos difíceis, tendemos a recorrer a comidas que nos deixam mais felizes, como pizza e hambúrguer. Já pensou no perigo que é descontar angústias na alimentação?

“A gente não come nutrientes, mas come cultura, afeto, memória, sentimentos” é uma frase que já ouvi e li algumas vezes de profissionais da nutrição. E faz todo sentido. Não é à toa que em momentos de tensão ou insegurança, por exemplo, recorremos a comidas que nos deixam mais felizes, como pizza, hambúrguer, brigadeiro e sorvete.

Tem um quê de alquimia nisso. A psicóloga Jéssica Bonfim (CRP 03/17860) destaca que as coisas que ingerimos são responsáveis por algumas químicas cerebrais. Batata frita e suas gorduras trans, o chocolate que libera sensação de prazer, a Coca-Cola…

“A sensação de prazer da batatinha, do refrigerante, do chocolate, vem do açúcar. Açúcar eleva nível de dopamina no cérebro. Quando algo é prazeroso, sempre acho que é preciso mais. Quanto mais como, mais tenho sensação de prazer por causa dessa dopamina. E claro que o açúcar tem tempo de vida no organismo. À medida que for saindo, a bad vem de novo e tenho a necessidade de comer de novo”.

Jéssica Bonfim, psicóloga

É esse ciclo que está por trás do transtorno da compulsão alimentar.

O que é compulsão alimentar

O transtorno da compulsão alimentar não é só comer demais. Às vezes se trata apenas de um exagero alimentar. Alguns elementos devem ser observados.

De acordo com a psiquiatra Camila Coutinho, da Clínica Holiste, o exagero alimentar ocorre de forma episódica. É o comer além da conta, de maneira consciente, numa festa de Natal ou naquele rodízio de carnes e massas.

A compulsão, por outro lado, é descontrolada e impulsiva. Geralmente, traz grande sofrimento, tristeza, vergonha, culpa e angústia. Uma característica da compulsão alimentar é a ingestão descontrolada e em grande quantidade de alimentos, mesmo sem sentir fome, num curto espaço de tempo.

O alerta para esse transtorno deve se acender também se a pessoa comer muito rápido até se sentir cheia, e preferir comer sozinha para evitar o constrangimento de ser visto comendo. A compulsão alimentar é um transtorno diagnosticado clinicamente, quando esses sintomas acontecem pelo menos uma vez por semana por três meses.

“Todos nós temos uma relação afetiva com o alimento. Essa relação afetiva, em muitos casos, pode ser patológica, como comer porque está triste ou angustiada – na tentativa de buscar um prazer imediato e não lidar efetivamente com o desconforto emocional. É fundamental procurar ajuda médica e multiprofissional especializada, visando compreender a origem dessa ‘fome'”.

Camila Coutinho, psiquiatra

Compulsão alimentar e as “comfort foods”

Dificilmente vemos alguém com transtorno alimentar se debruçar exageradamente sobre um prato de feijão com arroz, ou de um pote de salada de verduras. O mais comum são alimentos que nos remetem a alguma época em que nos sentíamos minimamente seguros.

Falamos logo no início da questão hormonal decorrente dos alimentos ricos em gorduras trans e açúcares, que é um fator preponderante. Por outro lado, a nutricionista comportamental Luana Galdino chama a atenção também para a relação que desenvolvemos com certos alimentos.

Lembra de quando você era criança e seus pais te convenciam a comer todo o almoço porque depois você teria direito a sorvete? Ou condicionavam sua ida ao McDonald’s no final de semana à alimentação regular, com verduras e frutas, de segunda a sexta-feira?

Bom, isso ajuda a explicar por que crescemos com a ideia de que só as comidas mais “infantis”, como pizza, hambúrguer ou tortas, serão capazes de nos fazer sentir bem.

via GIPHY

“A gente tem muito a cultura de que doce, pizza e torta são comidas de criança, porque na infância é feito muita barganha para que a criança coma o que seria nutricionalmente mais adequado. Os pais dizem, por exemplo, que ao comer o almoço todo você vai ganhar sorvete. No momento que ofereço doce pra criança só se ela comer salada, feijão ou carne, automaticamente ela vai relacionar que é algo ruim. E reforça que só o sorvete é bom ou dá prazer, e que os outros alimentos do dia a dia não são tão agradáveis assim”.

Luana Galdino, nutricionista comportamental

Em situações como essa, a saída é trazer para o racional. Na nutrição comportamental, um dos exercícios é o diário alimentar, onde a pessoa registra:

  • o que comeu;
  • o nível de fome e saciedade naquele momento;
  • onde estava;
  • com quem estava;
  • quanto tempo durou a refeição;
  • que pensamentos e sentimentos foram observados antes, durante e após a refeição.

Isso torna mais fácil identificar a causa dessa fome emocional que leva à compulsão alimentar. Mas se for realmente necessário comer determinado alimento para que a pessoa se sinta melhor, então o ideal é que o foco esteja naquele momento. Luana Galdino explica melhor.

“Se eu identifico que não estou com fome, mas preciso de tal alimento, vou comer com atenção plena aquele determinado alimento. Se vai ser chocolate, vou pegar uma porção pequena e comer, realmente apreciando e tendo o prazer de saborear aquele alimento, prestando atenção em tudo: sabor, textura, qual sensação me traz, quais sentimentos me desperta, qual o nível de alívio que sinto comendo aquele alimento. Que seja uma experiência mais profunda, para que tenha aquele momento de prazer e eu não tenha a impulsividade de precisar comer rapidamente”.

Luana Galdino, nutricionista comportamental

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É transtorno, mas uma defesa também

Conforme o indivíduo faça o exercício proposto pela nutricionista Luana Galdino, a tendência é a conclusão de que aquele alimento não é tão prazeroso assim. Conforme o indivíduo observe o que o faz recorrer à comida sempre, a tendência é a percepção de que a compulsão alimentar é uma espécie de mecanismo de defesa da própria mente.

A psicóloga Jéssica Bonfim compara esse transtorno à automutilação. Como a dor emocional não é palpável, há pessoas que precisam sentir no físico para ter a sensação de que a dor emocional está passando – ainda que momentaneamente.

Da mesma forma, para que a compulsão alimentar se instale, geralmente a pessoa já sofre de algum transtorno emocional.

“A compulsão alimentar pode ser identificada quando o indivíduo percebe que tem um mal estar instalado, emocionalmente falando, e ele cria essa necessidade de usar a alimentação como forma de amenizar a sensação ruim que está sentindo. Por isso tem gente que fala: ‘Quando como me dá paz’. A comida não pode ser subterfúgio para curar o que se está sentindo internamente”.

Jéssica Bonfim, psicóloga

Jéssica alerta também quem faz muitas dietas rígidas. O indivíduo pode até não possuir nenhum transtorno emocional, mas pode desenvolver a compulsão alimentar se fizer dieta de restrição.

De acordo com a especialista, a privação de comer o que lhe dá prazer acaba gerando no corpo a necessidade de comer exatamente aquilo ali. E, numa compulsão, dificilmente se comeria apenas um pouquinho.

“A privação gera compulsão. E vem a culpa, e vem a privação, e com a privação vem a compulsão. Hoje em dia, nenhum nutricionista trabalha com a dieta de restrição, porque não funciona”, acrescenta.

Como tratar a compulsão alimentar

As especialistas que consultamos deram dicas importantes para o tratamento da compulsão alimentar que se resumem em uma só: procure ajuda especializada.

A fome emocional é resultado de um processo que se desenvolve na nossa mente. Seja por ansiedade, por depressão ou por qualquer outro fator, descontar na comida é um paliativo que, como tal, não ataca a raiz do problema.

Diante disso, o ideal é buscar ajuda especializada. Psicoterapia, consulta com psiquiatra, nutricionista. Cada um é capaz de te ajudar sob uma perspectiva que, quando unidas, terá impacto na situação como um todo.

“Não existe dissociação de mente e corpo. A sua mente está castigando seu corpo por causa de algo que você não quer tratar. Pense nas consequências a longo prazo que aquele transtorno emocional pode causar. Pense no que você ainda quer, no que você gostaria de viver”.

Jéssica Bonfim, psicóloga

Se você chegou até aqui e se identificou com algumas das observações, busque ajuda especializada. Se cuide!

No entanto, se chegou à conclusão que está com toda a situação sob controle e já gosta de preparar coisas gostosas na cozinha, confira os cuidados que você deve ter ao escolher sua receita!

Já escolheu as receitas pra fazer na quarentena?

Pão, bolo, pizza, massas e biscoito são as receitas mais comuns nessa quarentena. Mas, atenção: especialistas recomendam cuidado com variedade de nutrientes.

A obrigação de continuar em casa devido às recomendações de distanciamento social por causa da pandemia do novo coronavírus tem feito muita gente visitar a cozinha um pouco mais. Seja por necessidade ou por distração, pelo menos três a cada cinco Stories do Instagram são sobre pão, bolo, pizza, massas ou biscoitos, segundo dados do Instituto DataMoça.

A nutricionista comportamental Luana Galdino explica que essa ida recorrente à cozinha está relacionada ao prazer. Tanto o processo de preparação quanto a degustação do produto final podem despertar boas sensações nas pessoas.

“Acredito que seja pela necessidade de atividades prazerosas, e muitas vezes vai encontrar no ato de cozinhar uma atividade de prazer mesmo. Vai ter gente se dedicando a experimentar comidas nutricionalmente mais interessantes, saladas diferentes, preparações com carnes diferentes; no arroz e feijão do dia a dia pode dar mudada, colocar mais verduras. E vai ter quem, pela própria necessidade do momento, talvez juntando o emocional do momento que traz a necessidade de algo mais palatável e prazeroso, como não pode comprar e tem os ingredientes, pensa na economia também. Junta tudo e acaba sendo tanto cozinhar, quanto o produto final algo que vai fazer bem naquele momento ou aliviar algum sentimento”.

Luana Galdino, nutricionista comportamental

Distração na quarentena

Quem encontrou prazer em meio à necessidade foi a produtora de moda e produtora de conteúdo Déa Conceição. Em um bate-papo com o blog, ela conta que não cozinhava quase nada, até porque não curtia. Mas a necessidade de cozinhar, já que precisou dispensar a funcionária de casa, fez com que a atividade se tornasse mesmo uma distração.

“Não gostava nem de pensar no que iria ser feito no almoço, e tô descobrindo nisso uma forma de autocuidado também. Não sei se quando tudo passar vou continuar gostando dessas tarefas, mas, enquanto isso, tô curtindo aprender e botar a mão na massa”, observa.

As receitas, escolhidas conforme o grau de dificuldade, são compartilhadas em seu perfil no Instagram (@it_guel). Muitas vezes dá certo, noutras as adaptações feitas deixam a receita um pouquinho diferente.

Um brownie que adaptou, por exemplo, virou um bolo crocante. Já um bolo de chocolate acabou com a massa muito líquida, demorou demais pra assar, cresceu demais, a massa derramou no forno.

“Depois fiz seguindo a receita original e deu certo”, comemora.

Cuidado com o que come

Estamos todas indo pra cozinha, mas nem sempre dedicamos nossas habilidades a receitas saudáveis, não é mesmo? O estudo ‘Epidemia da Covid-19 no Brasil: potencial impacto na saúde mental‘, desenvolvido por Daiane Borges Machado, Flávia de Oliveira Alves, Camila Teixeira e Aline Rocha, indica que esse consumo de alimentos doces e/ou gordurosos, por vezes exagerado, é resultado dessa mudança de rotina.

Está implicada também a mudança na forma como temos acesso aos alimentos. Já que precisamos sair o mínimo possível, compramos mais alimentos estocáveis e deixamos de frequentar locais onde podemos encontrar alimentos frescos.

A nutricionista comportamental Luana Galdino pondera que não há um nutriente específico que deve estar presente nas receitas que fizermos em casa, no entanto, é preciso duas coisas: variedade e equilíbrio.

“Na nossa alimentação, tudo demais faz mal. Se eu for comer bacia de manga, com certeza vou passar mal. Assim comer chocolate em exagero vai acabar fazendo mal em algum momento”, observa.

Nesse caso, variar a alimentação é uma boa estratégia: frutas, raízes, oleoginosas, folhas. Os alimentos ultra-processados precisam vir em menor quantidade em nossa alimentação, de acordo com Luana, justamente por causa do açúcar e da gordura em demasia.

“Não tem obrigatoriamente um nutriente principal. Precisa de equilíbrio da orquestra no dia a dia”, acrescenta.

Inclusive, essa diversidade na alimentação pode impactar na saúde mental. O estudo ‘Epidemia da Covid-19 no Brasil’ indica que alguns nutrientes podem ajudar na função cerebral e contribuir para o cuidado com nossa saúde mental. Entre eles: vitaminas A, do complexo B, C, D e E; ácidos graxo poli-insaturados, como o ômega-3; e minerais, como o iodo, magnésio, zinco, selênio, potássio e ferro.

Como estão suas receitas por aí?


Estamos todas ansiosas para o dia em que poderemos retomar a nossa rotina, não é?! Confira aqui algumas expectativas para quando esse dia chegar!