Tem limite para o divertido nas tendências de moda?

Na moda, o lúdico vem como um ponto de diversão em meio ao caos e está nos acessórios, nas estampas, nos calçados, nas cores, no design, nos formatos.

Há cinco anos vivíamos um verão todo imerso em frutas. Bananas, abacaxis, laranjas, melancias… Em um texto aqui no blog até usei a expressão “fun fashion” para resumir aquele momento. O conteúdo, em si, foi uma tentativa de tirar do particular e trazer para o público uma pergunta que me fez uma amiga das antigas e racional quanto às modas: “Como será que vocês vão olhar pra essa moda daqui a dois anos?

Não sei ao certo o que pensei disso em 2018. Mas agora, em 2021, com algumas experiências na bagagem e uma pandemia em curso, me senti intrigada depois de ver uma matéria da Glamour Brasil sobre anéis divertidos serem o acessório do momento. Essa tendência seria reflexo de uma estética kidcore, dopamine dressing, screen style, que entendo como uma espécie de escapismo da realidade.

São centenas de milhares de mortos no Brasil e em todo o mundo por causa da Covid-19. O número de infectados passa dos cem milhões no mundo. Milhares de pessoas voltaram a viver abaixo da linha da pobreza. Não há qualquer perspectiva de crescimento, progresso, prosperidade ou minimamente de saúde no Brasil.

A realidade cansa

Há diversas formas de fugir do que estamos vivendo. Algumas pessoas adotam a comida como válvula de escape – e já falei sobre isso aqui também, a tendência de recorrermos ao nosso lugar de conforto e boas memórias para escapar da realidade. Na moda, o lúdico vem mesmo como um ponto de diversão em meio ao caos. Isso está em tudo: nos acessórios, nas estampas, nos calçados, nas cores, no design, nos formatos.

Pesquisando sobre o assunto, encontrei um trabalho de conclusão de curso de Diego Leandro da Silva, que fez Design na Universidade Federal de Pernambuco, sobre o movimento Memphis. Trabalho rico, bem detalhado, que me ajudou um pouco mais a entender essas escolhas.

Por que o lúdico

A estética Memphis data da época pós-modernista, lá para os anos 1970, e prega que o funcionalismo não precisa ser o único princípio para o design, digamos. É possível adotar diversos elementos nos objetos, atribuindo valor estético e emocional para aquilo.

De acordo com o trabalho, o movimento Memphis foi inspiração para a moda dos anos 2010 – época das frutas, como mencionei no início do texto. Marcas como Moschino, Adidas e Ronaldo Fraga adotaram elementos que caracterizam essa estética e incorrem no lúdico.

Entre as características do lúdico está a harmonia entre contrastes de cores e de formas, representados pelas cores quentes e frias e pela assimetria, quando lados opostos são estruturados de formas distintas.

Brincar com uma maior variedade de elementos faz com que o momento se torne mais dinâmico, e a harmonia não é possível ocorrer apenas com um elemento formal. É necessário a variedade de elementos capazes de proporcionar os encaixes, as junções de peças que são atributos até mesmo que necessitam da interação do indivíduo.

Silva, 2017

No trabalho, Silva cita Silvia Orsi Koch (2016) para dizer que o humor, uma emoção despertada pelo lúdico, é um posicionamento de espírito que provoca o riso e transmite a sensação de bem-estar e prazer. E é essa sensação que nos afasta das preocupações, nos aproximando de uma vida leve, tal qual vivíamos na infância.

Entendo a escolha e o surgimento dessa tendência até aqui. Mas me questiono até que ponto o lúdico é válido para todo mundo.

Todo mundo pode usar?

Uso o caso dos anéis divertidos da Glamour Brasil só como gancho pra questionar se todo mundo pode usar o lúdico, o divertido. Penso que não. E aqui fica a deixa para quem acha que deve seguir todas as tendências de moda. Não precisa.

Alguns pontos me fazem acreditar que esse tipo de tendência não é pra todo mundo, assim como várias outras não são. E não digo isso como ditadora de regras ou bastiã da moral e dos bons costumes. Não é isso. Mas parto do ponto de vista sociocultural.

Em primeiro lugar, a nossa imagem sempre passa uma mensagem. Roupas, cabelo, acessórios, calçados, tudo reflete um código de vestimenta ou de identificação social que nos faz criar associações comportamentais. Quando vemos alguém vestindo uma saia lápis, blusa de botões com tecido fino, calçando um scarpin, usando uma bolsa estruturada, com maquiagem bem feita… Bom, a tendência é especularmos que aquela pessoa vive num ambiente mais formal. Por outro lado, quando vemos alguém usando uma calça mais folgadinha de algodão cru, uma camiseta cropped de tecido leve, cabelos mais desgrenhados, pouca maquiagem, nossa percepção é outra.

Agora imagine que tipo de ambiente deve frequentar uma pessoa que se adorna com anéis divertidos. Que estilo de vida deve ter essa pessoa; que imagem ela possui a que julgamento ela será submetida. Infantil? Síndrome de Peter Pan? Criativa? Ousada?

Quem vai usar

E aí eu parto para o segundo ponto desse insight: quem vai usar. No jornalismo existe algo que orienta todo o comportamento do produto jornalístico, que é a linha editorial. Com quem se pretende dialogar, de que forma será o diálogo, quais serão os assuntos desse diálogo, qual o posicionamento do produto nessa conversa.

Fiquei pensando no porquê esse tipo de conteúdo sairia num site como da revista Glamour Brasil. Ler o mídia kit da revista me ajudou a entender. O documento é usado pelo time comercial para prospectar anúncios e reúne informações da publicação e do seu público.

No caso da Glamour: mulher jovem, acima de 25 anos, classe AB, que trabalha e é dona da sua própria casa – consequentemente é uma pessoa independente, com ideias próprias, firmes. Partindo dos valores da Glamour, a gente ainda observa outras características: ser ousada, acreditar em propósitos, se ver como uma pessoa livre, valorizar a autoestima, ser divertida.

Me faz pensar em uma outra relação. Não que outros estilos de mulheres e valores sejam engessados essencialmente, mas esses orientam quem se pretende alcançar. Não é todo mundo. Quem é conservador em alguns aspectos, por exemplo, talvez não adote atitudes mais livres ou independentes. Da mesma forma, quem é mais ousado dificilmente vai aderir a posturas mais tradicionais. E isso implicas escolhas pessoais e profissionais também.

E está tudo bem. Somos diferentes, somos diversas mesmo. O natural é isso. O melhor é que não precisamos fazer o que todo mundo diz, ou o que todo mundo faz.

+ VEJA TAMBÉM: O que podemos concluir sobre as coleções com moletom lançadas na quarentena?

Com o lúdico, da mesma forma. Não que devamos torcer o nariz pra essa tendência, excelente para momentos de escape. Mas talvez seja válido pensar se a gente precisa adotar o lúdico, e quando adotar.

Qual é a imagem que você quer passar? Qual é a imagem que você possui sobre si mesma? Como a gente lê uma pessoa que aposta no lúdico – e quem é essa pessoa, exatamente?

Vale pensar.

Piranhas de cabelo voltam à cena

Atenção, millenials! Depois de matarmos a saudade das tiaras e presilhas tic-tacs que tanto fizeram nossas cabeças, chegou a vez das piranhas de cabelo voltarem à cena. E no melhor estilo Rachel Green!

Deu na Glamour que o item já começa a figurar entre os acessórios favoritos de ícones fashion como Kendall Jenner e Hailey Bieber. Observamos, no entanto, que as piranhas de cabelo ainda são usadas em ambientes mais rilex, que não exigem muita sofisticação.

Hailey Bieber usa piranha para prender o cabelo em rabo de cavalo.
(Foto: Reprodução/ Instagram)
A modelo Kendall Jenner prende o cabelo com piranhas em momento mais rilex com familiares e amigos.
(Foto: Reprodução/ Instagram)

Mas isso não quer dizer que esses prendedores de cabelo se restrinjam a composições mais casuais. Piranhas plásticas ou metálicas, discretas ou estampadas, podem ser protagonista do visual, se a opção for o coque. Ainda é possível brincar com os acessórios, usando duas de uma vez só.

O acessório está sendo mais visto por agora, mas, de acordo com a Vogue, as piranhas de cabelo foram resgatadas em 2018 por Alexander Wang, nos penteados assinados por Guido Palau. Veja na imagem abaixo.

Foto: Reprodução/ Instagram

Boné: Acessório ganha as ruas em look casual esportivo

Usei bonés em etapas diferentes da minha pré e adolescência. Lembro de ter uma foto lá de 2000 e pouquinho com um boné verde água, com flores rosas brilhantes. Numa das fotos que tirei com o acessório, meu cabelo estava preso e eu arrematei o look com uma lupa (aham, aquele big óculos de sol quadrado) da Chilli Beans, cuja armação também era cor de rosa. Depois disso, quando eu devia ter uns 8 ou 9 anos, usei boné na escola. Fazia parte do uniforme militar que alunos graduados usassem bonés – que na verdade eram chamados de “gorro”, vai entender. Era uma maneira de saber quem eram os mocinhos e mocinhas que tinham um desempenho considerado exemplar na escola. Pois então.

Depois disso não lembro de ter usado bonés. Talvez na época em que era meio rolezeira e ia para os shoppings dar muitas voltas, devidamente trajada de shorts, Havaianas, pochete e blusa canoa (aquela que deixava os ombros de fora). Mas não lembro mesmo. Talvez tivesse usado boné na praia… Mas acho que não.

Ocorre que no ano passado eu fui pega de surpresa com os bonés voltando a compor o look do dia das meninas, principalmente em festas. As mocinhas que usavam o boné do Safadão, por exemplo. E no São João a Skol distribuiu os seus próprios bonés nas festas de camisa que patrocinou. Bem bonitinhos até, bem feitinhos. Depois vi que as grifes Chanel e Elie Saab apostaram no acessório para o verão 2017. Pronto! Habemus mais um modismo.

Ressignificamos o boné, que assim como outros itens, deixou de ser algo restrito à praia para ganhar as ruas. Olha só que promoção: agora o boné compõe look casual esportivo. Tirei algumas inspirações lá do Pinterest. Vamos ver?

LOOKS

A maneira mais assertiva que você pode aderir para incluir o boné no look do dia é apostar numa pegada mais esportiva mesmo. Tênis, shortinho, jardineira, vestido de moletom, t-shirt oversized. E muito em ocasiões diurnas, sem que haja preocupação em manter algum padrão de elegância mais convencional. É porque o boné por si só já carrega uma impressão despojada, embora cheia de personalidade.

Mas nada impede que você insira o boné em outros contextos. Se gostar de ousadia, aposte em um look mais justo e sexy para combinar com o boné; troque por elementos mais rock para ganhar um visual afrontoso. Outra opção é montar um look todo como se fosse para ser usado com um salto, mas ao invés de calçá-lo, aposte em um tênis e complete com o boné. E se você tiver um estilo mais lady, mas cogita a possibilidade de experimentar o acessório, invista em um elemento que você costuma usar e inclua o boné nessa combinação. Sério. Experimente. Veja se gosta.

COMO USAR

Tive a impressão que bonés não eram tão democráticos assim, porque costumeiramente o vimos em moças de cabelo alisado. Mas no Pinterest encontrei algumas referências para moças crespas e cacheadas, como eu. Pegue as dicas: dá pra usar boné com cabelo solto, com coque(s) baixo(s), trança. Ainda para as crespas e cacheadas: as viseiras podem ser uma alternativa para ganharmos o efeito da aba do boné e ainda valorizar o volumão que a natureza nos deu. Para as moças alisadas ou encaracoladas, há opção de fazer um rabo de cavalo e prender o boné em volta do penteado. Ah! A aba do boné pode ficar tanto pra frente quanto pra trás, tá?

DIFERENTES BONÉS

Você escolhe se quer um boné colorido, em tom mais neutro, num material mais refinado ou simples. Alguns dos mais legais tem algum logotipo logo na frente ou inscrições divertidas, como o da imagem que abre esse texto. E com a variedade de tipos de bonés, você também escolhe como deixar a aba, se reta ou mais fechadinha – embora a maioria das moças que têm aparecido com o acessório optem por usar o boné levemente arqueado.

*****

Não custa nada lembra que você não precisa aderir a essa moda, se não for esse o seu estilo. Não vale à pena usar algo que não te deixa confortável só para estar na moda. Priorize seu estilo e quem você é!