Quando o mercado ainda questiona as competências da mulher

Quando o mercado ainda questiona as competências da mulher

Em pouco mais de cem anos desde que trocamos os afazeres domésticos pelo mercado de trabalho, algumas questões já deveriam ter sido superadas. A discrepância salarial é um exemplo real, vivo e estatístico.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que nós trabalhamos cerca de três horas por semana a mais que os homens, entre trabalho remunerado, afazeres domésticos e cuidados de pessoas, e temos nível educacional mais elevado. No entanto, recebemos 79,5% do que os eles recebem por mês.

A situação piora quando racializamos a conversa. Mulheres negras recebem o equivalente a 44,4% do salário recebido por homens brancos.

O dado consta na pesquisa Desigualdades Sociais por Cor ou Raça, do IBGE. E todas as mulheres negras ocupadas têm rendimento menor do que os homens negros. Ou seja: a remuneração da mulher negra é a pior, considerando todas as combinações de gênero e raça.

Também já devíamos ter tirado de cena a barreira que nos impede de alcançar cargos de chefia e sermos respeitadas nessas funções.

É bem mais difícil chegarmos . Menos de 40% dos cargos gerenciais são ocupados por mulheres, segundo o IBGE. E quando chegamos… Bom, devemos ser irretocáveis.

Competência questionada

Não precisamos ir tão longe quando se trata da subestima de nossas competências. Já em nossa primeira experiência profissional somos questionadas sobre nossa habilidade em desenvolver a atividade à qual nos propusemos. Se ousarmos atuar numa área atribuída exclusivamente aos homens, então…

Aconteceu com Joice Rosário, que está há cerca de dez anos na área de tecnologia da informação.

“Me marcou entender que outra mulher, em uma posição de recrutadora e atuante na mesma área que eu, não usou de nenhum artifício para por meu conhecimento em prática, mas preferiu pré-julgá-lo, afirmando que eu não tinha formação suficiente para terminar minhas demandas. Detalhe que eu seria a única certificada entre os estagiários”, conta.

Joice não soube dizer o que levou a recrutadora a agir dessa maneira. Talvez nem ela mesma saiba, já que tendemos a reproduzir preconceitos e estereótipos dos grupos sociais nos quais estamos inseridas.

É aquele pré-julgamento que está na estrutura da sociedade. Está tão naturalizado que é preciso um pouquinho de esforço para percebermos que é tipo a tartaruga na árvore: alguém colocou ali.

Mas isso não quer dizer que essas situações não nos marquem, nem mesmo nos façam questionar se merecemos aquele lugar mesmo. É hostil. E de fazer a gente se achar incapaz.

“Foi um período que me perguntei se era isso mesmo que eu queria da minha vida, se eu não estava na área errada e nunca percebi. Depois de um tempo parei de lembrar dessa conversa e um após um ano fui contratada na Braskem. A empresa funciona a duas pistas de distância. Então entendi que talvez um seguisse na minha área, mas não naquela empresa. Talvez eu precisasse passar por isso pra entender alguma coisa”, reflete.

E entendeu, afinal: não importa o que as pessoas digam, nem mesmo os julgamentos que elas façam, é preciso acreditar em si mesma. Você sabe que é capaz, então, bola pra frente. Segue o baile.

Ter a competência questionada é rotina diária da amiga e jornalista Claudia Cardozo. Sua atuação de trabalho se concentra no Poder Judiciário, predominantemente masculino e conservador nos costumes.

“Acho que é uma tendência do Judiciário tentar deslegitimar qualquer pessoa que não seja formada em Direito quando ela se atreve a escrever alguma coisa relacionada ao universo deles”, avalia.

Pode até ser, mas Claudia pondera que dificilmente a competência de tratar com o texto jurídico seria questionada ao profissional jornalista homem. Daquele jeito, mesmo, com todas as palavras: “Você é leigo”.

“As fontes me falam para eu mandar meu texto pra eles revisarem porque, como ‘não sou do Direito’, como sou ‘leiga’, posso deixar passar coisas. É sempre essa expressão. Como se eu não tivesse a capacidade cognitiva de ler uma decisão, interpretá-la. Como se eu não tivesse a capacidade de cognitiva de ler uma ação, uma petição; de entender o que é um recurso. Sempre me questiono se eu fosse um repórter homem, se eles falariam isso também. Não sei. Nunca vi alguém questionar isso pra meus colegas jornalistas homens que eventualmente cobrem alguma pauta do universo jurídico”, avalia.

Só eles sabem, né

Aí, ok. Cem anos depois, a estrutura social na qual estamos inseridas ainda não entendeu que ocupamos espaços porque merecemos. E, já que merecemos, sabemos o que estamos fazendo. Como pode ser tão difícil agir conforme essa lógica?

São frequentes os episódios em que nossas ideias são descartadas, mas prontamente aceitas quando repetidas por um homem. Igualmente, aqueles em que homens tentam nos explicar aquilo que tanto conhecemos, estudamos, nos debruçamos sobre.

Joice Rosário lembra que já passou por situações como essa, que caracterizam o mansplaining. Uma delas foi quando fazia uma palestra sobre nuvem forense. Como sempre deixa as pessoas tirarem dúvidas durante a apresentação, um rapaz a interrompeu e afirmou algo sobre o assunto que ela tinha abordado. Detalhe: ele explicou com outras palavras o que ela tinha acabado de dizer.

Outra situação foi em um fórum, também sobre forense, em que comentava um trabalho que fez. Alguns integrantes fizeram perguntas, mas ela notou um nível de questionamento como se precisasse provar que foi ela que fez o trabalho.

“Às vezes essa situação aparece tão velada que fica difícil notar que estão tentando provar sua capacidade”, conclui.

E ainda temos que pensar na roupa

Não bastasse a necessidade de validar nossa competência, as roupas que vestimos precisam estar alinhadas a esse propósito também. Afinal, quem daria credibilidade a uma jornalista que cobre Justiça, mas tem um estilo meio punk?

Claudia lembra que passou por isso, que chama de “preconceito estético“. Ao conhecê-la, com seus coturnos e cabelo cor de rosa, um advogado se surpreendeu. Mediu-a de cima a baixo e emendou um “Que figura!”.

A consultoria de imagem Mai Cardoso entende esse como um processo comum. Faz parte, já que a imagem comunica e cada ambiente tem sues códigos.

Seja qual for o ambiente, precisamos adaptar os looks de trabalho aos caminhos que ele indicar. É preciso considerar também qual a posição que ocupamos ou que pretendemos ocupar. Além disso, aliar esses fatores à nossa personalidade, aos atributos que consideramos relevantes.

“Não dá pra gente vestir totalmente o que tá a fim em determinados ambientes. Se a gente destoa muito, pode sugerir falta de respeito. Posso imaginar alguém de minissaia, T-shirt branca, blazer de paetê e tênis numa agência de Publicidade e vou achar incrível esse look, mas como imaginar a mesma pessoa vestida dessa forma para coordenar uma reunião de executivos que discutem a crise no sistema de saúde ou no próprio sistema de Justiça?”, explica.


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