Comportamento,  Opinião

Por que tentamos tanto impressionar?

Preciso admitir que o livro ‘Sociologia das Tendências‘ (GG, 2015), escrito por Guillaume Erner, tem sido uma grata surpresa. Alguns insights aqui, outros acolá, e volta e meia é esfregada em nossa cara uma daquelas verdades que não admitimos regularmente. Ontem, na recepção da clínica médica, foi assim.

A experiência começou mais cedo, ainda quando eu me arrumava. Como de praxe, pensei no famigerado look do dia antes mesmo do horário de sair: uma calça jeans de cintura alta super justa, uma camisa de botões estampada que todo mundo comenta quando vê, além do mocassim branco. Não tinha como dar errado.

Mas, para ser sincera, até tinha. Quem me conhece um pouquinho já sabe – ou deve pelo menos ter percebido – que não sou muito dada a roupas justas. Imagina ter que usar uma calça que parece vestida a vácuo?! Hesitei, confesso. No entanto, não via outra roupa que não aquela pensada desde cedo. Tudo isso porque eu tinha que impressionar.

Não a médica, claro. Mas precisava estar de acordo com o ambiente no qual iria depois. E lá, pensei, as pessoas estariam bem arrumadas, menos casual do que eu costumo estar. Daí então escolhi passar por todo desconforto em nome da adequação.

“(…) em nossas sociedades, explica ele, não nos vestimos para nos proteger do frio. Se escolhemos nossas roupas com cuidados, se gastamos somas inconsideradas por elas, é para mostrar aos outros que somos capazes de desperdiçar.”

Guillaume Erner ao explicar a noção de “consumo ostentatório” de Thorstein Veblen, 2015, p. 71

Foi doloroso o “tapa na cara” que a teoria de Thorstein Veblen me deu. Falamos do consumo ostentatório sem necessariamente usá-lo como referencial teórico, mas é algo sobre o que devemos pensar. O que usamos – e consequentemente com o que gastamos – está mais associado ao que somos e gostamos ou ao que achamos que devemos ter porque todos possuem? Até que ponto subordinar o conforto para estarmos adequadas a um dado ambiente?

E aqui não digo que devemos ir a uma reunião da empresa vestidas de moletom, já que defendo a supremacia do conforto. Não, não. É vestir peças que nos deixem à vontade, que permitam a movimentação das pernas e braços; nos acomodar num assento sem apertar a barriga; pegar algo num lugar mais alto sem a preocupação de abrir o botão da camisa. Roupas que nos caibam confortavelmente.

O mesmo vale para sapatos, como também para comportamentos de modo geral. Não precisamos nos forçar a uma situação em que não nos sentimos à vontade para estar, nem mesmo comprar coisas que sabemos não termos condições para tanto.

Por que ostentar? A troco de quê queremos impressionar?

Curiosa, jornalista e libriana. Mestranda no PósCom/Ufba, interessada nos valores - os meus, os seus, os de notícia e os humanos. Se piscar o olho, o cochilo vem, mas os olhos sempre estão abertos para uma série ou outra que desperte o interesse.

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