Os cabelos esvoaçantes no tribunal

Os cabelos esvoaçantes no tribunal

De que tenho lembrança, usei meu cabelo natural até os quatro a seis anos de idade. Uma foto minha que foi tirada em uma barca, voltando da Ilha do Rodeadouro, com meus longos e cacheados cabelos castanhos povoa minha memória sempre que penso onde quero chegar com minha transição. Claro que hoje já imagino algumas modernidades, como uma coloração diferente e um corte mais estiloso. Entre os seis e os quinze anos, não sei dizer ao certo quando deixei meus cachos voarem conforme a direção dos ventos. É como se houvesse um apagão.

Lembro de episódios, do cheiro da química forte no cabelo, de encharcar o cabelo de creme e penteá-lo com a escova para evitar qualquer fio fora do lugar, do meu desejo imenso por ter os cabelos iguais aos da minha mãe: tão lisos quem nem uma presilha fica. “Como é possível eu nascer com a cor da minha mãe, o nariz da minha mãe e não com os seus cabelos?”, pensava, inconformada com tamanha semelhança que tinha – e tenho até hoje – com meu pai. Inclusive as madeixas encrespadas.

Não vou levantar o papo de militante pelo empoderamento do cabelo crespo etc, porque não milito por causa alguma além da liberdade. Liberdade, inclusive, de você escolher não deixar seu cabelo ao natural, esvoaçante. Passeei por minha história de vida só para contar que por muitos anos meus cabelos esvoaçantes, como se eu tivesse acabado de andar de moto (assim dizia uma conhecida de meu pai), foram julgados por um tribunal socialmente eurocêntrico, por mais que tenhamos raízes africanas. Disse tudo isso porque em seu discurso de posse, nesta segunda-feira (1º), a presidente do Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA), Maria Barreto Santiago, deixou no ar a ideia de que o Tribunal Baiano não tem espaço para referências culturais que não as europeias. Agradecer a um desembargador por tê-la sugerido que prendesse seus cabelos “esvoaçantes” pode ter outro significado? Provável e certamente. Mas temos de concordar que “(…) mais rígido que o maior dos censores, enclausurou os meus cabelos antes tão esvoaçantes e agora dolorosamente confinados” também sugere uma não-aceitação por parte da instituição judiciária. Talvez, bem de longe, e aqui eu fico só na especulação, ela e ele já soubessem a reação que a aguardava por aparecer com aqueles cabelos esvoaçantes. E, de forma ou de outra, isso representa alguma coisa.

Não digo que sei o que é, porque não vivo e porque não quero minimizar quem tem que passar por isso todos os dias. Eu e meus dreads (chamo-os carinhosamente assim rs) ainda não passamos pelo mínimo que outras negras, outras crespas e outras cacheadas já devem ter passado. Passar a tesoura na química que por tanto tempo destruiu, condicionou e escondeu quem eu sou de verdade foi um passo e tanto, mas a caminhada ainda é longa. Espero encontrar gente mais aberta e menos aprisionada por esse caminho. Mas sei que um olhar ou outro ainda vai atravessar minha passagem. Para isso, não tiro da cabeça uma lição: você se incomoda com o meu cabelo e eu que tenho que me importar?

 

Acho que não, hein, sua moça?

 

Em tempo, quero agradecer às amigas Luana Ribeiro, Renata Pizane e Luana Rocha que, cada uma a seu modo, me inspiraram a transitar. O poder de ser quem somos é impagável. E me permita a correção, cara Coco, não é só a mulher que corta os cabelos que está prestes a mudar sua vida. As que escolhem por assumir seus cabelos naturais também!

2 comentários sobre “Os cabelos esvoaçantes no tribunal

  1. Uma crespa inspira a outra! Aproveite cada fase minha amiga, um passo de cada vez, você vai ver como é bom conhecer seu cabelo de verdade ❤️

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