Moda,  Opinião

O grunge é moda faz tempo: como vestuário e comportamento indicam nossa relação com o estilo dos anos 90

Estava lendo no site da Marie Claire semana passada que “a pedida da vez” para o inverno 2019 é misturar o gótico e o grunge. Segundo a publicação, é o ensaio de um retorno desse movimento, que surgiu em Seattle, nos Estados Unidos, na transição dos anos 1980 para 1990. Mas, pensem comigo, será que esse estilo não já voltou há um bom tempo?

Antes de chegar ao meu ponto, é preciso que entendamos minimamente a história do grunge. A começar pelo nome, que significa “sujeira”, e relaciona o movimento a uma subcultura de rebeldia que desconstrói a moda vigente naquele ano, apesar da mistura de ideias que foi a década de 90.

Havia o minimalismo de contraposição à extravagância dos anos 1980, com simplicidade e praticidade nas roupas; havia as patricinhas e os mauricinhos, que representavam um ideal de perfeição; a alta-costura seguia investindo em glamour e luxo, com foco nos mais ricos. Havia também a influência de super modelos, que alçavam patamar de astros do cinema e da música, e a obsessão pela magreza. Neste último caso, havia ainda a atenção para distúrbios alimentares e para a admiração do uso de drogas, o que fez surgir o estilo heroin chic.

Em termos de vestimenta, os anos 1990 foram marcados por tops, vestidos tubinhos, blusas de liganete, parkas, jeans em jaquetas, calças baggy e semi-baggy, shorts, bermudas e jardineiras. Absolutamente nada diferente do que vemos hoje, vinte anos depois, com a cultura de revisitar o passado e relançar modismos. Este hábito, inclusive, começou na própria década de 90, quando começaram a surgir releituras dos anos 60 e 70, segundo Saturno. O mote era que não houvesse identidade ou identificação a uma tribo específica. Há quem diga que o símbolo dessa globalização foi a queda do Muro de Berlim, em 1989, já que a reunificação das Alemanhas representou também a unificação de culturas e a aceitação de pessoas.

Foto: Reprodução / Pinterest Hodayabe13

Alan Edward Larsen escreveu, em ‘Selling (out) the local scene: grunge and globalization’ (2009), que o grunge seria consequência de um momento de “austeridade” após o luxo e ostentação vividos nos anos 70 e 80, pelos pais da geração daquele ano. No entanto, ele defende que o grunge não refletiu somente essas condições, mas forneceu um conjunto de oposições através das quais “artistas, empresários, fãs e consumidores casuais exploraram as contradições inerentes ao terreno emergente da jovem globalização”. E por globalização ele entende não apenas o mercado de bens e serviços, mas o conjunto de efeitos sociais e políticos desse processo. O que dialoga com a referência à queda do Muro de Berlim.

Era bem isso que os artistas da época cantavam. O grunge só se tornou um estilo de vestuário por ser um estilo musical. As mensagens cantadas por bandas como Nirvana, Pearl Jam e Soundgarden expressam certo sarcasmo, angústia, desejo por uma liberdade. Mas também dá voz a injustiças e traumas pessoais e conflitos internos, indo contra a ideia de que o homem é “menos homem” quando demonstra sua fragilidade emocional, de acordo com Saturno. E se por um lado havia esse comportamento masculino que tem ganhado corpo só agora, quase em 2020, as mulheres do grunge se comportavam de modo parecido: suas canções expressavam feminismo, contra abusos domésticos e estupro, em prol da sexualidade e direitos da mulher.

Por que o grunge é moda há tempos

Não acredito que seja à toa que o grunge seja uma aposta para o inverno 2019, e nem acredito que seja o ensaio de um retorno. Vejo o grunge como moda há tempos, e sua permanência não tem data para terminar. Vejam só os elementos, ainda com base nas referências teóricas de Sthefany Saturno.

O grunge é marcado por peças baratas, vestidos de brechó usados com cardigãs soltos, camisolas tipo baby-doll, jeans rasgados e desbotados, camisas de flanela xadrez sobrepostas a camisetas, gorros e calças cargo; cintos e correntes, casacos e jaquetas, suéteres, couro, lã, moletom, militar, camisas de banda ou com estampas satíricas. Tudo o que compõe o streetwear nos últimos cinco anos – para arredondar os cálculos.

Outro elemento do grunge é o oversized, e há quanto tempo ele modifica a silhueta feminina, sem tirar a feminilidade – haja vista que o caimento já estava sendo ressignificado por diferentes estilos?! Podemos considerar ainda que a desconstrução da moda iniciada pelo grunge dialoga com o movimento que vemos atualmente, representada por elementos semelhantes aos que compuseram o estilo de vinte anos atrás. Camisetas com estampas engraçadinhas são usadas em contextos mais formais, atualizando a noção do “arrumado”, no melhor mix de estilos que podemos acompanhar; o consumo crescente de peças de segunda mão; sobreposição de peças; o moletom ocupando ambientes que lhe dão status fashion; elementos do militar seguem e são renovados a cada estação, seja na cor, nos detalhes ou até mesmo no print camuflado.

Foto: Reprodução / Pinterest AltGirlShop

Até aqui falamos apenas da indumentária, mas se considerarmos o comportamento, a presença do grunge se faz tão presente quanto. Talvez a geração Z seja a que mais se aproxima desse discurso, por causa da valorização à diversidade, da proposta de inclusão do diferente, de liberdade, de desconstrução de noções do patriarcado e da masculinidade tóxica – não todas, só a tóxica – que tira do homem o direito de se fragilizar e enfrentar conflitos emocionais.

É para pensarmos. Eu até comemoraria. É uma subcultura no páreo para ganhar o lugar de pensamento dominante. Há quanto tempo esperamos por um pensamento como esse?

Você pode ler mais em:
A temporada internacional lança um novo debate fashion: grunge ou punk? https://vogue.globo.com/moda/moda-tendencias/noticia/2013/03/debate-fashion-grunge-ou-punk.html
MODA NOS ANOS 1990: A INFLUÊNCIA DO ESTILO GRUNGE NA MODA ATUAL https://www.riuni.unisul.br/handle/12345/7096
Selling (out) the local scene: Grunge and globalization https://search.proquest.com/openview/3932b82fe27eab308d1633fadeb8375b/1?pq-origsite=gscholar&cbl=18750&diss=y

Curiosa, jornalista e libriana. Mestranda no PósCom/Ufba, interessada nos valores - os meus, os seus, os de notícia e os humanos. Se piscar o olho, o cochilo vem, mas os olhos sempre estão abertos para uma série ou outra que desperte o interesse.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *