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O empoderamento de si mesma por Karol Conka

Conheci Karol Conka quase no final do ano passado, quando fui com algumas amigas ao Rock Concha, na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, para ver BaianaSystem. E foi pra isso mesmo, particularmente. Da curitibana eu conhecia apenas o hit ‘Tombei‘ e o recém-lançado som com MC Carol, ‘100% Feminista‘. Na ocasião, passei o show inteiro sem saber o que achar dela. Hoje Karol Conka me emociona.

Digo isso com a certeza de que meus hormônios da TPM não têm qualquer relação com essa conclusão. O que essa senhora rapper canta toca tão fundo que arrepia, rasga a garganta, dá vontade de ir à luta. É tipo o que acontece com ‘Bate a Poeira‘ e seu discurso de igualdade em toda a canção. “Seja o que tiver que ser / Seja o que quiser ser” inspira ir atrás daquele desejo que grita tão alto há tanto tempo. E derruba por terra o “argumento” dos preconceituosos. “Há tanta gente infeliz com vergonha da beleza natural / Eu sou mais uma aprendiz que se esconde atrás de uma vida habitual / Gorda, preta, loira o que tiver que ser / Magra, santa, doida, somos a força e o poder / Basta, chega, bora, levanta a cabeça e vê / Vem cá, viva, sinta o que tiver de ser.” Eis também um manifesto ao empoderamento de si mesma. Precisamos de uma dose disso todo-santo-dia, pra não esquecermos!

O arrepio mesmo vem com ‘Você Não Vai‘, que entendo como um recado para qualquer um que duvide das nossas potencialidades. Acredito que a melodia foi acertada para completar a experiência de ouvir verdades tão duras que deveríamos dizer para os invejosos – ou seriam preconceituosos? “Mas você se distrai, confunde o meu valor / Sai falando demais, fica puto enquanto eu vou / Pra onde você não vai, você não vai…” Não sei dizer ao certo por que, mas toda a mensagem dessa música me emociona, me dá um aperto enorme no peito, apesar de, ao mesmo tempo, fazer com que eu me sinta tão livre. “Você demorou muito tempo pra perceber / Que ficar me julgando só te levou a perder / Nessa vida não basta querer ser / Tem que tá na veia, saber fazer”. Um soco no estômago para quem se reconhece e reconhece histórias reais em cada linha.

Mas nada disso dói mais do que quando Karol Conka canta ‘Marias‘. “A mocinha quer saber por que ainda ninguém lhe quer / Se é porque a pele é negra ou se ainda não virou mulher / Ela procura entender por que essa desilusão / Pois quando alisa o seu cabelo não vêa solução”. Talvez vocês não vejam dessa maneira e por isso acabem considerando mimimi demais, mas me deixa intrigada e preocupada com o que estamos fazendo com nossas crianças. Essa música não é nova, mas continua atual o desgosto que construímos em nossas meninas ao não ensiná-las que o cabelo crespo é bonito. Da mesma maneira que reforçamos a discriminação quando também ensinamos os meninos, e as próprias meninas, a apreciarem apenas a beleza do cabelo liso. Sabe como é? Não passei e certamente não passarei por metade do que Karol Conka e tantas outras mulheres de pele negra, cabelos crespos e traços marcantes viveram apenas por serem como são, principalmente no que tange relacionamentos. A rejeição e a solidão da mulher negra ainda existem. O que é que podemos fazer pra mudar isso?

Deixarei essas indicações para embalar o final de semana de cada uma de vocês. Encarem também como um esforço, a retirada de um tijolinho, nesse processo de desconstrução necessários para que possamos nos empoderar cada dia um pouco mais.

beijo, princesas!

Curiosa, jornalista e libriana. Mestranda no PósCom/Ufba, interessada nos valores - os meus, os seus, os de notícia e os humanos. Se piscar o olho, o cochilo vem, mas os olhos sempre estão abertos para uma série ou outra que desperte o interesse.

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