O caráter passageiro das coisas

Sou daqueles seres humanos que precisam de uma opinião externa quando se trata de uma situação em que não conseguem identificar bem o que o sexto sentido quer dizer. Encaro talvez como sendo uma espécie de resposta divina: sigo a direção que se aproxima daquela opinião alheia. Talvez por isso eu ainda use, mesmo que em momentos bem específicos, o tarot do dia do Personare. Já houve momentos em que a carta me dava aqueeela resposta e eu, dona do meu livre-arbítrio, fazia o extremo oposto. Talvez por isso eu não saiba até hoje se esse troço realmente funcione, enfim.

Essa semana, no entanto, uma carta conseguiu me fazer refletir. Nada é, tudo está. Eu não sou feliz, da mesma forma que eu não sou triste: eu estou. Joaninha não é doente em razão de qualquer tratamento de saúde, mas ela está doente. Joãozinho não é médico bambambã do maior hospital da cidade, porque amanhã ou depois ele pode ser transferido, o hospital fechar ou simplesmente acontecer alguma tragédia. Incrível o caráter passageiro das coisas.

Em uma discussão que tive com meu pai nos últimos tempos, ele deixou escapar que a única certeza da vida é a mudança. E eu digo mais: a segunda certeza é que nós quase nunca estamos preparados para ela. Mudança sugere ruptura, que sugere quebra da ordem já estabelecida, que desencadeia crises, que estressam, e esse estresse afeta nossa saúde, e ficamos indispostos e mal humorados, até que deixamos de fazer o que precisamos e o que mais nos dá prazer, de modo que ficamos deitados, indispostos, sem fazer nada, dando espaço para um quadro de depressão se instalar e aí… bom… vocês já sabem. Enfim.

Em um dos poucos momentos de exposição da minha vulnerabilidade na internet, confesso que não sei lidar com nada disso que citei acima. E por mais que eu goste de coisas novas e desafiadoras, eu detesto ter que mudar algo que já vem dando certo e morro de medo de tentar o novo quando a ordem estabelecida parece funcionar. E se depois der tudo errado? E se eu não gostar? E se essa for a última oportunidade? Gente! Isso vai desde a escolha de um prato no fast-food (BigMac ou Cheddar?) até encarar a realidade de me tornar adulta.

Ora bolas, estava tudo funcionando bem sendo uma moça que divide a casa, o quarto e se sente dependente dos adultos. Estava tudo bem até essa mudança repentina. Aí a gente lembra que faz parte do curso natural das coisas, periodicamente, a gente muda de lugar, de plano, de gostos. Alguns mudam até de atitude. Nada é. E nem adianta se acostumar, porque tudo está.

Algumas poucas e boas situações têm me trazido essa reflexão. Ainda não sei lidar com as peripécias que a vida proporciona de vez em sempre, mas é necessário. E enquanto durarem as ocasiões para eu exercitar esse aprendizado, vou repetindo o mantra pra mim mesma.

Não adianta.

Nada é, tudo está.

Nada é, tudo está.

Nada é, tudo está.

Guardem na memória também.

As fotos são da fotógrafa Milena Marques. A Moça Criada usa vestido e carteira do Brechó daz Migaa.

Autor: Moça Criada

Curiosa, jornalista e libriana. Mestre em Comunicação. Interessada nos valores - os meus, os seus, os de notícia e os humanos. Se piscar o olho, o cochilo vem, mas os olhos sempre estão abertos para uma série ou outra que desperte o interesse. Ver todos posts por Moça Criada

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