Não sou tão gênia assim e parece estar tudo bem com isso

Não sou tão gênia  assim e parece estar tudo bem com isso

Já faz algum tempo que tenho tentado dizer isso a mim mesma. Mas não é fácil encarar a realidade e desconstruir uma verdade que me foi apresentada desde quando me entendo por gente. Reconheço também que percebo sinais de que nem tudo é como parece há cerca de quatro anos. Era uma jovem adolescente em transição para a fase adulta que acabara de entrar na faculdade. Qual maturidade eu teria para lidar com tais fatos?

É que desde pequena escuto “Filha, você pode ser o que quiser”, “Você vai ser criada pra correr atrás dos seus sonhos”, “Vá estudar para alcançar seus objetivos”, “Se preocupe em estudar e conseguir um trabalho na sua área”. Tudo isso me fez acreditar que eu era uma gênia que não cabia no mundo em que habitava. Sabia que de alguma sorte (ou azar) fui uma criança e pré-adolescente chata, daquelas que se achava a mais abastada porque tinha a oportunidade de estudar e havia um mundo de perspectivas me esperando.

Não deixava de estar errada, afinal, nem todo mundo tem essa oportunidade. Mas o problema morava exatamente aí. Eu era a exceção, a prima boa e estudada da família. O erro morava exatamente em acreditar ser uma coisa que ainda estou longe de alcançar. Poderia até ser focada nos estudos, mas boa ainda não sou.

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E não faz mal ter defeitos, sortear qual boleto vai ser pago no final do mês para que ainda sobre algum dinheiro pro picolé no ônibus. Não faz mal perceber que não somos excepcionais, o suprassumo da inteligência, o protótipo que deu certo. Mas vaidade é um bicho que nos faz subir tão alto, mas tanto, que nos tornamos incapazes de olhar pra baixo e mensurar o tamanho da queda.

Foi difícil perceber, já na faculdade, que eu não era a genialidade que superestimaram durante toda a minha vida escolar. Ser alfabetizada em casa, saber ler e escrever aos 6 anos e pular a alfabetização direto para a 1ª série não significavam nada ali. Quantos não passaram por experiências parecidas em algum dado momento da vida?

Como falei, é difícil acreditar que logo eu, logo eu, não seria a pessoa a fazer a diferença neste mundo. Afinal de contas, eu tenho que fazer história, ser lembrada, mereço ser prestigiada. Sou capaz, sim! Fui criada pra isso. E por conta disso, acreditava que tudo deveria seguir o ideal: ter a ideia mais inovadora para o projeto de pesquisa (porque, sim, tenho muito a acrescentar para a Academia); o relacionamento com o boy padrãozinho e bem formado; o cabelo tem que ser arrumado, alisado, o mais discreto possível. Dentro de toda normalidade, eu deveria me destacar.

Não vou saber precisar o momento exato em que as coisas mudaram de perspectiva. Talvez tenha a ver com minha mudança de cabelo, com a transição capilar que iniciei em dezembro de 2015 e ainda hoje, em maio de 2017, deixa frutos. A vida também nos ensina e faz ver que não há verdade absoluta e as coisas nem sempre serão como nos vendem quando ainda somos pequenos.

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É libertador poder dizer que não, eu não sou a pagadora de boletos mais certinha que você respeita. Que o salário que eu ganho ainda não me permite sair da casa dos meus pais. Pode não ser tão ruim assim ainda depender do teto paterno para acomodar minhas trouxas. E é muito normal sonhar, planejar, procurar possibilidades, vestir a roupa de sapo e dar nossos pulos diários para conseguir responder às nossas demandas. E é igualmente normal encarar a frustração de que talvez esses planos demorem um pouco para serem concretizados; que a viagem para o exterior ainda não está ao alcance e que aquele curso de inglês na infância foi importante, mas por enquanto vai ser usado só pra entender músicas e acompanhar séries.

Acontece com todo mundo e com você também, embora sua mãe tenha passado sua infância te fazendo acreditar que você não é todo mundo. Chocante. Escrevo tudo isso enquanto tento me convencer de que faz parte não dar certo aqui ou ali, quebrar a cara, cair e levantar de novo. E, não, eu não sou excepcional. Eu não sou a melhor de todas, portanto, não devo me cobrar para ter as melhores coisas, na perfeição que as pessoas convencionaram ser o ideal. Tenho tentado ensinar e aprender, eu mesma, de que estar feliz é o mais importante. Para isso, é preciso desconstruir cada tijolinho colocado nos últimos 22 anos.

Dá trabalho, mas dinheiro nenhum paga a liberdade de ser simples e aceitar minhas limitações. Um dia, quem sabe, volto aqui para dizer que consegui.

2 comentários sobre “Não sou tão gênia assim e parece estar tudo bem com isso

  1. Parabéns pelo o Texto estelinha, sejamos o que somos, quando a gente se toca o quão grande o mundo e as possibilidades são, vemos que na verdade só somos mais um grão de areia no deserto, independente de estar no topo, no sol ou escondido.
    E sejamos sinceros?
    Qual o problema com isso hehheh, abraços.

    1. É verdade, Downs!! Cada dia desconstruo um tijolinho dessa ideia de que é um problema não ser além do que um grão de areia. Mas tem sido muito bom assim. Obrigada pela visita, volte sempre!
      beijo

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