Comportamento Opinião

Me rendi ao skincare e parei pra pensar sobre isso

Me tornei a pessoa que eu mais julguei e me rendi à moda do skincare. Mas não necessariamente por estar no hype, apesar de eu ter sido influenciada por uma amiga a adquirir aquela esponja sônica que promete regenerar todos os seus poros ao eliminar 99,5% da sujeira, do óleo e da pele morta do rosto. Obviamente, a belezinha que tem devolvido o glow à minha pele é a “prima pobre”.

Preciso admitir que toda minha preocupação com a pele do rosto é decorrente da aproximação dos 30 anos – e a gente sabe como tudo fica difícil pra mulher depois dessa idade. Não vou saber dizer se só me preocupei com isso devido à quantidade de pessoas falando de skincare, autocuidado, autoamor etc. e tal, mas que bom – vou comemorar mesmo! – que essa atenção veio logo num momento em que todo mundo está falando disso. Talvez esta seja a menor das loucurinhas que fazemos devido a algum hype, né.

Um relatório da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica mostra que só no ano passado foram realizadas 60,3% cirurgias estéticas, tipo silicone nas mamas (18,8%). Do que não era cirúrgico, quase 96% foram aplicação de botox, que ameniza rugas e linhas de expressão, e 89,6% foram preenchimentos. A faixa etária mais atendida por esses profissionais é a de 36 a 60 anos, que tem procurado cada vez mais por cirurgias plásticas e procedimentos não cirúrgicos nos últimos anos. Os jovens de 19 a 35 anos são o segundo grupo mais atendido, mas apresentam um movimento contrário: cada vez menos jovens têm procurado por intervenções estéticas. Isso no campo da cirurgia plástica.

No aspecto dermatológico, a médica Simone Veloso, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia e da American Academy of Dermatology, explica que não há dados específicos sobre o crescimento da procura por procedimentos estéticos entre os mais jovens, no entanto, especialistas observam a crescente busca em razão da selfie. Exatamente isso: sair bem na foto, ainda correspondendo àquele padrão de perfeição socialmente construído, é o que motiva jovens a buscarem procedimentos estéticos.


Foto: Noah Buscher on Unsplash

Confesso que me impacto com esse dado, mas Simone conta que é bastante comum essa realidade, e aparentemente não há nada de errado nisso. “No passado, muitos adolescentes já faziam limpeza de pele. Hoje temos LED, luz intensa pulsada e diversos lasers para melhorar principalmente o processo inflamatório, reduzir a vermelhidão e o risco de formação de cicatrizes. A toxina botulínica A (botox) desde a década de 70 é usada em crianças com alterações oftalmológicas ou neurológicas, portanto, não há problema algum uma jovem de 25 anos fazer um botox de uma a duas vezes ao ano, para que as rugas de expressão não se transformem em rugas estáticas. Isto é, alguns pacientes já têm linhas de expressão desde novos, então o botox é aplicado para amenizar as linhas e também de maneira preventiva. Porém há necessidade de tomar cuidados, de conhecer bem a ética e capacitação do profissional, e de evitar os excessos e exageros”, explica.

Quem diria.

De todo modo, penso que devemos tomar bastante cuidado quanto à obrigação que impomos a nós mesmas de eliminarmos as rugas, disfarçarmos o efeito do tempo sobre nós mesmas. Aqui eu falo apenas da pele, da necessidade a que nos condicionamos de termos que parecer sempre jovens, como se qualquer sinal do tempo eliminasse a beleza que existe dentro da gente.

Como se não bastasse toda a construção histórico-cultural, ainda estamos reféns de uma plataforma digital que nos condiciona a estarmos cada vez mais bonitas, cada vez mais perfeitas, sem um fio de cabelo fora do lugar – e se ele estiver, só está porque aquela bagunça foi milimetricamente calculada para um dado conceito. Nada mais é do que a transposição dos parâmetros “reais” para o virtual. E ainda insistimos em dizer que os meios não são a mesma coisa…

Pensar essas questões de beleza é um buraco sem fundo, não há dúvida. Depois do que escrevi até aqui, ainda me pego pensando: minha preocupação com a chegada dos 30 anos é espontânea ou reflexo daquilo que a entidade indústria incutiu no meu subconsciente? Quero o viço da minha pele porque é um indício de saúde ou porque meu gosto foi construído para pensar que a pele é bonita apenas se irradiar? Quando eu penso em fazer algum procedimento estético, eu o faço porque dada realidade me incomoda, ok. Mas até que ponto esse incômodo é fruto dos parâmetros de beleza socialmente instituídos e aos quais eu me vejo na obrigação de corresponder?

Que nó!

quem é Teté

Curiosa, jornalista e libriana. Mestranda no PósCom/Ufba, interessada nos valores - os meus, os seus, os de notícia e os humanos. Se piscar o olho, o cochilo vem, mas os olhos sempre estão abertos para uma série ou outra que desperte o interesse.

(1) Comment

  1. […] faz muito tempo falei aqui sobre o hype do skincare e quem é de Salvador tem mais um motivo pra falar sobre isso. A Samana chegou à capital […]

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