Maquiagem colorida é pra todo mundo – sem interrogação

Maquiagem colorida é pra todo mundo – sem interrogação

Os hábitos que passamos a adquirir após a pandemia incluem a aparição pública apenas do colo pra cima, com foco no rosto. Se antes tivemos que criar formas de nos acostumar com as cores no look, fugindo do simples e fácil neutro, somos convidadas a explorar as cores na maquiagem. Mas sabemos que não é algo tranquilo para todas.

“Pra nós, mulheres negras, a ideia de usar maquiagem sempre foi um processo muito tardio. A gente consegue ver agora as mulheres quebrando as barreiras, usando batons vermelhos, usando cor, usando maquiagem, porque esse empoderamento estético sempre foi muito privilegiado para mulheres não-negras”, adianta a maquiadora Natalia Cavalcante, especializada em peles negras e CEO do Para Maquiadores.

Existe um contexto histórico por trás dos receios que assumimos como nossos a partir do momento que nos identificamos com um determinado grupo. Se para mulheres brancas é mais fácil brincar com cores, explorar uma make tie-dye nos olhos ou apostar em desenhos e traços mais chamativos, as mulheres negras e indígenas foram condicionadas a acreditar que esses elementos não se encaixam com sua beleza.

É aquela questão da familiaridade, construída a partir da representatividade. Como podemos nos identificar com algo, se não vemos pessoas como nós usando, fazendo ou consumindo aquilo?

Questão cultural

Em um bate-papo aqui com o blog, Natalia vai ainda mais fundo nessa observação histórica.

Por exemplo, a questão do batom. O batom foi criado pra pintar os lábios das mulheres que eram artistas e prostitutas. E quando a gente traz pra visão da mulher negra, há ideia que a mulher negra não pode passar batom vermelho, porque faz alusão à mulher que quer sensualizar, que chama a atenção. Isso foi estruturalmente incutido em nossa cabeça, em nosso imaginário coletivo, e simplesmente a ideia da senzala. A mulher negra não pode chamar a atenção do senhor de engenho, então, todos os artifícios eram realizados para que essa mulher não seja vista.

Natalia Cavalcante, maquiadora especializada em pele negra

E no processo da formação cultural, os “cuidados” passam a ser absorvidos até que se tornem normas, compartilhadas de geração a geração. Nisso é levantada a barreira que impede a mulher negra de se reconhecer bonita e adequada aos parâmetros sociais com batons, sombras, delineados e rímeis coloridos.

Recorrendo à questão da representatividade e do padrão de beleza que é construído em nossa sociedade, ainda há o agravante para os batons: chamam a atenção para os lábios, cuja referência de belo por muito tempo foi a europeia – lábios finos e com a forma igual àquela que conhecemos como sendo de uma boca. Os lábios carnudos ficaram fora do hype midiático e social até ontem, se pararmos pra pensar.

“Isso vai passando de geração a geração. Está muito incutido no imaginário coletivo que o batom vermelho, batom colorido, pra negra que tem os lábios grandes, ou pra qualquer outra negra, não é visto como batom pra ela. É bizarro. São histórias muito bizarras que a gente vai se deparando. Não tem pra onde correr: o padrão da beleza sempre vai ser imposto através daquele povo que colonizou. Claro que agora estamos mudando isso, mas a gente cresceu entendendo que a beleza do povo que foi oprimido não entra nos padrões do belo, e, sim, quem nos colonizou”, acrescenta Natalia.

Momento de quebrar padrões

Se por muito tempo não nos víamos aptas a usar makes coloridas, o momento agora é outro. O estímulo vem de diferentes aspectos:

  • A tendência do momento, por si só, já nos leva a acessar frequentemente propostas desse tipo;
  • Cada vez mais mulheres que se parecem conosco se sentem à vontade para compartilhar suas habilidades com a maquiagem e nos permitem vislumbrar como seria se, por acaso, decidíssemos apostar num delineado azul também;
  • A indústria cultural, que nos ajuda a construir referências quanto ao belo, tem sido formada por mulheres diferentes entre si que nos levam a ampliar a nossa noção do que “pode” e do que “não pode”.

Maquiagem colorida é pra todo mundo, afinal. E, numa preocupação secundária, não nos infantiliza. Essa constatação é da maquiadora Natalia Cavalcante.

“Sinto que temos medo, porque associamos maquiagens coloridas às maquiagens vistas nas adolescentes e, talvez, trazer cor, brincar com texturas e formas, traga uma ideia de não-seriedade para aquele que vê. Ainda bem que este cenário tem mudado”, afirma.

Na avaliação da especialista, há menos regras para criar uma make, o que pode ser encarado até como reflexo do movimento crescente de aceitação da nossa própria beleza. A maquiagem segue essas mudanças de comportamento também.

Sendo assim, está valendo a livre expressão, a versatilidade e a multiplicidade. É a arte que Natalia tanto aprecia.

“É uma forma de expressar os nossos sentimentos ou até mesmo a nossa personalidade ao mundo”, acrescenta.

Para começar a usar cores

Agora que já entendemos o porquê de nossa resistência à maquiagem colorida e absorvemos que, sim, as cores são para todas, podemos dar o primeiro passo rumo a esse universo. A maquiadora Natalia Cavalcante sugere começar pelo batom. Se for mais tímida, o lápis colorido na linha d’água pode marcar sua estreia neste mundo. Daí, então, evolui para um delineador colorido, um rímel diferente.

Mas não há uma regra para a cor que você precisa começar ou aquela que necessariamente mais vai combinar com seu tom de pele. Por outro lado, a jornalista e expert em beleza Vic Ceridono dá uma dica bacana: comece por variações mais intensas dos neutros. Por exemplo, um marrom mais escuro, vinho ou cinza; um preto com brilho; ou ainda tons de pêssego, areia, dourado ou prata.

Em seu livro, ‘Dia de Beauté‘ (Paralela, 2015), Vic também recomenda a aposta em uma paleta de sombras para facilitar o processo de combinação das cores. Para escolher, Natalia Cavalcante lembra que a melhor combinação é aquela que te agrada, afinal.

“No fundo, no fundo, ainda que não saibamos questões de coloração pessoal, que é a técnica que descobre nossas cores de acordo com nossa pele, a gente sabe de forma intuitiva qual a cor que vibra na gente. A gente sabe quais cores gostamos mais, seja na roupa, em acessórios ou na maquiagem”, destaca.

Ainda do livro de Vic Ceridono, mais dicas pra você que quer começar a colocar cor na sua beauty do dia:

  • As cores vibrantes podem funcionar quase como um acessório, então vale deixá-las como foco da maquiagem.
  • Você pode incluir o colorido de um jeito discreto e delicado através do delineado. Azul, verde e roxo são os mais comuns para esse tipo de uso.
  • Rímel colorido também cumprem a função e podem te ajudar a se acostumar com o tom a mais na maquiagem. A dica de Vic Ceridono para quem está começando é aplicar o produto apenas nas pontas dos cílios, como complemento ao rímel tradicional.
  • Nem só de batom vermelho ou rosa se faz um make colorido. Ainda no livro ‘Dia de Beauté’, Vic Ceridono apresenta a variedade de tons que podemos experimentar antes de incluir (ou não, né?!) em nossa composição: nos tons de rosa, estão: clarinho frio, clarinho neutro quase cor de boca, rosa médio, pink chocante, pink chocante meio roxo, melancia; entre os laranjas, o coral clarinho, o coral neutro quase boca, o laranja bem laranja e o laranja neon; entre os vermelhos, há o cereja, vermelho puro, vermelho-alaranjado, vermelho-rosado, vermelho intenso, vinho bordô e vinho roxo.

Falar de cores é pensar em análise de coloração pessoal de imediato. Confira aqui o que significa identificar sua própria cartela de cores!

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