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‘Manterrupting’: Nós, mulheres, precisamos falar

Nunca fui ativista. Nunca fui pra rua segurar cartaz em manifestação. Não sei por quê. Encaro isso como organizar uma festa: não tenho hábito, sei nem por onde começa. Eu só não contava cruzar com um texto bem interessante nesses caminhos da internet, publicado pelo Nexo em setembro deste ano, depois do debate entre os candidatos à presidência dos Estados Unidos, Hillary Clinton e Donald Trump.

Já sabia que isso existia, porque eu já tinha reparado e me incomodado. Só não sabia que isso tem nome e reflete MUITO, talvez não conscientemente, o modo como o homem se vê diante da mulher. Quem de nós nunca conseguiu terminar uma frase ou começar um argumento porque o interlocutor, homem, não nos deixou falar? Isso tem nome, migas: manterrupting.

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Precisamos falar sobre isso. Precisamos falar, pura e simplesmente. É problemático demais não poder sequer concluir um raciocínio porque o cara (ou os caras) com quem estamos falando são incapazes de nos ouvir até o final. E isso é muito, muito frequente. Se antes você já percebia, moça, agora que a prática tem nome as coisas vão parecer de uma frequência absurda. E isso é tão frequente que já virou estudo e pôde ser comprovado cientificamente.

Sheryl Sandberg, chefe de Operações do Facebook, e Adam Grant, professor da Escola de Negócios da Universidade da Pensilvânia, mencionam um estudo sobre isso no artigo “Speaking while Female” (“Falando Enquanto Mulher”), para o The New York Times. A pesquisa feita no Senado mostra que senadores com mais poder (em termos de tempo de casa ou liderança, por exemplo) falam mais do que senadores novos. No entanto, quando se trata de senadoras, o poder não dá qualquer prerrogativa (ou direito, né?) em seu tempo de fala. Outro estudo mostra que quando uma mulher fala no ambiente de trabalho, reunião, por exemplo, ou ela é mal ouvida ou ela é considerada agressiva mas sempre acham que é TPM (WHAT?). Se um homem diz a mesma coisa, os colegas apreciam a ideia.

Isso foi observado na América do Norte, mas eu vejo acontecer do meu lado. Comigo, até. E sempre tem aqueles assuntos que “mulher não sabe“, ou eles pensam que não sabemos. Certa feita ousei opinar sobre política com um monte de marmanjões… Que fadiga. Outro dia uma amiga contou que sugeriu ao chefe uma ação no trabalho e ele fez pouco caso. Posteriormente, ele ofereceu a ideia em uma reunião se apropriando da proposta, dizendo que ele pensou, ele idealizou e coisa e tal. Gente!

– Ai, moça, ok. Agora respira e conta: faz o quê depois disso?

Uma solução proposta pelo artigo do Nexo me parece pertinente e tenho tentado colocá-la em prática. Com base em uma pesquisa feita em 2014 que mostra que mulheres também tendem a interromper mais umas às outras do que se o interlocutor é um homem, a solução é treinar nosso ouvido e nossa consciência para ouvirmos mais. Integrantes da equipe de Barack Obama fazem bem isso e chamam a prática de amplificação. Em uma reunião, por exemplo, quando uma colega fala, a outra ouve todos os argumentos e depois os repete, dando o devido crédito. Assim todos os homens ouvem e são impedidos de se apropriar das ideias dosotros. RÁ

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Claro que eu não estou propondo que você concorde com algo que discorde. Mas precisamos falar. Precisamos deixar que as outras mulheres falem. E quando o homem ousar interromper seu momento de fala, questione mesmo: “Posso terminar?” e se ele insistir, vale também insistir na sua fala. Inclusive, eu acho que isso vai muito da educação de casa, hein? Aquele papo de que quando um fala, o outro para pra ouvir, coisa e tal… Enfim. Tenho feito isso e já consegui alguns “Tá bom, termine”, acompanhado de uma careta de quem não está satisfeito. rsrsrs

Mas, moça, vou reforçar isso aqui: vamos dar uma forcinha pra nossas migas falarem! Não interrompa a história, o argumento, o desabafo, o choro, o que quer que seja, não! Tenho observado que isso é MUITO comum entre a gente e eu tenho me incomodado bastante com isso. Acho que você se incomoda(ria) também, non? A gente ama falar, sabemos. Nossas migas também!

Não esqueça: precisamos falar.

uma semana bem linda pra gente! <3

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Os textos citados são esses:
‘Manterrupting’: a prática sexista de interromper uma mulher quando ela está falando
Speaking While Female

Os cliques são da fotógrafa Milena Marques. Os looks usados pela Moça Criada estão à venda no @brechodazmigaa, a preços mega acessíveis. Menos o sapato, que é da moça e boi não lambe. KAKA 

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