Já pensou em aprender a costurar?

Já pensou em aprender a costurar?

A costura está no cerne de toda a sociedade, não tem jeito. Precisamos cobrir nossos corpos; precisamos nos proteger do frio, conciliar conforto e proteção quando as temperaturas estão mais altas; gostamos de manifestar nossa personalidade. Faz parte da rotina.

Apesar de tudo isso, pouco paramos pra pensar no impacto que ela tem na cadeia produtiva da moda. A pandemia do novo coronavírus evidencia a desvalorização tendente a essa etapa de produção.

A Rede Design Possível expôs que há quem pague 50 centavos por máscara de tecido, item necessário para se proteger do vírus. No mês, esse preço incorreria numa remuneração mensal entre R$ 396,00 e R$ 583,00.

Ver essa foto no Instagram

Dando sequência ao nosso debate (ver post anterior), será que o preço da máscara de tecido que você usa é JUSTO? Quanto custa o “dia” da costureira produzindo máscaras? Dá uma olhada na tabela comparativa que fizemos de “salários de base de costureira/o” (arraste a imagem) E quanto tempo demora para produzir uma máscara? O tempo médio de produção de cada máscara, seguindo o padrão de outras instituições, tem sido entre 9 e 13 minutos, ou seja, é possível produzir entre 53 e 36 máscaras num dia de 8 horas de trabalho. Assim, se considerarmos apenas o valor de hora pago para as costureiras, quando se paga R$0,50 de mão-de-obra para uma máscara elas vão receber por dia entre R$18,00 e R$26,50 – num mês seria entre R$396,00 à R$ 583,00. Lembrando que o trabalho da costura inclui: costura, acabamento, controle de qualidade, passar e manuseio/embalar. Dá uma olhada na nossa segunda tabela comparativa de horas X salários.

Uma publicação compartilhada por Rede Design Possível (@designpossivel) em

Injusto pra um ofício que deve não apenas costurar, como também fazer acabamento, controlar a qualidade, passar ferro e embalar. Mas só percebe isso quem, de fato, sente na pele a complexidade da atividade.

“Quando vejo uma roupa muito barata, falo: ‘Poxa, mas o trabalho que deu pra fazer não está cabendo dentro do valor que estou vendo aqui’. Você começa a ficar mais crítica em relação a essas coisas, porque sabe o trabalho que deu pra fazer; que aquele preço embutido ali está sendo cobrado em outra pessoa. Isso muda muito sua relação com o consumo”.

Larissa Iten, arquiteta

Aprendiz de costureira

A percepção veio depois de ter feito o curso de costura. Os incentivos foram vários: a relação com a faculdade de moda, o exercício de repensar seu consumo e a relação com as marcas; a mudança de perspectiva com relação à menstruação. Disso, especificamente, veio a vontade de fazer seus próprios absorventes de tecido.

“Foi muito legal. Além de virar um hobby, comecei a sentir que eu tinha mais autonomia e liberdade com relação às minhas próprias escolhas. Hoje em dia ainda compro roupa, mas sei que posso pensar: ‘Poxa, será que eu preciso realmente disso?’, porque quando você começa a fazer, começa a dar mais valor ao que está sendo feito”, observa.

Consciência e autonomia. É olhar para uma peça e perceber que você mesma pode fazê-la. E não tem qualquer restrição.

Cynthia Andrade, designer e costureira que ensinou Larissa, conta que essa habilidade pode ser desenvolvida por qualquer pessoa. Na avaliação da profissional, o importante é ter vontade, persistir e praticar.

“Não se aprende a ser uma boa costureira da noite pro dia, é um processo. Mas, mesmo assim, é um processo muito legal porque você vai colhendo frutos durante toda a caminhada. O aprendizado de costura é algo que te faz capaz de ir além sempre, porque tem sempre algo a aprender”, destaca.

Quero costurar também

A professora de costura Cynthia Andrade reforça que aprender a costurar é um processo leve, mas que muitas vezes perde a fluidez devido aos medos criados em torno do ofício. Por exemplo, não precisa ter medo de cortar o tecido errado, porque é só comprar outro e cortar de novo.

Também não há por que temer quebrar a máquina; se isso acontecer, basta consertar. E se quebrar uma agulha, bom… É só trocá-la por outra nova.

+ Acesse aqui o curso online Costurando com Propósito, ministrado por Cynthia Andrade

“Muitas vezes é só a gente errando, quebrando uma agulha ou cortando tecido errado, que nosso aprendizado vai fluir mais, porque a gente vai perceber mais sentido nesse processo. Sempre falo para começar por tecidos mais baratos, fazendo roupas pra você mesma. Se perder alguma coisa, não seria um prejuízo tão grande”.

Cynthia Andrade, designer e professora de costura

Mas, na avaliação de Cynthia, a principal recomendação para quem quer costurar é respeitar seu tempo de aprendizagem. Como todo processo, cada um tem o seu e se desenvolve por etapas. Ela até fala de não “mirar no destino”, mas “aproveitar todo o caminho”.

Isso inclui celebrar quando aprender a cortar o tecido, ou quando entender o que é uma ourela. Se você conseguiu colocar um zíper invisível e ficou legal, celebre; se você colocou e não ficou tão legal assim, desmanchou e tentou de novo, celebre também.

“A gente vê todo trabalho que tem aprender a costurar, todo processo que é envolvido, que não é da noite pro dia. Digo que com o fato de você aprender a costurar, você aprende também – o que pra mim é principal – a valorizar o profissional da costura. Você começa a ver tudo com outros olhos, com encantamento, significado, simbologia, todo processo que envolve”, destaca.

Por onde começar?

Se você quer aprender a costurar também, a professora e designer Cynthia Andrade te ajuda a trilhar um caminho:


Se você chegou até aqui, entendo que se interessa pelo handmade e se preocupa com a cadeia produtiva da moda. Conheça também as reflexões do movimento Fashion Revolution para o período da pandemia!

2 comentários sobre “Já pensou em aprender a costurar?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *