Participantes do BBB 21 assistem a show de Leo Santana e Gloria Groove durante festa no final de semana
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BBB 21 apresenta a moda genderless para o grande público, mas podemos aprofundar a discussão

Depois que descobri o laboratório antropológico que é o Big Brother Brasil, deixei de criticar a aparente futilidade do programa e observar como nos refletimos em cada participante. O episódio envolvendo Fiuk e o sertanejo Rodolffo no BBB 21, no último final de semana, exemplifica isso.

O BBB furou as bolhas da moda e da diversidade para apresentar ao grande público a moda genderless. Timidamente, é verdade, mas tem ajudado a naturalizar – apesar do choque inicial – homens vestindo peças que não são comuns de os vermos usar.

No sábado, 20, Rodolffo questionou a Sarah, colega de confinamento, como seria Fiuk “nas festas de Goiás”. O filho de Fábio Jr. comentou com Gilberto o quanto aquilo o chateou por não ter sido a primeira vez que ele passa por esse tipo de situação.

“É chato brincar com o sentimento dos outros. Ele ficar à vontade assim também é estranho. Quer dizer que Goiânia tem razão? É isso? Tem que usar tal roupa pra entrar na balada? E se eu não fosse heterossexual? Ia ser piada também?”, desabafou.

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De que moda sem gênero falamos?

A situação específica do BBB 21 é reflexo de um comportamento ainda presente em nossa sociedade. Estranhamos quando homens aderiram às T-shirts com gola ‘V’, porque o decote é mais frequentemente usado por mulheres.

Também associamos uso de maquiagem e esmalte à sexualidade. Vestir saias e vestidos, símbolos de feminilidade na nossa sociedade, ultrapassa os limites do que é considerado normal, padrão, convencional.

É curioso perceber que a discussão sobre a moda sem gênero tenha sido provocada pela aproximação de homens a peças atribuídas às mulheres. No caso de Fiuk, peças amplas, lisas, em cores neutras, que não chamam tanto a atenção.

Em capítulo do livro “A Roupa: a evolução da roupa em sua relação com a sociedade“, Tatiane Melissa Scoz cita estudos que chegam a conclusão parecida sobre o que é “roupa sem gênero” atualmente: peças sem modelagens, sem estampas, com cores neutras facilmente vistas em coleções masculinas quanto femininas.

Vale pensar se essas qualidades são as únicas possíveis diante do que é entendido como moda sem gênero, genderless ou agênero: produto cujas características não permitam identificação como masculina ou feminina, e que possa ser usado por pessoas de todos os gêneros e orientações sexuais. Em resumo, a moda sem gênero seria aquela livre de estereótipos de gênero e orientação sexual, tal como meninos podem usar rosa, meninas podem usar azul; meninos podem usar peças justas, meninas podem usar peças folgadas.

Dá pra moda ser sem gênero?

Tive acesso à discussão proposta por Scoz no final de semana, quando terminei o livro no qual foi publicada, e fiquei com essa reflexão desde então. Tendo a concordar com a autora, embora não haja resposta para todas as perguntas que esse assunto levanta, mas é bom considerarmos suas premissas.

Scoz parte dos estudos de Judith Butler sobre identidade de gênero, que questionam a ideia já estabelecida de que sexo é dado biologicamente. Para a intelectual, tanto o sexo quanto o gênero são construídos socialmente, assim como a classificação binária do masculino/feminino ou macho/fêmea. A proposta de Butler é pensar sexo e gênero como performativos e produzidos discursivamente, ou seja, interpretados por meio da cultura.

Isso quer dizer que as noções do que é feminino e do que é masculino são resultado do processo de socialização ao qual estamos submetidos desde quando nascemos. O ambiente no qual crescemos nos orienta quanto aos valores, visões de mundo, referências de modo geral que utilizaremos para avaliar o que estiver ao nosso redor.

Os parâmetros de identificação quanto ao que é masculino ou feminino foram elaborados ao longo da história, sem necessariamente haver uma relação natural entre uma coisa e outra. A conclusão de Scoz, portanto, é:

As identidades de gênero acontecem e são formadas a partir de atos realizados repetidamente, culturalmente significados como masculinos e femininos. Tal realização repetida de atos implica que gênero é algo que fazemos, portanto, é performativo, e não se pode dizer que ele é decorrente de um sexo.

Tatiane Melissa Scoz, no artigo “Roupa para moda ‘sem gênero’?”, publicado no livro “A Roupa: a evolução da roupa em sua relação com a sociedade”

A roupa seria mais um indicador dessa avaliação. Racional ou intuitivamente sabemos que a moda passa uma mensagem, comunica alguma coisa. Consequentemente, esperamos certa coesão entre sexo, gênero, performance/atitude e roupa.

A quebra de expectativa com relação a Fiuk representa isso: espera-se que ele performe a masculinidade convencionada, se vista “como homem”. Esse “como” seria resultado de processos socioculturais e representados por elementos que correspondem aos padrões já instituídos do que é ser homem e do que é ser mulher em nossa sociedade.

Essas premissas são necessárias para entendermos o ponto em questão de Scoz. Sendo gênero uma construção cultural, é possível inferir que sempre haverá algum gênero; e se o ato de vestir pode ser interpretado como prática cultural, as roupas carregam valores, cargas simbólicas e representações de sua época. Diante disso, como pensar em uma neutralidade possível no vestir?

Ela conclui: “A noção de uma identidade ‘sem gênero’ é imbuída de significados, e isso não é neutro”.

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