Febres, manias: É possível explicar a origem das tendências?

Febres, manias: É possível explicar a origem das tendências?

O porquê das coisas sempre me intrigou. Talvez por isso as tendências sejam algo pelo que me interesso entre tudo o que diz refeito à moda. Não pelo que está em voga ou por fazer parte de um grupo que se identifica e se reconhece por usar as mesmas coisas. É o movimento mesmo.

Não à toa logo no início aqui do blog escrevi uma matéria sobre como são definidas as tendências de moda. Na época, disse que a definição do que é tendência tende a ser reflexo do período em que estamos vivendo e a considerar fatores como características do público ao qual se destinam, quais lugares este público frequenta e qual o seu desejo. Um consultor de imagem que ouvi me disse ainda que o senso comum entre as grifes era definidor do processo.

As dúvidas ainda persistiam.

Que características do público definiam as tendências?

Por que os lugares são tão determinantes?

Como antecipar o desejo do público – já que tendência é uma propensão, não algo já estabelecido?

E, o mais importante, o que leva as pessoas a aderirem às tendências e fazerem dela um modismo, de fato?

Encontrei no livro ‘Sociologia das Tendências‘ (Gustavo Gili, 2015), de Guillaume Erner e tradução de Julia da Rosa Simões, algumas respostas. Assim como muitos fenômenos do mundo, as tendências podem ser compreendidas sob diferentes aspectos.

Até mesmo por isso, entendo, o autor diz ser difícil propor uma definição para tendências. Mas é fácil compreendê-las se pensarmos o ciclo da moda: assume uma trajetória ascendente, chega ao apogeu que dá início ao declínio, até que a queda a transforma em algo démodé.

O que acho interessante nisso tudo são as subcategorias das tendências. Erner lembra que há as febres, que têm um tempo mais acelerado; por outro lado, o que está em voga é mais duradouro; já as manias são o meio-termo. Essas taxonomias, diz o autor, são baseadas nas velocidade e na amplitude de sua difusão.

Tendências vêm de cima

Uma das minhas questões quanto às tendências trata do que motiva um grupo de pessoas a adotarem-na e, por sua vez, outro grupo de pessoas decidirem aderir àquele elemento também.

O que explica alguém passar a usar a T-shirt amarrada com um nó na frente e isso passar a fazer a cabeça de outras pessoas? Ou alguém decidir tirar foto no espelho com o pé na pia do banheiro e outras pessoas decidirem copiar também?

Erner recorre a Pierre Bourdieu para sugerir que as tendências nascem da vontade das classes dominadas de imitar as classes dominantes. É o que no jornalismo parametriza notícias sobre celebridades.

No fim das contas, a mensagem é: pessoas dadas como elite despertam o interesse. Na psicologia social, o pesquisador Shalom Schwartz entende esse reconhecimento social como um dos valores presentes em toda sociedade, ainda que em menor grau: poder.

via GIPHY

Tudo isso para explicar que nós nos interessamos por pessoas, mas, principalmente, por pessoas de elite. E numa sociedade que valoriza o prestígio e o reconhecimento social, estamos propensas a querer nos igualar a elas.

Bourdieu explica essa noção, segundo Erner, no conceito de “difusão vertical dos gostos“. Queremos pertencer àquele grupo e os gostos são “marcadores de classes”.

Essa perspectiva corresponde a uma das concepções trazidas por Erner que explicariam a sociologia das tendências. Neste caso, os indivíduos seriam manipulados por forças que os levariam a aderir a certas tendências.

Particularmente, hesito em concordar com essa afirmação porque acredito que tudo é escolha, ainda que não seja racional. E a teoria da agulha hipodérmica, segundo a qual somos todos manipulados sem qualquer consideração individual, já foi superada há algum tempo.

E os indivíduos nisso?

Tendo a concordar com outra perspectiva, aquela que considera tendências como consequências de decisões individuais agrupadas. Pelo que entendi, as tendências seriam reflexo da sociedade e acompanham processos sociais.

E me faz questionar: Quem começa esse processo? Por quê?

Erner recorre a Malcolm Gladwell para explicar o que chama de “epidemias sociais“. Segundo seu modelo, três categorias de pessoas são responsáveis por isso: os mavens detêm vários conhecimentos e guiam os indivíduos dentro de uma coletividade; os conectores são o ponto de interseção da comunicação entre a mensagem a ser difundida e os demais; e os vendedores, por sua vez, difundem a tendência.

Nesse caso, somos convocadas a desviar o ponto de observação para quem guia os indivíduos dentro dessa coletividade. Quem seriam os “grandes”?

Mas ainda ficamos sem explicações: para onde esses “grandes” olham, que inquietação os motiva e de onde parte esse estímulo?

via GIPHY

Não encontro essas respostas em Erner, mas o autor de ‘Sociologia das Tendências‘ menciona o princípio da profecia autorrealizável de Robert Merton que acho interessante pra gente pensar. Segundo essa ideia, uma coisa se concretiza por meio das consequências das crenças de que ela é real.

Em outras palavras, a crença compartilhada em algo leva a consequências que, por sua vez, implicam a concretização do que antes estava apenas no campo do abstrato. Esse movimento é entendido também como arbitrariedade coletiva.

Erner provoca: algo ser considerado tendência é suficiente para que, de fato, se torne uma?

E eu pergunto: qualquer pessoa que entender algo como tendência é capaz de influenciar sua rede a passar a ver esse mesmo “algo” como tendência também?

É pra gente pensar.


Se você chegou até aqui, certamente curte textos mais reflexivos sobre o que estamos vivendo. Aproveite e pense comigo: como deverá ser a vida em sociedade daqui pra frente?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *