Comportamento,  Opinião

Era pra ser um texto sobre a Rihanna e a LVMH… Tornou-se o sermão da blogueira

Essa matéria era pra ser um texto sobre o anúncio da parceria entre Rihanna e a LVMH, conglomerado de luxo que detém marcas como Louis Vuitton, Dior e Céline. Era para destacar, ao longo destas linhas, o marco para a indústria que é esta criação. A começar porque a Fenty é a primeira marca criada do zero pela LVMH desde 1987, quando foi criada a Christian Lacroix. Além também de ser um importante passo para o mercado de luxo, que vê a necessidade de se reinventar, encontrar novas fontes de receita e dialogar com a geração que se coloca aí: mais engajada, que valoriza a diversidade.

Era pra ser um grande texto sobre como Rihanna mais uma vez faz história ao ser a primeira mulher negra a comandar uma grife da LVMH. Em uma entrevista à Time, a professora e historiadora de moda da Parsons School of Design, Rhonda Garelick, disse que esta parceria “(…) sinaliza a crescente compreensão da necessidade de adotar noas definições globais do que constitui prestígio, história e luxo”. “Dada a própria história colonial da França, não devemos esquecer o poderoso simbolismo de uma mulher de cor, de uma ex-colônia européia no Caribe, assumindo uma nova marca de luxo desta icônica empresa francesa”, afirmou.

E tudo isso quando reconhece-se que as marcas europeias deste setor promovem mais lentamente – quase não promovendo – a diversidade em seus postos de liderança, desde em campanhas até nas passarelas. Exemplo disso, ainda segundo a Time, é que Virgil Abloh é ainda o único designer negro a dirigir uma casa de moda tradicional. Ele se tornou o primeiro, em 2018, quando assumiu a direção da linha de roupas masculinas da Louis Vuitton.

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Esse texto que escrevo, veja você, tinha tudo para enaltecer o papel de Rihanna no mundo em que vivemos hoje. Não só por que o investimento na Fenty, de acordo com a revista, está na casa das dezenas de milhões de dólares. Mas também porque a artista de Barbados tem mudado a forma como as empresas tratam mulheres negras e gordas. Rihanna tomou pra si a bandeira da diversidade de corpos, estilos e cores; defesa esta que se materializa na linha de lingeries Savage X Fenty, lançada em maio do ano passado, e na linha de maquiagem com 40 tons de base, a Fenty Beauty.

Neste último caso, inclusive, o site Business of Fashion aponta este lançamento como responsável por desencadear uma tendência de maquiagem que promoveu a inclusão racial no marketing e no desenvolvimento de produtos para a pele. Algo muito de acordo com os movimentos do mercado, segundo um levantamento feito pela Nielsen em 2017: só nos Estados Unidos, consumidores negros investiram 465 milhões de dólares em cuidados com a pele. E de acordo com dados do Instituto Locomotiva, citado pelo site Mundo Negro, afrobrasileiros movimentaram 1,7 trilhão de reais em 2017. Não à toa, em quase dois anos de lançamento a Fenty Beauty já vendeu mais de 500 milhões de dólares em produtos, tem cultivado uma base de consumidores mais diversificada do que seus rivais e foi uma das companhias mais geniais apontadas pela Time em 2018.

A intenção deste texto era realmente enaltecer a profissional que Rihanna é, cada vez mais se aproximando do mundo fashion, como quando em 2014 assumiu a direção criativa de sportswear da Puma, sob a marca Fenty X Puma. É alguém que raciocina sobre seus movimentos, tem noção de quem é seu público e do que ele precisa. E só faz crescer o leque de atuação da batuta Fenty. Que, no mercado de luxo, inclusive, oferecerá produtos prêt-à-porter e acessórios, segundo O Globo.

Mas se tornou muito difícil acompanhar esse recorte de trajetória e não pensar em duas coisas: propósito e o falar na hora certa.

Primeiro, porque a gente precisa ter algo com o que se engajar. Objetivos, a mudança que queremos ver no mundo, impactos, propósitos mesmo. O que pretendemos? Para quê existimos? Que contribuições podemos dar ao nosso mundo? Das pequenas às enormes coisas, das singelas às marcantes atitudes, somos nós que precisamos definir o motivo de estarmos aqui, acordarmos todos os dias de manhã, deitarmos a cabeça no travesseiro conscientes de que fizemos o que podíamos. Tipo Rih, que tomou pra si a responsabilidade não só de entreter ou passar uma mensagem de empoderamento feminino em suas canções, como estendeu isso às dimensões mais materiais da coisa.

Afinal, que mulher nunca se sentiu constrangida por não encontrar uma lingerie que comportasse os seus seios? Quão minante para a autoestima deve ser para a mulher gorda não encontrar um conjunto de calcinhas e sutiãs que fujam do apagado bege? Ou quem nunca questionou a noção de que bege é o nude, como se todas as mulheres tivessem a mesma cor de pele? Digo mais: quantos tons de base você precisou misturar até que encontrasse aquele ponto ideal para cobrir naturalmente a pele do seu rosto?

Inclusão, individualidade, diversidade, empoderamento. Está no campo do abstrato e quando se materializa tende ao que é tido como fútil. Mas veja como o supérfluo impacta na autoestima e como esta, por sua vez, dita o modo como seguiremos em diferentes campos de nossa vida?! Note como é de mulher para mulher, com um pensamento mais coletivo e aberto às mudanças que ocorrem em nossa sociedade. É um propósito.

E encontrar um propósito não está necessariamente ligado a falar sobre ele o tempo todo – o que nos faz entrar no segundo aspecto de todo esse movimento Fenty-LVMH. Falar na hora certa, ou o silêncio estratégico, diz muito mais quando damos prioridade à ação. No caso da estrela pop que é o motivo deste “sermão”, não lembro de ouvi-la falar, falar e falar sobre o quão errada a indústria está por não abraçar esse mercado consumidor, ou mesmo o quanto precisamos de marcas que adotem a diversidade como valor-chave de seus produtos. Uma vez em condições, Rihanna foi e fez. Igualmente, você pode ir lá e fazer.

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Se incomoda com a forma como as pessoas tratam grosseiramente os outros? Trate, você, da forma como acha correta. Não gosta do modo como um doce é feito? Crie sua alternativa e faça do seu jeito. Acredita que projetos sociais deveriam seguir outra lógica? Monte sua turma, dê o primeiro passo conforme sua visão de mundo. Dê o exemplo de como poderia ser, ao invés de só falar sobre, afinal, pouca coisa mudará só porque você acha ruim. Faça diferente, já que te incomoda. Fale menos, aja mais.

Inclusive, esta proposta também pode ser interpretada sob aquele olhar do “o que ninguém sabe, ninguém estraga”. Fale na hora certa: quando estiver realizado. Soprar nossas intenções por aí são um truque de vaidade terrível, uma vez que faz com que construamos perante os outros aquela imagem boa, de alguém do bem, sem ao menos termos materializado o que nos é motivo de ascensão. E já que nossa imagem já está tão positiva… Bom… Podemos deixar a realização um pouco pra depois, não é? E geralmente a gente não tem consciência de nada disso.

Mas podemos passar a ter. E refletir mais. E nos guardar mais. E realizar mais. Encontrar um propósito. Vamos.


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Curiosa, jornalista e libriana. Mestranda no PósCom/Ufba, interessada nos valores - os meus, os seus, os de notícia e os humanos. Se piscar o olho, o cochilo vem, mas os olhos sempre estão abertos para uma série ou outra que desperte o interesse.

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