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Era de revivals: Tá tudo bem sentir saudade?

Os jovens de agora talvez não entendam o frenesi que domina a geração 90/2000 quando é anunciado um revival. E parece que a tendência do entretenimento é exatamente essa: reviver o passado. Veja só: na última semana foi anunciado o reboot de Gossip Girls; a dupla Sandy e Júnior segue numa turnê produzida só pra “matar a saudade”; a banda Rouge e os Jonas Brothers também viveram sua fase de comeback; a Disney decidiu produzir live-actions de filmes clássicos da geração passada, com destaque para os recém-lançados Rei Leão e Aladdin, e há toda expectativa para A Pequena Sereia. Até mesmo o tamagoschi voltou, aquele bichinho virtual que educou muita criança para o que estaria por vir quando decidissem ser papais e mamães.

É o que a consultoria Soledad identificou como “newstalgia“, a nostalgia misturada com as releituras do presente. Ela está no entretenimento, mas também se apresenta em situações do cotidiano, como o resgate da comida orgânica, a valorização do natural em detrimento dos industrializados (esse episódio de podcast pode te ajudar a compreender melhor).

“Seria como uma tentativa de experimentar novamente aquela sensação vivida, e que nunca será igual, porque já é outra coisa, outro momento. A sociedade atual tem uma característica peculiar de que tudo precisa ser para agora, sem muito refletir e muitas vezes sem o cultivo da tolerância e da paciência. É uma sociedade que não suporta a frustração”, observa a psicanalista Renata Bento. Segundo ela, uma sociedade que não suporta a frustração tende a sofrer por acreditar que o passado era melhor do que o presente.

Essa crença pode existir por diversos motivos. Seja porque ainda não superamos que o passado já passou, seja porque os tempos de agora estão bem difíceis e nós, enquanto sociedade, estamos mais concentrados nos desafios e problemas. O que mais sofre com um contexto como esse é o nosso processo criativo, segundo a psicanalista Gisele Gomes.

“A criação artística está muito ligada com o que acontece no mundo e eu vejo esse momento como bem soturno. Olhar pra coisas que foram solares, alegres, como Sandy e Júnior, como Rouge, como os anos 90 com suas cores, músicas, isso traz um certo conforto. A criatividade está aplacada por um momento sombrio de descrença”, acrescentou.

Criatividade a todo vapor

Um caminho pra reverter o quadro de criatividade estagnada – parece clichê, admitimos – é o autoconhecimento. E a premissa básica pra isso é que a gente não tem controle sobre o que está fora, mas é perfeitamente possível mudarmos o que está dentro. Gisele observa que o indivíduo tem que buscar em si mesmo as forças para encarar a realidade como ela se apresenta, ao invés de esperar que o mundo dê as condições que ele espera.

“É hora, independente de ser momento difícil ou mais promissor, de olhar pra dentro de si e encontrar esse mundo de possibilidades. E quando você ama a si próprio e olha pra si como um mundo cheio de possibilidades que você pode externar e contribuir pra que esse ambiente externo melhore, essa descrença vai te abandonando e a esperança volta. As pessoas não conseguem encontrar o seu lugar, identificar o seu lugar”, afirma a especialista, lembrando que o contexto de redes sociais dificulta bastante o processo.

Segundo Gisele, ficamos mais focados no lugar do outro, o que ele faz, o que ele veste, por que ele é mais sarado que a gente, e deixamos de olhar pra nós mesmos, entender nossos desejos e processos. “Quando você está na rede social, você está vivenciando a vida do outro. Agora quando você está com você mesmo, você sabe que você está com você apenas, e aí tem condições de entender o que você quer e qual é o seu lugar nesse mundo. E aí exerce sua criatividade, seja ela no que for; qualquer coisa que te faça feliz, te agrade”, acrescenta.

E já que falamos de felicidade, não custa nada lembrar que não dá pra ser feliz o tempo todo, e isso é perfeitamente compreensível. A psicanalista Renata Bento explica que tendemos a confundir felicidade e euforia. Enquanto esta última é a exaltação do humor, a felicidade é muito particular e encontrada em um dado momento. Esperar que a felicidade se baseie na exaltação de humor continuamente pode ser uma grande furada.

“As experiências da vida mudam todo o tempo. Na vida existem momentos bons, felizes, outros nem tanto e às vezes outros bem ruins. Entender esse movimento da vida ajuda a equilibrar a expectativa e tolerar melhor as frustrações”, destaca a profissional.

Tudo bem sentir saudade?

Entender esse boom de revivals como uma consequência da nossa estagnação criativa, decorrente da realidade em que estamos vivendo, é o primeiro passo pra mudar tudo isso. Tudo bem sentir saudade, tudo bem lembrar de uma época ou de elementos que nos fizeram muito bem. O sinal de alerta acende quando esse saudosismo nos impede de seguir em frente, de criar novas possibilidades de felicidade.

“[É] Entender que o passado é ótimo, ele faz parte da nossa vida, da nossa história, não devemos ignorá-lo. Mas de forma alguma deixe que a saudade do passado te impeça de viver experiências novas e boas no presente. Quando as questões do passado estão bem elaboradas dentro de nós, somos gratos e sentimos saudades, isso, sim, é saudável. Quando não, esse passado nos consome e aí está o perigo. Não podemos viver à sombra do passado. Temos que nos permitir novas histórias”, recomendou a psicóloga Fernanda Fontes.

Então, assim, tudo bem se empolgar com os reboots, com os clássicos que são revisitados, com sua banda favorita que volta a fazer turnê. Afinal, a individualidade é construída a partir das histórias que a gente vivencia, sejam elas boas ou ruins. Cuidado só para que essa lembrança não te prenda a um passado que… já passou. É bom observar se esse revival não acaba te levando pra alguma situação muito boa ou muito ruim que você viveu anos atrás e se esse retorno não te impede de seguir com sua vida presente. É bom observar também se sua atenção não fica muito voltada para o ontem, para trás. No caso de as respostas serem “sim”, aí é bom procurar ajuda.

“Quem está indo ao show da Sandy e Júnior quer vivenciar novamente, ouvir aquelas músicas, lembrar da sua adolescência. Pode ser um momento de reencontro com colegas, com amigos da época. Isso pode ser positivo. O ruim neste caso, só usando este exemplo, é de repente a pessoa se sentir novamente uma adolescente, começar a agir daquela forma, começar a ir atrás desses shows incessantemente. Quando se torna algo excessivo revela-se uma patologia”, acrescentou Gisele.

*Matéria atualizada em 29 de julho de 2019, às 11h45.

Curiosa, jornalista e libriana. Mestranda no PósCom/Ufba, interessada nos valores - os meus, os seus, os de notícia e os humanos. Se piscar o olho, o cochilo vem, mas os olhos sempre estão abertos para uma série ou outra que desperte o interesse.

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