Comportamento,  Opinião

E se a gente repensar o ‘lacrar’?

Sou Moça Criada não à toa. Sempre expliquei que fui uma menina criada pela mãe e uma adolescente criada pelo pai, mas nunca disse em detalhes como isso se deu e o impacto na mulher que tenho me tornado. Nunca me falaram em feminismo, por exemplo. Mas de alguma forma a essência do movimento esteve presente, ainda que como semente.

Cresci com uma mulher forte, destemida, obstinada a sobreviver na cidade que é Salvador para não ter que voltar ao interior depois que seu primeiro casamento não deu certo. Minha mãe lavou, passou, cozinhou, ouviu trela de gente rica e ignorante por anos – e ainda ouve, até. Não foi chegada à intelectualidade, problematizar discursos, analisar qualquer coisa à luz da estrutura social. Mas sempre me ensinou fundamentos: saiba fazer suas coisas, busque sua independência, tenha seu dinheiro, não dependa de ninguém.

Já na adolescência, fui criada por um pai policial, com um quê de consciência social, que até flerta de vez em quando com a filosofia das coisas. Também jamais me falou sobre feminismo. Mas as lições eram passadas desde pequena e continuaram mais rotineira, embora discretamente, naquela fase tão difícil: estude para trabalhar e não ficar presa às tarefas domésticas; busque sua independência; seus cabelos crespos são lindos. Algo de que ele se orgulha é dizer que me criou para trabalhar e não para ser dona de casa.

Não me considero militante de causa alguma, porque não me mobilizo nem em 1/3 do que muitas militantes o fazem. Não acho justo carregar a alcunha. Mas sei que feminismo é liberdade, independência, livre pensar, isto sendo a materialização da igualdade com relação aos homens: livres, motivados a buscar conhecimento e independência, cujos comportamentos são por vezes legitimados sem qualquer julgamento moral. Liberdade. Nós, mulheres, queremos igualdade e liberdade.

Como pode, então, haver fiscais de como deveríamos ser, segundo a norma do que algumas feministas consideram ser exemplo do feminismo?

Não faz muito tempo, conversava com Allana Gama, um grato presente de 2018, sobre a obrigação que temos de aproveitar a liberdade conquistada. E não falávamos sobre beijar quantas bocas quiséssemos ou dirigir um caminhão como novo ofício. Tratava mesmo da cobrança para não nos preocuparmos com depilação; do julgamento que sucedia o desabafo “preciso emagrecer”; do canto de olho com o qual nos olham quando dizemos que fizemos concessões para um namorado ou paquera. Descartar o desenvolvimento profissional para cuidar da casa, do marido e dos filhos, então, é ouvir a palavra do feminismo sem que se tenha pedido.

Não quero aqui deslegitimar esse movimento tão, mas tão importante e necessário, que nos permitiu trilhar caminhos que não seriam abertos de livre e espontânea vontade pelo patriarcado. Nem é a intenção deste artigo de opinião, que portanto retrata só uma – que é a minha – opinião, dizer que deveríamos alimentar o ciclo de machismo ao qual estamos submetidas há tanto tempo. O propósito aqui é outro.

Primeiro, lembrar da liberdade. Da possibilidade de escolha. Do respeito que deve suceder a escolha. Do livre pensar, caminhar, vestir e se relacionar. De não sermos julgadas por nossas decisões. E independência. Não estar na sombra de quem quer que seja, se não for essa a nossa vontade. Preciso lembrar que somos livres.

Se eu quiser focar na minha carreira e não encontrar espaço para filhos na minha vida, tudo bem. Se eu quiser largar o trabalho para acompanhar o crescimento dos rebentos, ninguém tem nada a ver com isso. Se eu quiser vestir uma saia curta ou uma burca, optar por não rebolar até o chão depois que comecei um relacionamento, ou se quiser ficar com abdômen trincado: não é da conta de ninguém. Se eu quiser transar com três homens diferentes na semana, ou esperar o casamento para só então ter uma relação sexual, ninguém tem absolutamente nada a ver com isso.

Certamente existe quem defenda argumento contrário ao exposto aqui, e não há qualquer problema: assim como na vida, somos livres na academia para estudarmos, aplicarmos metodologias específicas e chegarmos a resultados bastante específicos. A questão é que não percamos de vista, jamais, a liberdade.

E o respeito, claro.

Respeitar quem se diz ou quem não se diz feminista. Respeitar quem quer trilhar os caminhos mais radicais ou mais sutis. Respeitar quem enaltece feministas, feminino e feminismo, mas também aquelas que ainda não perceberam a importância de defender esse movimento. A agressividade por trás da crítica afasta mais do que agrega. 

Como pode querermos que o outro sensibilize e respeite, se não temos o respeito e a sensibilidade de mostrar quão importante aquilo é? Longe da lacração comum às redes sociais, da entrelinha onde se inscreve a obrigatoriedade de sermos todos desconstruídos desde já. Os preconceitos estão na estrutura, foram naturalizados e requerem esforço para que sejam desconstruídos.

Alguém atribuiu a Chimamanda Ngozi Adichie uma frase que diz algo como “o que é óbvio pra mim não é pra todo mundo”. Desde então, repensar o meu jeito de fala passou a fazer todo sentido. Quem sabe não faz pra você também?

Curiosa, jornalista e libriana. Mestranda no PósCom/Ufba, interessada nos valores - os meus, os seus, os de notícia e os humanos. Se piscar o olho, o cochilo vem, mas os olhos sempre estão abertos para uma série ou outra que desperte o interesse.

7 Comments

  • Sineia Coelho

    Excelente artigo! Parabéns! Na atualidade tudo virou “ditadura”. Não podemos expor nossas opiniões, não podemos pensar fora da “caixa”. Se nossa opinião vai de encontro à do outro, seremos execrados nas redes sociais. Daí não entendo porque continuamos exigindo a democracia se impomos a ditadura até do pensar! Sejamos livres, desde que as nossas atitudes, pensamentos respeitem o outro… tem que haver essa liberdade!

    • Teté Marques

      Importante mesmo isso, Sineia. O estado das coisas hoje é de atenção por causa do processo de questionar o que nos foi imposto e o que já “estava aí” quando aqui chegamos, mas o respeito é fundamental. Tanto de quem pensa quanto de quem questiona o pensar.
      Obrigada pelo comentário!
      bj

  • Carlos Eleutério

    Lindo!
    Muito delicado e bastante profundo.
    Gostei!
    Vou aguardar a continuação. A Moça Criada foi criada pela mãe, depois pelo pai… certo. E agora? Passado a infância e a adolescência, quem está criando a Moça Criada? Kkk nada melhor q pautar uma jornalista.
    Aquele abraço.

    • Teté Marques

      Eita! São tantas as influências… Mas já trago um spoiler: tudo começou com a matrícula numa faculdade pública, num curso de humanas. A convivência com a diversidade tem ajudado a desconstruir muita coisa!
      Obrigada pela presença, tio!
      bj

  • Henrique Deiró

    Isso que é lacração de fato!
    Discurso completamente coeso e bem estruturado.
    O problema das militâncias febris é sua “essência” reacionária. As pessoas estão comprando bandeiras e vestindo causas sem nem se darem ao justo trabalho de equilibrar os diversos aspectos envolvidos, considerando principalmente o contraditório.
    Show de texto!
    Tá de parabéns!

  • Cris

    Perfeito. Vc consegue expressar exatamente o que tenho sentido ultimamente, não podemos falar nada, expressar nada porque sempre tem alguém querendo dar uma lição de moral. Esses dias mesmo vi um cara julgando umas pessoas que acreditam nos elementos da natureza, juntamente com a religião Candomblé/Umbanda, na qual acredita-se que esse ano é o ano das sentenças, onde o mundo está passando por uma reenergização, e por isso tantas catástrofes. No final ele ainda disse: “minha opinião!”, Pensei em responder, mas depois achei melhor ficar na minha porque pessoas como ele não merecem ter uma conversa prolongada, principalmente quando está atrás de “likes” em cima de um assunto que pode ofender a outros.
    Vc não acredita? Tudo bem, tá em seu direito! Mas se julgar melhor em cima dos quais tem sua crença, atrás de umas curtidas é demais pra mim.
    Parabéns, Moça, que continue com essa sensibilidade e olhar crítico.

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