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‘Designer fazendo arte ou artista fazendo moda’: A estamparia por Mila Petry

Estampas são mesmo apaixonantes, embora às vezes sejam chocantes. De todo modo, difícil é se deparar com alguma e não se sentir impactada. Talvez curiosa. Como será que aquele desenho foi feito, pensado, criado?

“Tem muita coisa pra fazer. Você tem a parte de desenvolvimento de elemento, então se você vai criar o elemento, você vai desenhar, pintar, tratar no computador; tem a parte de montar a harmonia da estampa, tem que se preocupar com a coloração. E toda estampa, depois que ela está pronta, você vai mandar para o fornecedor, ele vai fazer uma amostra e você aprova ou não. Isso normalmente dá problema, é difícil vir da primeira vez uma cor boa”, explica Mila Petry, nossa entrevista do mês aqui no Moça Criada.

E ela sabe do que está falando. Com formação em Artes Plásticas pela Universidade de Brasília e pós-graduação em Design de Estamparia pelo SENAI/CETIQT, no Rio de Janeiro, estudou Criação de Estamparia em Computação no Fashion Institute of Technology e Aquarela na School of Visual Arts, ambas em Nova York. Em Salvador para um workshop no Tropos, a designer com passagens pela Richards e pela Farm contou um pouco sobre os bastidores da criação de estampas. O bate-papo você confere abaixo.

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Foto: Moça Criada

Você foi designer de estampas na Richards e na Farm. O que você percebe de diferente nesses dois lugares na hora de produzir as estampas? Quais características de cada marca te desafiaram de alguma maneira?
Olha, tem várias diferenças. Uma que na Richards a estrutura de estamparia é menor, porque faz menos produtos estampados e as estampas são mais simples, então, na Richards era só eu. Eu era o departamento de designer de estampa feminino, então eu que fazia tudo. Às vezes eu ainda fazia uma coisinha pro kids e pro masculino, mas era exceção, até porque já era muita coisa fazer o feminino todo. Mas eu fazia tudo, cuidava do processo todo. Eu venho de artes plásticas, comecei a estudar pintura um pouco antes da faculdade, então sempre gostei de trazer o trabalho manual para estamparia. Eu fazia tudo, pintava, desenhava, passava pro computador, criava raport, falava com fornecedor, aprovava as bandeiras de cor, fazia tudo na Richards. Tinha controle do processo todo. Na Farm já era uma equipe grande, quase 20 pessoas, dividido em alguns designers – eu era uma das designers que criava os desenhos -; tinha uma menina de Cor, como se fosse um subdepartamento dentro do nosso departamento, que alterava cores de estampa, alterava a cor, fazia contato com fornecedor, que aprovava bandeira, via se a coloração estava certa ou errada… Então já era uma estrutura muito maior, porque o carro-chefe da Farm é estampa. Acaba que você não tem controle total do processo, muitas estampas são feitas por mais de uma pessoa – você faz um pedaço e outra pessoa termina; você faz uma estampa e outros designers vão fazer variações daquela -, enfim, tem várias mãos ali. Essa é uma diferença. Outra diferença é que a Richards tem estampas que aceitam mais, como se fosse assim, a imperfeição manual. Por exemplo, aquarela mais aguada, menos precisa, era uma coisa que eu podia usar na Richards e ficaria legal, já na Farm não ficaria tão legal. A Farm já tem uma estampa… Pegando a flor, por exemplo, tem uma flor que é mais realista, é mais uma flor botânica, tem mais detalhe, não vai ter aquele traço manual tanto quanto na Richards. Aquarela eu conseguia explorar mais na Richards do que na Farm.

Tendo, então, a Farm como referência, porque o processo era muito mais complexo, como funcionava a etapa de coloração? Você falou que tem a parte de desenhar estampa e um departamento responsável pela cor. Como é esse bastidor? Quando a gente vê na loja, não tem noção desse passo a passo por trás.
Tem muita coisa pra fazer. Faço workshop e às vezes é engraçado porque as alunas falam “Gente, mas é muito mais complexo do que eu imaginava”. E realmente, porque você tem a parte de desenvolvimento de elemento, então se você vai criar o elemento, você vai desenhar, pintar, tratar no computador; tem a parte de montar a harmonia da estampa, tem que se preocupar com a coloração. Os designers são responsáveis pela cor das suas estampas também. O departamento de cor era mais pra dar um plus na cor ou pra fazer alteração de cor. Por exemplo, você fez uma estampa que vai pra uma mini-coleção e decidiram trocar pra outra, que são as cores de fundo, aí tem que trocar a cor. Aí das meninas [na Farm] de cor que faziam. E toda estampa, depois que ela está pronta, você vai mandar para o fornecedor, ele vai fazer uma amostra e você aprova ou não. Isso normalmente dá problema, é difícil vir da primeira vez uma cor boa.

Foto: Moça Criada

Isso demora mais ou menos quanto tempo, desde o processo de criação de elemento até a primeira amostra do fornecedor?
Olha, o tempo do designer criar estampa… Tu pode ter que criar uma estampa em horas ou você pode levar uma semana. Tudo depende da complexidade da estampa, do prazo que você tem. E se você vai, por exemplo, fazer uma estampa em horas, você tem menos de um dia pra fazer, você vai usar elementos que já tem pronto. Se você quer experimentar, testar coisas novas, criar vários elementos novos, aí você pode levar uma semana. Esse é o prazo do designer. E depois você tem o prazo do fornecedor, que vai variar da época e do fornecedor, mas vai ficar aí entre 15 e 30 dias pra você receber as amostras de cor. Se você pedir ajuste, demora mais um tempinho. O prazo confortável pra desenvolvimento de estampa com aprovação de cor é coisa de dois meses, pra desenvolver, aprovar, mandar pra bandeira, consertar se precisar.

Você mencionou que o tempo do designer pode ser de um dia, horas, uma semana. Como funciona o seu processo criativo?
Quando você está dentro de uma marca, você tem que se adaptar ao processo deles. O meu pessoalmente é mais experimental e mais demorado, pelo fato de eu vir de artes plásticas. Se eu for fazer do meu jeito, se eu estiver fazendo pra mim mesma, eu vou fazer um processo de criação que vai um pouquinho pro lado do processo de criação de artes plásticas, de um artista, que tem uma experimentação, tentativa e erro, mais demorado. Não é uma coisa do que você pegar uma pessoa de designer, que vai ser mais objetiva. Eu gosto do experimental.

E você busca inspiração onde? Sei lá, uma parede com grafite te inspira de alguma maneira?
Acho que quando você está trabalhando com isso, tudo te inspira. No fundo você está sempre um pouquinho antenado e outras formas de arte me inspiram; ver trabalhos de arte, pintura, artes plásticas, instalação, fotografia, ver outras formas de arte me instiga muito e me dá vontade de criar; e pequenas coisas. No dia a dia, você pode ver essa parede e a textura te estimular de alguma forma. Acho que a gente fica com a anteninha ligada o tempo inteiro.

Foto: Moça Criada

Você pode dizer alguma coisa do cotidiano – ou não tão cotidiano assim – que tenha te inspirado de alguma forma?
Não é tão do cotidiano, mas, por exemplo, o papel onde você limpa o pincel quando está fazendo aquarela já foi uma coisa que me estimulou. Eu cheguei a escanear aquilo, que na verdade seria um lixo, eu cheguei a pegar pra usar porque achei que tinha criado manchas interessantes. A gente tem muito floral, então, muitas vezes plantas estimula. Às vezes estou andando na rua, vejo uma planta e paro pra tirar foto, porque achei aquela planta bonita ou ela está numa posição bonita. Outra coisa que inspira muito é cor. A cor é importante na estampa e às vezes você vê alguma cena. Por exemplo, uma vez eu vi uma casa com parede rosa e ela tinha uma árvore com flores rosas na frente e um fusca rosa estacionado na frente, aí eu fotografei. Você tem tipo uma cartela de cor ali. Acho que cor é bem comum, você está andando pela vida e vê um conjunto de cores que é interessante. Quando eu viajo de férias, costumo voltar com vontade de criar alguma coisa, principalmente países que a cultura é muito diferente, sempre volto com vontade de criar alguma coisa relacionada àquilo. As últimas férias que tirei enquanto estava na Farm, fui pra Grécia e quando voltei fiz uma estampa que pintei todos os elementos de aquarela, simulando mosaicos de várias áreas daquele azul. Amo essa estampa e ela foi meio que, assim, o resultado das minhas férias, voltei com vontade daquilo ali.

Você comentou que viagens de férias te inspiram, mas e grifes ou estilistas, tem alguma pessoa ou coisa que você tem como referência ou já teve, antes de ser quem você é hoje?
Olha, eu sou meio na contramão da moda, na verdade. Não fico acompanhando desfile, não sou muito consumista, não tenho muita paciência com shopping. Moda, mais imediata, eu sou bem fora. Gosto muito, só que aí é muito atemporal, de alguns pintores. Já fiz uma coleção na Richards inspirada no trabalho do Matisse, que combinava com o tema. Mais fácil eu me inspirar em um trabalho de arte do que no estilista. Já tiveram algumas vezes que busquei inspiração em artistas. A do Matisse foi uma coleção de inverno da Richards.

Como é o feedback das estampas que você produz?
Vou te falar que, na verdade, venda mais ou menos a gente pode ter como feedback. A roupa, quando você faz a estampa, não é só estampa. Então, por exemplo, já teve estampa minha que eu gostava e não comprei porque não gostava das peças que ela tava. Agora é engraçado porque acho que tem algumas estampas que marcam mais, e você ouve as pessoas falando. Muitas vezes de amigos, ou quando dou curso e mostro as estampas, as pessoas falam “ah, essa é sua”. Tem algumas que têm mais reação. E não é uma forma muito precisa, porque às vezes você pode estar em um meio que gostou daquilo, mas isso não é o geral. Mas existe um certo bom senso, inclusive, quando você está trabalhando com equipe, as estampas mais legais a equipe costuma gostar mais. A gente já tem uma noção de que a estampa é interessante. E até você quando cria sabe quando está criando uma coisa comum ou quando está criando uma coisa diferente, que pode impactar mais.

Foto: Moça Criada

Você não acompanha moda, mas imagino que saiba que o floral está aí há muito tempo. Aparecem ora flores menores, ora flores maiores; às vezes são aquelas tradicionais, às vezes são aquelas mais diferentes do que a gente vê. Por que você acha que o floral não sai de moda? É mais fácil de agradar as pessoas?
Eu acho que você tem mil possibilidades dentro de um floral. Você pode criar muitos estilos, você tem muito estilo de flor, muita variação de tamanho, há um universo muito grande a ser explorado. Você consegue ter muitos estilos de roupa e agradar muita gente variando o floral. Acho que ele é um clássico por ser, cada vez que tem mais, ela ganha mais força, e acho que o floral é muito feminino. Quem mais explora estampa é mulher – tanto é que hoje em dia você tem até uma coisa de camisa de homem estampadona de flores, mas o público mais consumista de moda, roupa e estampa é mulher. O floral é feminino, as mulheres gostam. É uma receita certa. Ele vende bem, então você faz mais; porque você faz mais, ele vai vender mais, porque você vai aprender a fazer melhor e vai ter mais opções, então é uma bola de neve.

Como é o mercado de designer de estampas aqui no Brasil? É fácil de ser?
Acho que o designer de estampa é um mercado novo, que de certa maneira consegue faltar profissional e faltar vaga. Conheço muita gente que quer trabalhar como designer de estampa e acha difícil, mas também sei que é difícil conseguir contratar um designer de estampa. Mas é porque acho que é um mercado muito novo, está crescendo agora, e muita gente que quer ser designer de estampas. A gente não tem ainda instituições de formação mais estruturados ou conceituados pra design de estampa. Quem é designer de estampa cada um estudou um jeito: tem muita gente que é designer gráfico, gente que é da artes plásticas, como eu; vai ter gente de moda, de publicidade. Ainda é um mercado muito novo, que não está muito bem estruturado. Tem bastante oportunidade, mas tem que correr bastante atrás. Nessa questão de formação, você tem que ir juntando experiências diferentes.

E se alguém que estiver lendo essa entrevista quiser se tornar um designer de estampas, que caminho você recomenda?
Acho que você tem que ter um portfólio legal, e pra você ter um portfólio legal vai ter que desenvolver algumas habilidades ou pelo menos um olhar. Vai ter que achar estilo que gosta… O ideal seria você construir algumas estampas que tenham algo de você, algo de autoral, elementos criados por você. Vai ter um trabalho ali meio de criação de arte, de desenho, com aquarela, tinta acrílica, canetas marker, até criar no computador, mas você vai ter o trabalho de criação. Depois você vai ter que montar as estampas e criar uma identidade sua pra se mostrar e começar a correr atrás de oportunidades. Ou estágio também. Se conseguir estágio numa marca legal, já te dá um bom empurrão.

Foto: Moça Criada

Só pra gente terminar: no seu perfil pessoal do Instagram tem a pergunta “designer fazendo arte ou artista fazendo moda?”. No fim das contas, quem é Mila Petry?
Pois é, não sei, estou tentando descobrir! [risos] Eu fiz essa brincadeira exatamente porque eu tenho um pouco… Fiz artes plásticas, mas trabalho com designer, aí eu fico meio… Sabe? Sou designer e fico inventando de botar arte no meio ou sou artista e estou fazendo designer? Enfim, é uma brincadeira, mas no fundo estou fazendo um questionamento que ainda está pra ser descoberto por mim mesma. Não tem resposta, talvez nunca tenha.

Curiosa, jornalista e libriana. Mestranda no PósCom/Ufba, interessada nos valores - os meus, os seus, os de notícia e os humanos. Se piscar o olho, o cochilo vem, mas os olhos sempre estão abertos para uma série ou outra que desperte o interesse.

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