Da periferia ao centro: O ‘loiro pivete’ é moda

Da periferia ao centro: O ‘loiro pivete’ é moda

Nos anos 2000 foi a marca registrada do cantor Belo. No final dos anos 2010, marcou a imagem do jogador Gabigol, que fez uma campanha megaprodutiva pelo Flamengo em 2019. No Rio de Janeiro, é hábito compartilhado já faz algum tempo entre os meninos da comunidade em épocas festivas, como Ano Novo. No verão 2020, “meter” o “loiro pivete” é moda que saiu da periferia e chegou ao centro da sociedade. Dominou.

“Você sabe que o preconceito com essa cor de cabelo, com minha cor, é um pouco complicado. Minha mãe tava com medo, meu pai tava com medo. Aí eu nunca tive a coragem de passar por cima da ordem deles que não era pra pintar e tal. Eu fui crescendo, crescendo e fiz pela primeira vez no Carnaval de 2019. (…) Agora no final de ano, com apoio de minha namorada, minha mãe falando, mas mesmo assim foi aquele negócio mais tranquilo”, lembra o atendente Jefferson Rodrigues, que descoloriu o cabelo por sua conta e risco, apesar dos alertas da mãe sobre as pessoas ainda “só pensarem besteira” sobre o cabelo nesse estilo.

O preconceito e a chacota que acompanhavam a reação aos meninos negros com o cabelo descolorido deram lugar à euforia dos rapazes de classe média por entrar no hype do combo cabelo platinado + barba grande na cor natural. O contraste gourmetizou a coisa, principalmente porque o “loiro pivete” já não é tão loiro assim. Poderíamos dizer que está mais para um… “loiro senhor na maturidade”. Fato é que os símbolos em torno dessa expressão mudaram: agora é sobre o jogador de sucesso, de um time reconhecido, que ganhou tudo o que podia na temporada e que sempre aparece em contextos luxuosos e invejáveis.

“Cada vez mais vemos os homens buscando alternativas para seu estilo, porém, antes era algo mais segmentado, de homens mais ligados a uma estética e tal. Desta vez, Gabigol fez toda a diferença. O sucesso do Flamengo ao longo do ano impactou geral, pois todos podem fazer. E o que vemos agora em cada esquina são homens descoloridos. Do cabelo loiro fogo até o branco. É como se fosse a licença perfeita para quem ainda se apega à heteronormatividade”, avalia Júnior Moreira, jornalista que platina o cabelo periodicamente e chegou até a influenciar seu squad do trabalho.

Jornalista Júnior Moreira com os amigos que toparam descolorir o cabelo também.
(Foto: Reprodução/ https://www.instagram.com/p/B5gMnVIl3St/)

É bonito, mas não é fácil

Adepto do platinado mais acinzentado, Júnior conta que sempre achou interessante o ar de maturidade que a tonalidade carregava, além do contraste em pessoas de pele negra, numa vibe Tempestade, do X-Men. A primeira vez que descoloriu o cabelo foi em 2018. Quase dois carnavais depois, criou coragem para repetir o feito. Segundo ele, para chegar no tom que gosta é preciso aplicar até quatro vezes a amônia e o descolorante, num processo que dura cerca de sete horas, com direito a ida ao salão pela segunda vez para encerrar o processo.

A demora não é privilégio de quem vai em salão, não. Jefferson, que fez o procedimento em casa, conta que começou a descoloração no sábado e só finalizou na terça-feira seguinte. “Pra deixar no ponto que eu queria, comecei no sábado. Passou domingo, segunda-feira, terça-feira também passei e finalizei. Ficou meio platinado. Cada mão que você vai passando arde um pouquinho. Isso vai até acostumando, mas dizer que é simples de fazer, não é, não. Amônia é muito forte e fede, então o couro doeu um pouquinho. Tanto que minha cabeça está até despelando”, relatou.

O jornalista Júnior Moreira demora pelo menos sete horas pra chegar à tonalidade platinada que gosta.
(Foto: Reprodução/ https://www.instagram.com/p/B5aE9XLFzX-/)

A colorista Valéria Vigné explica que a duração do processo é bastante relativa. A cor do cabelo e a textura do fio interferem na resposta ao descolorante. É normal ter cabelo, por exemplo, que só alcance a cor depois de reaplicar o descolorante três, quatro vezes. O procedimento vale tanto para quem vai ao salão quanto quem faz em casa (veja abaixo o passo a passo para platinar).

O que varia, neste caso, é o quanto você vai desembolsar para investir no cabelo da moda. Júnior conta que pagou R$ 70,00 pela mão de obra da cabeleireira e R$ 40,00 numa máscara matizadora pós-banho, fora o shampoo e o condicionador desamareladores. Jefferson, por outro lado, investiu cerca de R$ 50,00 no pó descolorante, nas duas amônias, na caixa de tinta que arrematou a tonalidade que ele queria e numa máscara matizadora.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *