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Como é usar lace wigs: Jornalista Ashley Malia conta os bastidores de quem adere ao item

Lá nos idos de 2017, a cantora Ludmilla iniciava uma fase bem fashionista marcada com looks impactantes e, principalmente, pela mudança constante de cabelos. Seu stylist, Rodrigo Polack, me contou em entrevista que as full laces usadas por Lud se tornaram um verdadeiro acessório pra ela. Não dá pra dizer com certeza que foi ela quem trouxe para o Brasil essa moda, tão comum lá fora, mas a verdade é que de dois anos pra cá passamos a falar mais das laces wig. Pabllo Vittar compõe visuais incríveis com a peça, Bruna Marquezine já causou burburinho com o item, Anitta já usou em clipes e, recentemente, Marina Ruy Barbosa movimentou a internet quando apareceu com uma cabeleira platinada que não passou de uma peruca com tela que simula o couro cabeludo.

A gente para e vê tudo isso com a impressão de que apenas famosos podem aderir a essa mudança de visual. Mas aqui em Salvador tem uma pessoa que muda o tempo todo com auxílio das laces. A jornalista, ilustradora e blogueira Ashley Malia é um ícone de ousadia em solo baiano, e usa as laces como uma maneira de potencializar sua beleza natural e descobrir formas diferentes de se sentir maravilhosa. Em um bate-papo, ela me contou como foi o processo de aderir às laces e todos os bastidores que esse acessório exige.

Confira!


Como foi o processo de adoção das laces? Gostaria que você contasse como conheceu esse produto, por que se interessou por ele e o que você fez a partir de então para aderir.
Foi um processo que aconteceu na hora que tinha que acontecer, e foi bem louco até. Eu já conhecia as laces porque acompanhava blogueiras gringas, sabia também que Beyoncé e Rihanna usavam, mas pra mim era uma coisa muito distante. No final do ano passado, eu tava pensando em raspar meu cabelo pra curtir um novo visual, tava falando para as pessoas que eu conhecia que eu tava planejando raspar e que eu ia comprar várias laces, que eu queria uma lace pra cada dia da semana, pra mudar quando eu quisesse. Antes de eu raspar meu cabelo, inclusive, teve um momento no final do ano passado que eu viajei pra Entre Rios, na Bahia, a convite de uma escola – uma professora negra me chamou pra eu contar minha história, sobre meu blog – e aí eu e mais uma amiga tínhamos sido convidadas, ficamos hospedadas na casa dessa professora e, contando pra ela que queria raspar meu cabelo, ela falou: “Pô, que coragem”. Eu falei: “É, mas quando quiser ter o cabelo grande, vou usar lace, porque vou comprar”. Não sabia nada sobre lace naquela época. Aí ela falou que tinha duas laces em casa da época que ela estava em transição capilar e ela podia me dar, se eu desse pra ela em troca dois turbantes iguais aos que eu estava usando. Falei pra ela que ia comprar e ela me deu as laces. Foi assim que comecei, com essas duas laces que eu ainda tenho, e a partir disso eu fui lendo mais, buscando coisas mesmo, conhecendo lojas daqui do Brasil que vendiam, seguindo esses perfis, conhecendo mais pessoas que usavam laces. Fui me interessando mais.

(Foto: Reprodução/ Instagram)

Em 2017, fiz uma entrevista com Rodrigo Polack, stylist de Ludmilla, e ele comentou que havia muito preconceito aqui no Brasil com as laces, apesar de ser algo bastante utilizado pelas artistas de fora. Você percebeu isso quando começou a usar? Algo mudou de lá pra cá?
Não percebi nenhum preconceito diretamente com relação a lace, mas percebi uma mudança de tratamento. Na verdade, era uma percepção que eu já tinha antes, até por essa percepção que decidi fazer meu TCC sobre cabelo crespo e identidade racial, porque percebia que as pessoas me tratavam diferente na rua de acordo com cada cabelo que eu tava. Por exemplo, se eu estava com black penteado pra cima, percebia que o tratamento das pessoas era completamente diferente de quando eu estava usando tranças, que geralmente era mais aceito, porque era mais próximo do liso. Eu percebi um tratamento completamente diferente também de quando eu usei dreads sintéticos, que já era uma questão de as pessoas olharem com nojo, curiosidade, acharem que era sujeira… Vários estereótipos que a gente sabe que estão ligados ao uso dos dreads. Com as laces foi completamente diferente de todos esses cabelos, que era aquela coisa tipo diva, maravilhosa, glamurosa. As pessoas olham pra você desse jeito, elas te acham mais bonita, então, foi o tratamento que eu percebi. Não percebi preconceito nem nada do tipo. Mas também eu nunca me importei de as pessoas acharem ou não que é lace, que é peruca, porque eu não me importava e não me importo até hoje, mas o que eu percebi realmente foi isso. O que mudou de lá pra cá foi que eu percebi alguns perigos que tem ao usar laces, porque é uma coisa que mexe com a autoestima, mexe com essa aceitação de mulher negra com o cabelo natural. Você sabe que é melhor tratada com a lace, então, às vezes, se sua autoestima estiver fragilizada, você vai querer usar aquilo por muito tempo, vai ficar escrava da lace mesmo. E eu já tive esse momento. Hoje em dia estou usando lace não por não me sentir bem com minha autoestima ou algo do tipo, mas porque é uma fase que eu estou, aceitei essa fase. Quando meu cabelo crescer, não vou ter problema nenhum em usar meu cabelo natural, sabe? Tenho essa relação mais de fase, mas já tive momento de não me sentir bonita na frente do espelho, colocar lace e me sentir maravilhosa e só querer sair com aquilo.

(Foto: Reprodução/ Instagram)

Quantas laces você tem hoje? Qual o critério você utiliza para escolher?
Atualmente tenho cinco laces. Tinha mais uma, que era lisa chanel, só que eu vendi. Na verdade, não era lace, era uma peruca mesmo, que não tinha essa imitação do couro cabeludo, mas eu vendi porque não gostava muito dela. Agora estou com cinco. O critério que uso pra escolher, assim… As duas que eu tenho foram essas que ganhei de presente, tem uma que tenho que é loira, e eu queria uma coisa meio Beyoncé, um negócio “páh”, e eu comprei também pra ajudar uma amiga que tava vendendo e precisando de dinheiro, e eu tenho a Quitron, que é a que eu uso no dia a dia, aquela cacheadona volumosa enorme, que geralmente as pessoas reparam e elogiam, acham que é meu cabelo natural. É a que eu mais uso no dia a dia, e é mais próxima do cabelo crespo também. Agora tenho a branca lisa, que estou gastando bastante, porque estou me vendo de outra forma. É um cabelo completamente diferente, então chama muito a atenção, eu me destaco em qualquer lugar, as fotos ficam bonitas. Estou curtindo bastante essa lace agora – que é também uma full lace. Todas as laces que eu tenho são front, que só tem a tela na parte da frente, e essa branca é full lace, que tem toda imitação do couro cabeludo, repartição livre, parece muito mais natural, um cabelo de verdade. O critério que eu uso é: todas as laces que eu tenho são muito diferentes umas das outras, então meu único critério é não comprar uma lace que seja igual a uma que eu já tenho, porque o que eu gosto é de mudar, de parecer diferente, de ser uma mulher diferente a cada lace que eu uso. Tenho como expressar várias formas da minha personalidade. Tenho lace loira ondulada que é bem Beyoncé, que é bem maravilhosa; tenho uma lace ruiva que, sei lá, acho bem misteriosa; tenho uma lace cacheada, que acho que mais se parece com minha personalidade, ela é bem cheia, bem volumosa, é o que mais se parece com o cabelo crespo e é a que eu me sinto mais eu; e essa branca, mais mística, mais diferente, uma coisa mais gringa.

(Foto: Reprodução/ Instagram)

Sei que você não gosta de dizer pra todo mundo onde você encontra seus produtos, e nem é isso que vou pedir. Mas, assim, que cuidados você toma ao comprar as laces? Como saber que o produto é bom, que o fornecedor é de confiança?
Como duas eu ganhei, não tive critérios. Uma eu comprei da minha amiga e ela tinha comprado na Ali Express, mas eu já tinha visto algumas fotos e eu sabia que era bonita, que ficava legal. Tem a Quitron, que eu comprei por indicação também, e eu vi o aspecto supernatural. Meu critério é mais olhar a foto e ver se eu gosto, se vou curtir. Essa branca foi a que eu mais pesquisei antes de comprar, porque eu tinha medo de não ficar legal, de não combinar com minha pele. Fui vendo várias referências de mulheres negras com cabelo branco bem claro, aquele loiro mais platinado, pra conseguir ficar segura e saber que ia ficar legal com minha pele. Já tinha uma loja de confiança, a que comprei a Quitron foi indicação da minha amiga e era uma loja que eu já seguia também, porque é uma das maiores lojas de laces aqui no Brasil, e essa branca eu comprei porque vi no perfil de Pabllo Vittar que ele marcou a lace que estava usando. Dei uma olhada e vi que os preços eram acessíveis, tinham aspecto mais natural e tinham diversidade maior de cores, formatos, texturas. É um critério. Como saber se o fornecedor é de confiança é, justamente, comprando por indicação das que já compraram, olhando os clientes da loja, que geralmente marcam no Instagram, e aí eu vou e decido se compro ou não.

Quanto ao cuidado com as laces, como funciona isso? Lava normal na cabeça, com shampoo e condicionador, tipo cabelo mesmo? Você poderia nos explicar que procedimento você utiliza?
Os cuidados são bem simples. Dependendo da lace, se for lisa ou ondulada, eu desembaraço. Se for cacheada, eu não desembaraço de jeito nenhum, porque é um cabelo sintético, então não dá pra desembaraçar, porque senão vai perder o formato. Foi uma coisa que fui descobrindo no erro mesmo, porque as duas primeiras laces que ganhei, quando elas começaram a embolar – e toda lace embola mesmo, principalmente na parte que está em contato com o pescoço -, eu não sabia que era normal embolar na parte de trás e comecei a achar que estava estragando. Olhei uns vídeos na internet que falavam que dava pra alisar a lace e cachear de volta; acabei alisando, só que não consegui cachear de volta, não gostei, ficou muito artificial, e aí acabei meio que “perdendo” a lace, só que dá pra eu usar como lisa mesmo. Pra lavar a lace é só colocar ela dentro de um balde de água morna, quase fria, e um pouco de amaciante e condicionador, depois tiro e deixo secar normal no varal, natural mesmo, e pronto. Só na hora de desembaraçar, tenho até um vídeo que explica um pouquinho, que é de baixo pra cima, pra não embolar toda. Mas é basicamente isso, não faço muita coisa, não.

*DICA*
Ashley explica que não se deve usar shampoo para lavar as laces porque ele abre as cutículas. O amaciante é um ótimo produto para as perucas porque, como são feitas de fibra, causa o mesmo efeito que na roupa e a lace fica mais macia. Então na hora de higienizar as perucas, Ash coloca os dois produtos, às vezes misturados, às vezes o condicionador primeiro e depois o amaciante, e mergulha o item num balde ou bacia. Deixa de molho por três minutos, enxágua, espreme um pouco com cuidado e depois coloca pra secar – normal, no varal mesmo.

Você tem noção do quanto já investiu em laces?
Deixa eu pensar… Só comprei quatro laces. Uma eu vendi, mas investi R$ 80 nela, que não era uma lace, era uma peruca mais simples mesmo. … R$ 80, R$ 350 na Quitron, R$ 100 na que comprei na mão de minha amiga, R$ 450 nessa branca. Aí fazendo as contas… Quase R$ 1 mil reais, mais ou menos.

(Foto: Reprodução/ Instagram)

Cada lace transforma você em uma mulher diferente, pelo menos na aparência. Muda algo no seu íntimo também?
No íntimo, assim, muda quando eu saio me sentindo muito bem comigo mesma e mais maravilhosa. Eu saio mais de bem com a vida, com o mundo, com o universo. E eu consigo perceber várias… Como eu seria bonita de qualquer forma, sabe? Com qualquer cabelo. Antes quando eu alisava o cabelo, autoestima nem era uma questão pra mim, eu não refletia sobre isso, mas quando eu comecei a usar meu cabelo natural, quando olhava minhas fotos de cabelo alisado enquanto eu já tinha o cabelo natural, eu me achava muito feia, muito muito feia. Hoje eu ainda acho um pouco, mas eu, por exemplo, consigo usar lace lisa sem me sentir feia como eu me achava antes, porque eu entendo que agora é por vontade minha, não por vontades terceiras. Se eu sair com lace lisa ou se de repente em algum momento da minha vida eu sentir vontade de alisar meu cabelo de novo, usar química, vai ser por escolha. Então é isso que muda no meu íntimo: me sentir bonita porque é uma escolha que eu estou fazendo, é o jeito que eu quero estar, é a forma que escolhi pra estar. Isso me faz aproveitar o máximo dessa estética, saber valorizar, por exemplo, meu rosto e meu corpo enquanto eu estou com tal cabelo. É basicamente isso.

(Foto: Reprodução/ Instagram)

Curiosa, jornalista e libriana. Mestranda no PósCom/Ufba, interessada nos valores - os meus, os seus, os de notícia e os humanos. Se piscar o olho, o cochilo vem, mas os olhos sempre estão abertos para uma série ou outra que desperte o interesse.

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