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Entre tentativas, erros e acertos, estamos prontas para perdoar?

Preciso falar. Bem da verdade, tenho sentido essa vontade já há algum tempo e adiando o máximo que posso porque não sei ao certo se ainda sei falar. É tanta coisa acontecendo, ao passo que parte da vida parece estar em suspenso, que causa confusão.

Mas, independentemente da realidade, há ideias que precisam ser colocadas para fora. Arrancadas, que seja. Exorcizadas, eu diria mais.

Há muito que me inquieta, sobretudo isso, em particular, porque tenho me questionado quanto a mim e quanto aos outros: estamos prontas para perdoar?

Acho que não. E juro que não é puro pessimismo.

É preciso refletir sobre o erro e o perdão

Comecei a ler “Os quatro compromissos”, clássico de Don Miguel Ruiz, depois de muito adiar a leitura. Entre uma página e outra, alguns choques de realidade que chamam a atenção para aquilo com o que realmente deveríamos nos importar. A palavra é um exemplo. 

Miguel provoca: considerando a quantidade de vezes que sofremos por um erro que cometemos, há justiça nisso? Se não pelo outro, nós mesmos nos lembramos do que fizemos e consideramos errado, e nos julgamos e nos condenamos mais uma vez — quantas vezes lembremos, seja uma, duas, três, cinco, dez ou trinta vezes.

O ideal seria errarmos, refletirmos e o corretivo ser aplicado uma única vez. Mas aí alguém decide resgatar nossa falha, pelo pretexto que for, e nos leva de volta a todo aquele mar de sensações que já havíamos sentido e supostamente superado. 

Melancolia, arrependimento, culpa, julgamento e autodepreciação são apenas algumas das consequências dessa lembrança infeliz. Como se o erro mais do que fizesse parte da nossa história: ele define quem a gente é. Como se por mais que a gente tente se reerguer ou tenha aprendido a lição, sempre seremos a pessoa que agiu daquela forma. E nada diferente disso é levado a sério ou é suficiente para limpar nossa barra naquele tribunal. 

“Os quatro compromissos”, de Don Miguel Ruiz, p. 26

Faz o que com isso, então?

Doloroso. A gente não está pronta para perdoar. Observe. E não é esquecer. É perdoar, não empurrar o outro para o buraco que ele mesmo se enfiou e se esforçou para sair até conseguir.

No entanto, não é porque não estamos prontas para perdoar que jamais o poderemos. Há muita coisa envolvida, mas aceito a sugestão que Don Miguel mesmo dispõe: seja impecável com sua palavra.

Não atente contra si mesmo com o que você diz, porque cada palavra proferida fala mais sobre quem as pronuncia do que sobre quem a recebe. Resgatar o erro do outro frequentemente diz mais sobre nossos medos — e, como ele diz, os compromissos que absorvemos ao longo de nossa trajetória.

O que tanto tememos para lembrar ao outro, frequentemente, dos erros que ele cometeu? Que medos são tão potentes que nos aprisionam em nossas próprias falhas?

+ Veja também: Distorção da autoimagem na era dos filtros: Nós já fomos as adolescentes de hoje

Distorção da autoimagem na era dos filtros: Nós já fomos as adolescentes de hoje

Tenho uma irmã quase na faixa dos 15 anos e toda vez que paro pra observar o que ela faz me lembro de quem eu era na mesma idade. Quase quinze anos depois, as lembranças são bem nítidas. A insegurança, o desconcerto com a família, estar mais à vontade com alguns bons amigos do que com as pessoas em geral.

A adolescência é mesmo uma fase um tanto estranha. A gente nem sabe direito quem é, mas precisa performar algum tipo de personalidade. A gente precisa impressionar, mas não é capaz de avaliar se vale a pena ou o quanto as pessoas de quem buscamos aprovação valem a pena.

Até que percebamos o quanto fomos injustas com nós mesmas — se é que algum dia essa consciência chega —, um mundo de estragos é possível. É só olhar pra trás e observar. Cada geração tem seu algoz: revistas, novelas, programas de televisão, propagandas… 

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O ciclo continua

Hoje ainda é assim. Muito. Vejo minha irmã com todos os seus processos, perfeitamente naturais à sua idade, e me pego pensando na experiência de toda essa geração marcada pelo rosto perfeito.

É. Ainda estamos falando de perfeição. Mas pra essa geração atual ela parece um pouco estranha — pelo menos me parece um tanto estranha.

Observe quantas harmonizações faciais não deram certo. Quantas pessoas se descaracterizaram, apesar de já serem consideradas perfeitas para o que nossa sociedade entendeu como ideal de beleza.

Essa é também a geração dos filtros, de ver a diferença em tempo real, embora virtual, sem se submeter a qualquer bisturi. E talvez a gente não perceba, mas o impacto disso é muito, muito forte.

Cada vez mais cedo 

Uma pesquisa divulgada pela Dove em abril de 202, realizada entre novembro e dezembro de 2020, indica que 84% das meninas ouvidas usaram filtros ou aplicativos para mudar sua imagem aos 13 anos e 54% das entrevistadas sempre — sempre — mudam alguma coisa em seu corpo antes de postar uma foto. Além disso, 50% das meninas que distorcem suas fotos regularmente têm baixa autoestima corporal.

Fernanda Gama, gerente de Dove no Brasil, explicou em uma entrevista aqui ao blog que a experiência das jovens com as redes sociais está diretamente relacionada à autoestima — ou falta dela.

Apesar do aumento da conscientização e das conversas sobre as pressões da beleza e da aparência, a internet ainda possui grande impacto na construção da autoestima. A pesquisa aponta que 35% das meninas dizem se sentirem ‘menos bonitas’ ao verem fotos de influenciadores/celebridades nas redes sociais. E isso pode ter um sério impacto na confiança de forma geral de uma menina, na satisfação com a vida e na vontade de se envolver em atividades de construção de vida na escola, em sua casa ou na comunidade.

Fernanda Gama, gerente de Dove no Brasil, em entrevista ao blog.

É possível fazer diferente

Trouxe minha irmã como exemplo e projetei parte de minha experiência na adolescência, mas quero mesmo é lançar olhar sobre essa nova geração. Especialistas em sociedade cravam os Gen Z como altruístas, focados no autoconhecimento, reorganizam as prioridades já postas. 

Mas eles não estão sozinhos nessa jornada do amadurecimento e ainda são atingidos por estímulos de gerações que valorizam coisas diferentes. A imagem é uma delas. Reverter essa dinâmica tão cruel é responsabilidade nossa também — que passamos pelo mesmo e hoje chegamos a espaços com poder suficiente para ajustar essa lógica.

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Fernanda Gama, da Dove, apresentou alguns caminhos para mudarmos nosso comportamento enquanto sociedade:

É fundamental investir em iniciativas amplas, que questionam estereótipos, redefinam a beleza e celebrem as principais características que tornam as mulheres únicas, com o objetivo de quebrar os padrões de beleza impostos pela sociedade. A beleza deve ser uma fonte de confiança, não de ansiedade.

Fernanda Gama, da Dove, em entrevista ao blog.

E concordo. Muito. Do ponto de vista da comunicação, ainda acrescento: 

  • Incluir diferentes mulheres, com cabelos, tons de pele, corpos, estilos, personalidades e representações diversos em campanhas publicitárias;
  • Evitar termos que sugiram uma forma como mais bonita do que outras, principalmente aquelas associadas à magreza;
  • Retratar as mulheres como são na vida real, sem passar por tratamentos de imagem que escondem marcas da idade, sinais, estrias, celulites para reforçar um ideal do que é bonito.

A gente sabe o estrago que é ter de caber em um padrão pra se sentir notada, bonita, respeitável ou desejável. Por que não evitar que as próximas passem por essa mesma experiência?

Atualizado em 24 de maio de 2021.

Imagem é tudo, e precisamos aceitar isso

Não sei se há lado bom da ansiedade, mas considero produtivo usar a busca pelo controle de tudo para o que diz respeito a mim mesma. Como a vida profissional é um mar imprevisível, ora a gente está na crista da onda, ora a gente é engolida por ela, decidi me preparar em diferentes frentes.

Uma delas é a docência. Tenho como uma  perspectiva possível dar aulas de jornalismo no ensino superior. Com tantos profissionais excelentes no mercado, o doutorado é o que considero o mínimo para me tornar competitiva também.

Dei início a esse projeto frequentando aulas como ouvinte no Póscom/UFBA, onde conquistei meu título de mestrado em 2020. Na semana passada, discutíamos a credibilidade no jornalismo e uma passagem do texto muito me chamou a atenção: a gente avalia a confiança em alguém pelos detalhes. 

A roupa, a postura, a atitude, a escolha de palavras, os conteúdos que publica. Esses parâmetros todos são nossos. Construídos socialmente, sim, mas nossos. 

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E, de certa forma, o outro precisa corresponder a essas expectativas para conquistar a nossa confiança e credibilidade. Imagem é tudo. 

Não é à toa que a maioria dos que tentam a impressão de profissionalismo e competência cruza os braços na foto. A associação é essa – e você, que tenta fugir do óbvio, que lute pra encontrar outro símbolo de credibilidade em comum com aqueles que pretende conquistar.

Imagem é tudo. Não sou capaz de opinar se é certo ou errado, mas os estereótipos existem justamente pra economizar nossa energia e encurtar o tempo, já tão escasso, pra avaliação do que é bom ou ruim, de como deve ser ou não.

A nós resta nos adaptarmos ao que já está posto. Tem que haver um ponto em comum com quem queremos atingir, de fato. Mas, isso eu defendo a todo custo, precisamos colocar nossa marca. 

Senão fica um tanto artificial, e isso também conta muito. Ou não? 

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