O que há de diversidade no jornalismo feminino através das capas de revistas de 2020

Nesse exercício analítico, verifico as escolhas de personagens das capas de Elle, Glamour Brasil, Harper’s Bazaar, Marie Claire e Vogue Brasil em 2020.

Esse artigo não pretende academicismo ou falar difícil para tratar de algo que tanto reflete nosso momento social. O que há de diversidade no jornalismo feminino é um exercício de autocrítica tão cobrada da imprensa, que põe no papel – ou no digital – aquilo que ainda circula em nossa sociedade.

Especificamente no universo feminino, cujas publicações editoriais acompanham as mudanças de realidade da mulher, como diz Naomi Wolf em “O Mito da Beleza” (1990). E há muito a desconstruir nessa segmentação.

Em 2020, particularmente, os estímulos para contrariar a ordem vigente foram vários. Esses estímulos vieram de fora e reverberaram dentro – de pessoas, de instituições, de grupos.

A pandemia de coronavírus incentivou reflexões naqueles que alcançaram lugar suficiente na pirâmide que lhe permita pensar em algo além de sua subsistência. Por um lado, o vestir ganhou outros contornos, priorizando o confortável. beleza passou a ser reconhecida em outros aspectos e diminuiu a pressão pela pele perfeita, pelas sobrancelhas perfeitas e até o corpo perfeito. Descobrimos um ritmo de vida mais slow e artesanal, mas também experimentamos a dor e a delícia de mergulhar profundamente em nossa individualidade e na intimidade com aqueles com quem dividimos o teto.

Capas estáticas da Elle Brasil com personagens
(Imagens: Reprodução)
Capas da Glamour Brasil em 2020
(Imagens: Reprodução)

Mais de fora ainda, um movimento étnico e social ecoou dos Estados Unidos para o mundo reivindicando o direito à vida de pessoas negras. O Black Lives Matter ganhou espaço nas redes sociais de quem se entende agregador e ávido por justiça social. Por outro lado, em meio às diversas vozes, algumas delas lembravam: a mudança precisa vir de dentro – de pessoas, de instituições e de grupos.

E as capas de revista, em particular, são o espaço para o que acontece socialmente. O jornalismo por si só cumpre com esse papel. Mas as capas de revista, em particular, refletem a sociedade do seu tempo – mudanças políticas, econômicas e sociais, além de novos comportamentos e fazeres – e criam vínculo com o leitor e a leitora. Segmentadas como são, o diálogo é direto com aquelas pessoas que confiam na informação trazida por aquele título editorial.

Capas da Harper’s Bazaar em 2020
(Imagens: Reprodução)
Capas da Marie Claire em 2020
(Imagens: Reprodução)
Capas da Vogue Brasil em 2020
(Imagens: Reprodução)

Diante desse contexto, repeti o exercício feito em 2018 para verificar, dois anos depois, como a diversidade se manifesta nas capas de revistas femininas de 2020. Assim como naquele ano, avaliei os mesmos objetos: Elle, Glamour Brasil, Harper’s Bazaar, Marie Claire e Vogue Brasil.

Comecei com uma única hipótese: o número de pessoas negras na capa aumentaria no segundo semestre, logo após o Black Lives Matter. Um spoiler: aumentou.

Por que as capas

O jornalismo é reflexo da sociedade na qual está inserido. Consequentemente, é um produto daquela cultura e espaço de representação dos símbolos que correspondem ao sistema de vida daquela sociedade.

Ou seja, se houver mudanças, o jornalismo vai refleti-las. Se houver o fortalecimento de determinado valor ou outro, isso também estará no jornalismo. No jornalismo especializado, em particular, que alcança públicos segmentados e qualificados para aquele tipo de informação produzida, esses aspectos são fortalecidos de maneira mais direta.

A jornalista Fátima Ali escreveu em “A Arte de Editar Revistas: Um guia para jornalistas, diretores de redação, diretores de arte, editores e estudantes” (2008) que:

(…) as revistas, que historicamente se desenvolveram para informar, divertir e distrair, formaram o jeito de pensar, os costumes, os estilos e a cultura do mundo moderno.

Fátima Ali, 2008, p. 306

A capa é o reflexo de todo o espírito dessa revista que dialoga com um público bem específico – embora nem sempre restrito. Esse posicionamento se dá em todas as escolhas: de personagem, de cor, de chamadas, de palavras, de roupas usadas pela personagem. Reconhece-se o espírito de uma revista por sua capa e esse conhecimento não é à toa.

Sendo a primeira parte da revista que a leitora verá quando em contato com o produto, a escolha do que estará na capa e da forma que estará diz bastante sobre o que pensa e pretende aquele título. Não é à toa que a capa da Vogue em maio repercutiu tanto. Com Gisele Bündchen na capa vestindo peças de grife, a chamada “novo normal” em meio à crise sanitária, social e econômica na qual mergulhamos pegou mal.

Na edição bimestral de julho/agosto, a Marie Claire destacou jornalistas brasileiras em atuação no front da notícia durante a pandemia
(Imagens: Reprodução)

Para esse exercício de análise, a capa é suficiente para nos indicar os caminhos que têm adotado as revistas femininas de moda brasileiras.

Que diversidade é essa

Observei 47 capas publicadas por Elle, Glamour, Harper’s Bazaar, Marie Claire e Vogue entre janeiro e dezembro de 2020. Encarei um mercado com algumas mudanças que não existiam em 2018: edições bimestrais, capas digitais dinâmicas, volumes impressos num formato diferente do tradicional, mais de uma personagem na capa por mês.

Optei por focar a atenção nas capas digitais e impressas, e considerar cada personagem por capa e os aspectos sociais que representam. Isso quer dizer, por exemplo, que na Marie Claire de fevereiro com Ludmilla e Brunna Gonçalves trocando carinhos, considerei duas mulheres negras e lésbicas.

No geral, foram 05 capas de Elle, 10 capas de Glamour, 11 capas de Bazaar, 10 capas de Marie Claire e 11 capas de Vogue. Nesse total, observei 10 capas com pessoas negras no 1º semestre e 15 capas com pessoas negras nesse 2º semestre.

Houve maior número de capas com pessoas negras nas revistas femininas de moda no Brasil no período após estourar o movimento Black Lives Matter. Não dá pra dizer que o resultado é reflexo desse movimento, no entanto, considerando a mobilização dos atores sociais ao longo dos anos, mas, principalmente, ao longo de 2020, é de se celebrar esse resultado.

Principalmente porque, em 2018 quando fiz análise semelhante com os mesmos títulos editoriais, de 54 edições observadas, apenas 11 traziam mulheres negras nas capas. Esse levantamento que fiz em relação às capas de 2020 já mostra que são 25 mulheres negras nas capas.

Mas é importante ponderar que são 47 capas estáticas. Se analisarmos outros formatos, como os volumes impressos da Elle e as capas dinâmicas da publicação, esse número aumenta – tanto de capas quanto de pessoas nessas capas.

Há de se observar também a presença de outros enfrentamentos nessas capas. Em menor número, de fato, mas ainda assim presentes, como:

  • a Marie Claire repetindo na edição de fevereiro a capa com duas mulheres lésbicas trocando carinhos, dessa vez mulheres negras, como Ludmilla e Brunna Gonçalves (em agosto de 2018, foi Nanda Costa e Lan Lanh);
  • uma modelo trans na capa de dezembro da Bazaar, neste caso, Valentina. Também na Marie Claire, a empresária Valéria Rossatti, que decidiu assumir os fios grisalhos e contraria toda indústria da beleza tradicional que rejeita a velhice feminina.

Após o mal estar com a edição de aniversário, a Vogue trouxe meses depois uma mulher indígena na capa de setembro, além de outras três pessoas que representando a Amazônia. Uma escolha alinhada ao momento social que passamos, visto que em 2020 atingimos níveis recordes de desmatamento na floresta e em outros biomas brasileiros.

A mesma revista ainda alçou ao seu espaço mais privilegiado artistas drag queens, por muitos anos motivos de chacota socialmente. Pabllo Vittar e Gloria Groove na capa impressa, Bianca Della Fancy e Halessiar na capa digital. Mulheres curvilíneas também ocuparam espaços na Marie Claire, na Glamour e na Vogue, como Lizzo, Tássia Reis, Preta Gil, Rita Carreira e Duda Beat.

O que concluir disso

Houve mudanças, progressos. Não a passos muito largos, mas muitos significativos.

Nem todas as revistas se manifestam da mesma forma, nem compartilham os mesmos valores ou olhares. Há de se considerar a linha editorial de cada uma delas, porque essas diretrizes orientam as escolhas da publicação e estabelecem os parâmetros de atuação institucional.

Consequentemente, não dá pra dizer que todos os títulos devem se posicionar da mesma forma. Talvez seja querer um pouco demais.

Mas é fato incontestável que estamos mudando enquanto sociedade e na medida que mudarmos, as publicações tenderão a refletir nossos processos também. Algumas antes do que outras, e tudo bem.

Independentemente, já temos hoje publicações que dialogam com muitos valores que ascenderam e se fortaleceram, como igualdade de gênero, abaixo à pressão estética e obrigatoriedades estéticas atribuídas às mulheres. Sendo assim, se for de sua vontade, foque nelas.

Por fim, independentemente do quanto conquistamos até aqui, também é incontestável: ainda podemos avançar mais. Vamos.

Ranking elege Riachuelo a marca de moda mais admirada do país

A empresa, parte do grupo fundado por Nevaldo Rocha, foi bem avaliada nas mensagens sobre a empresa postadas nas redes sociais pelos consumidores.

A Riachuelo é a marca de moda mais admirada do país, de acordo com ranking elaborado pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo (Ibevar) e pela Fundação Instituto de Administração (FIA). O levantamento elege as empresas mais representativas no varejo brasileiro em 17 segmentos.

A empresa, parte do grupo fundado por Nevaldo Rocha, foi bem avaliada em mensagens postadas pelos consumidores nas redes sociais. O levantamento utilizou tecnologia de mineração de dados para coletar os conteúdos.

Para avaliar a opinião dos consumidores e definir padrões, foram aplicados critérios de análise semântica e linguística, por meio de Programação de Linguagem Natural. As informações são da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit).

+ Veja também: Sobre À La Garçonne, Riachuelo e coronavírus

“Esse ano, todos passamos por um período delicado e desafiador por conta da pandemia, em que o mundo todo enfrentou e, ainda enfrenta, uma crise global. Mas seguimos resilientes, firmes com nossos valores e carregando o propósito de transformar vidas – essa é a essência da Riachuelo”, disse o diretor Executivo de Marketing, Elio Silva.

Shopping inaugura loja da C&A com iniciativa para descarte de roupas usadas

Consumidoras poderão aproveitar também Área de Beleza, com maquiagens e perfumes; e ambientes mais modernos, clean e intuitivos.

O Shopping Center Lapa inaugura na terça-feira (6) a nova loja da C&A. Com 2 mil m² no Piso L2, a unidade disponibilizará a urna do Movimento ReCiclo, que recebe roupas usadas e as encaminha para instituições que fazem reuso ou reciclagem.

As consumidoras poderão aproveitar também a Área de Beleza, com maquiagens e perfumes; e ambientes mais modernos, clean e intuitivos. A ideia é oferecer experiência de compra mais fluida, ágil e agradável.

O horário de funcionamento da C&A seguirá o cronograma do shopping, das 11h às 21h de segunda a sexta-feira, e das 11h às 20h aos sábados. Aos domingos, o funcionamento é reduzido, das 12h às 18h.

+ Veja também: C&A anuncia coleção cápsula de jeans com produção sustentável

A nova loja C&A oferecerá ainda a oportunidade de clientes destinarem celulares, pilhas e baterias para a reciclagem, por meio da urna do Programa de Lixo Eletrônico.