Distorção da autoimagem na era dos filtros: Nós já fomos as adolescentes de hoje

Tenho uma irmã na faixa dos 15 anos e toda vez que paro pra observar o que ela faz me lembro de quem eu era na mesma idade. Parece que o ciclo se repete.

Tenho uma irmã quase na faixa dos 15 anos e toda vez que paro pra observar o que ela faz me lembro de quem eu era na mesma idade. Quase quinze anos depois, as lembranças são bem nítidas. A insegurança, o desconcerto com a família, estar mais à vontade com alguns bons amigos do que com as pessoas em geral.

A adolescência é mesmo uma fase um tanto estranha. A gente nem sabe direito quem é, mas precisa performar algum tipo de personalidade. A gente precisa impressionar, mas não é capaz de avaliar se vale a pena ou o quanto as pessoas de quem buscamos aprovação valem a pena.

Até que percebamos o quanto fomos injustas com nós mesmas — se é que algum dia essa consciência chega —, um mundo de estragos é possível. É só olhar pra trás e observar. Cada geração tem seu algoz: revistas, novelas, programas de televisão, propagandas… 

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O ciclo continua

Hoje ainda é assim. Muito. Vejo minha irmã com todos os seus processos, perfeitamente naturais à sua idade, e me pego pensando na experiência de toda essa geração marcada pelo rosto perfeito.

É. Ainda estamos falando de perfeição. Mas pra essa geração atual ela parece um pouco estranha — pelo menos me parece um tanto estranha.

Observe quantas harmonizações faciais não deram certo. Quantas pessoas se descaracterizaram, apesar de já serem consideradas perfeitas para o que nossa sociedade entendeu como ideal de beleza.

Essa é também a geração dos filtros, de ver a diferença em tempo real, embora virtual, sem se submeter a qualquer bisturi. E talvez a gente não perceba, mas o impacto disso é muito, muito forte.

Cada vez mais cedo 

Uma pesquisa divulgada pela Dove em abril de 202, realizada entre novembro e dezembro de 2020, indica que 84% das meninas ouvidas usaram filtros ou aplicativos para mudar sua imagem aos 13 anos e 54% das entrevistadas sempre — sempre — mudam alguma coisa em seu corpo antes de postar uma foto. Além disso, 50% das meninas que distorcem suas fotos regularmente têm baixa autoestima corporal.

Fernanda Gama, gerente de Dove no Brasil, explicou em uma entrevista aqui ao blog que a experiência das jovens com as redes sociais está diretamente relacionada à autoestima — ou falta dela.

Apesar do aumento da conscientização e das conversas sobre as pressões da beleza e da aparência, a internet ainda possui grande impacto na construção da autoestima. A pesquisa aponta que 35% das meninas dizem se sentirem ‘menos bonitas’ ao verem fotos de influenciadores/celebridades nas redes sociais. E isso pode ter um sério impacto na confiança de forma geral de uma menina, na satisfação com a vida e na vontade de se envolver em atividades de construção de vida na escola, em sua casa ou na comunidade.

Fernanda Gama, gerente de Dove no Brasil, em entrevista ao blog.

É possível fazer diferente

Trouxe minha irmã como exemplo e projetei parte de minha experiência na adolescência, mas quero mesmo é lançar olhar sobre essa nova geração. Especialistas em sociedade cravam os Gen Z como altruístas, focados no autoconhecimento, reorganizam as prioridades já postas. 

Mas eles não estão sozinhos nessa jornada do amadurecimento e ainda são atingidos por estímulos de gerações que valorizam coisas diferentes. A imagem é uma delas. Reverter essa dinâmica tão cruel é responsabilidade nossa também — que passamos pelo mesmo e hoje chegamos a espaços com poder suficiente para ajustar essa lógica.

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Fernanda Gama, da Dove, apresentou alguns caminhos para mudarmos nosso comportamento enquanto sociedade:

É fundamental investir em iniciativas amplas, que questionam estereótipos, redefinam a beleza e celebrem as principais características que tornam as mulheres únicas, com o objetivo de quebrar os padrões de beleza impostos pela sociedade. A beleza deve ser uma fonte de confiança, não de ansiedade.

Fernanda Gama, da Dove, em entrevista ao blog.

E concordo. Muito. Do ponto de vista da comunicação, ainda acrescento: 

  • Incluir diferentes mulheres, com cabelos, tons de pele, corpos, estilos, personalidades e representações diversos em campanhas publicitárias;
  • Evitar termos que sugiram uma forma como mais bonita do que outras, principalmente aquelas associadas à magreza;
  • Retratar as mulheres como são na vida real, sem passar por tratamentos de imagem que escondem marcas da idade, sinais, estrias, celulites para reforçar um ideal do que é bonito.

A gente sabe o estrago que é ter de caber em um padrão pra se sentir notada, bonita, respeitável ou desejável. Por que não evitar que as próximas passem por essa mesma experiência?

Atualizado em 24 de maio de 2021.

Imagem é tudo, e precisamos aceitar isso

A gente avalia a confiança em alguém pelos detalhes: roupa, postura, atitude, escolha de palavras, conteúdos que publica.

Não sei se há lado bom da ansiedade, mas considero produtivo usar a busca pelo controle de tudo para o que diz respeito a mim mesma. Como a vida profissional é um mar imprevisível, ora a gente está na crista da onda, ora a gente é engolida por ela, decidi me preparar em diferentes frentes.

Uma delas é a docência. Tenho como uma  perspectiva possível dar aulas de jornalismo no ensino superior. Com tantos profissionais excelentes no mercado, o doutorado é o que considero o mínimo para me tornar competitiva também.

Dei início a esse projeto frequentando aulas como ouvinte no Póscom/UFBA, onde conquistei meu título de mestrado em 2020. Na semana passada, discutíamos a credibilidade no jornalismo e uma passagem do texto muito me chamou a atenção: a gente avalia a confiança em alguém pelos detalhes. 

A roupa, a postura, a atitude, a escolha de palavras, os conteúdos que publica. Esses parâmetros todos são nossos. Construídos socialmente, sim, mas nossos. 

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E, de certa forma, o outro precisa corresponder a essas expectativas para conquistar a nossa confiança e credibilidade. Imagem é tudo. 

Não é à toa que a maioria dos que tentam a impressão de profissionalismo e competência cruza os braços na foto. A associação é essa – e você, que tenta fugir do óbvio, que lute pra encontrar outro símbolo de credibilidade em comum com aqueles que pretende conquistar.

Imagem é tudo. Não sou capaz de opinar se é certo ou errado, mas os estereótipos existem justamente pra economizar nossa energia e encurtar o tempo, já tão escasso, pra avaliação do que é bom ou ruim, de como deve ser ou não.

A nós resta nos adaptarmos ao que já está posto. Tem que haver um ponto em comum com quem queremos atingir, de fato. Mas, isso eu defendo a todo custo, precisamos colocar nossa marca. 

Senão fica um tanto artificial, e isso também conta muito. Ou não? 

Você também pode ler esse texto no LinkedIn.

De Salvador a Recife: O que aprendi um mês após mudar de cidade

Desde o início do processo deu pra absorver muita, muita coisa. A experiência de mudar de cidade dá trabalho, mas é incrível. Veja como foi!

Mudanças exigem algumas habilidades, e também nos proporcionam aprendizados no processo. Quando se trata da mudança física, de casa mesmo, as lições parecem inofensivas a um primeiro momento, mas são tão potentes que ultrapassam contextos.

Foi o que percebi pouco mais de um mês depois de mudar de Salvador (BA) para Recife (PE). Saí da capital baiana dentro de cerca de uma semana, depois que meu namorado recebeu uma proposta de trabalho.

Já morávamos juntos havia quase um ano — isso mesmo, saí da casa do meu pai no início da pandemia, mas isso é papo pra outra conversa — e decidimos que continuaríamos assim. Afinal, tínhamos o plano de mudar de cidade ainda esse ano, então foi só questão de oportunidade.

Entre o convite e o check-in na capital pernambucana foi coisa de uma semana e meia. Vinte e dois anos de vida foram encaixotados em uma semana, trazidos em 12 horas de estrada.

Desde o início deu pra absorver muita, muita coisa. A experiência de mudar de cidade dá trabalho, mas é incrível. Compartilho com vocês alguns desses aprendizados. Acompanhe!

A vida doméstica é cheia de burocracias. Aceite.

Depois de me mudar mais de dez vezes dentro de Salvador, eu já sabia que havia todo um ritual pra mudança acontecer. Procurar a casa nova, visitar a unidade, acertar a documentação… Tudo bem. 

Mas há coisas que jamais imaginei que seria possível. Imagina ter de saber informações sobre a quantidade de energia que cada utensílio consome! 

Você sabe quanto de energia as lâmpadas da sua casa exigem? E seu secador? E sua tv? E seu notebook? Ainda pediram informações sobre os equipamentos do poste, da rede de eletricidade da casa…

Essas informações foram necessárias para a companhia de energia elétrica religar a luz da casa nova, que, por sinal, eu nem sequer havia pisado os pés até então. 

Mudar de cidade é caro

Bom, o que não seria caro no brasil de 2021, né? Mas mudar de cidade tem um preço alto mesmo.

Primeiro, devido aos trâmites do aluguel da casa nova, como o caução. Algumas imobiliárias têm usado o formato de seguro, uma tarifa que você paga mensalmente, que pode ser uma alternativa na falta de grana a mais ou de um fiador.

Mas tem também o fator deslocamento, seja de avião, de carro ou ônibus. E se for levar móveis para a cidade nova, ainda tem o valor da empresa de transporte. 

No meu caso, fizemos o trajeto de carro de Salvador pra Recife. Doze horas de viagem. Na estrada. Com o combustível no preço que esteve em 2021! 

Pos é.

Considere também que nem todas as refeições serão feitas em casa de imediato. Você ainda estará se ajustando, é natural que tome café na padaria, peça um delivery no almoço. Sem contar que você também não sabe os preços da região ainda.

Sendo assim, vai caprichando na sua reserva — só por garantia.

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Ficar sem móveis é uma opção, mas vai ser difícil

Nós não tínhamos muitos móveis ao vir pra Recife, na verdade, quase nada além da máquina de lavar e do micro-ondas. Sendo assim, tivemos que comprar o básico de imediato. 

E é básico mesmo. Cama, fogão e geladeira são fundamentais. Mas eu sempre dizia ao boy que inicialmente poderíamos ficar sem sofá e mesa de jantar, por exemplo, nesse momento inicial de se estabelecer na cidade. 

E dá mesmo.

Pode ser que surjam alguns incômodos, mas releve. E se livre da preocupação de ter que comprar toda a mobília da casa de vez. Não precisa. o restante você compra no caminho.

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O emocional vai te azucrinar

Não é fácil. Aliás, ninguém disse que seria. Mas você só vai perceber isso quando viver. Vai dar saudade da família, vai bater a bad porque você ainda não conhece ninguém na cidade nova… Faz parte do processo.

Tive uma crise dessas na segunda semana aqui. Um dia cheguei na janela, vi parte do bairro, olhei pra um lado, olhei pro outro… Não sabia nem onde tinha uma farmácia. Foi intenso.

Em tempo de pandemia piora, né? Porque a gente, que pode, segue as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e evita sair. Como passear pela região sem tanta necessidade num momento como esse? 

Piora se você não tiver um trabalho certinho ou alguma outra forma de ocupar o tempo, porque todos esses sentimentos parecerão falar bem mais alto. Você se verá obrigada a encarar todos os seus demônios.

Quer uma dica de quem já viveu?

Bom, encare-os. E mande-os embora. 🙂


Enfim, né. A adaptação ao novo lugar exige paciência. O tempero de casa vai fazer falta, você vai perceber que as pessoas são diferentes daquelas que você já conhecia.

Mas não precisa ficar ansiosa pra conhecer tudo da cidade, que ônibus pegar, onde vende isso ou aquilo. O processo de pertencer a um lugar é gradual e exige vivência. É através das experiências que a gente passa a conhecer o funcionamento de cada lugar. Calma!

Publiquei no meu canal no YouTube um vídeo onde detalho ainda mais aprendizados desse último mês. Assista ao vídeo abaixo!