Becca Cosmetics anuncia encerramento de atividades um ano após pandemia

Em publicação feita em fevereiro, empresa afirmou que o impacto da pandemia de coronavírus foi maior do que podia suportar.

A Becca Cosmetics, marca de cosméticos criada pela maquiadora Rebecca Morrice Williams em 2001, anunciou que encerrará suas atividades em setembro deste ano. A informação foi publicada nas redes sociais da empresa e em informe no site, sob o título “Brilhando de gratidão“.

De acordo com o grupo, a empresa não resistiu aos desafios impostos pela pandemia de coronavírus. No texto, publicado em 26 de fevereiro, o time Becca afirmou que o impacto na empresa foi maior do que podia suportar.

“[…] e tivemos que tomar a dolorsa decisão de fechar a marca no final de setembro de 2021”, diz o comunicado.

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Segundo o site WWD, o encerramento da marca é parte de programa da aceleração do conglomerado de beleza Estee Lauder, proprietária da Becca Cosmetics, para o pós-crise causada pela Covid-19. A iniciativa inclui ainda o fechamento de unidades de varejo com baixo desempenho, balcões de varejo de viagem e na América Latina.

Os funcionários da empresa deverão ser transferidos para outras marcas do conglomerado. No entanto, ainda não foi definido o quantitativo.

Ainda segundo o WWD, a Becca não é a única empresa do segmento de beleza que sofre consequências da crise sanitária. A Shiseido recentemente fechou acordo para vender suas marcas de cuidados pessoais para a CVC Capital. Já a L’Oréal fechou a Clarisonic, marca que adquiriu há dez anos.

Imagem: Reprodução

Sobre a Becca Cosmetics

A Becca Cosmetics integra desde 2016 o conglomerado de beleza Estee Lauder, proprietária da Bobbi Brown, MAC e Jo Malone. A informação é que a empresa teria sido vendida por US$ 230 milhões.

A empresa criada em Perth, na Austrália, ganhou o mundo e construiu comunidade de maquiadores, influenciadores e embaixadores. Em seu site Pausa Para Feminices, Bruna Tavares lembrou que é da empresa um dos iluminadores mais vendidos na história, o Champagne Pop: foram 25 mil unidades vendidas na Sephora em 20 minutos. O feito foi alcançado em julho de 2015.

A Becca Cosmetics chegou ao Brasil em 2018.

Autocuidado incrementa produção do Grupo Boticário durante pandemia

Volume produzido foi o maior para trimestre em 40 anos de empresa. Comparado à produção do primeiro trimestre, incremento é de quase 9%.

As fábricas do Grupo Boticário na Bahia e no Paraná atingiram recorde de produção para um trimestre em setembro. O resultado é expressivo: primeiramente, o volume foi o maior para um trimestre em 40 anos de empresa; em segundo lugar, quando comparado à produção do primeiro trimestre, antes da pandemia, o incremento é de quase 9%. No entanto, a empresa não revelou o volume em números.

O resultado é potencializado pela categoria de cremes, que registrou aumento de 14,5% no volume produzido no trimestre encerrado em setembro. A empresa atribui a procura à adesão ao autocuidado, incentivado pelas rotinas de cuidado com a pele e cabelos que se popularizaram no período de pandemia. A categoria de cremes inclui shampoos e sabonetes líquidos.

O diretor-geral de Operações, Sérgio Sampaio, celebrou os resultados. Para ele, houve avanço de anos em alguns meses.

“É clichê dizer que toda crise gera oportunidades, mas este período tão difícil e que ainda requer todos os cuidados, representou novas portas abertas para nosso negócio”, afirmou Sampaio.

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Tranças: O penteado que reverencia a cultura africana

Símbolo de ancestralidade e autocuidado, as tranças atingem cada vez mais mulheres que têm preocupação além da moda. Conheça mais sobre o penteado!

Era dezembro de 2019. Com os dias cada vez mais quentes, com os meus fios cada vez mais frágeis e com minha paciência cada vez menor para lidar com meus crespos cheios, estava certa de que passaria o verão com os cabelos trançados. Já tinha tudo esquematizado: quando faria, com quem faria, que fibra colocaria.

Na loja, a surpresa: a fibra loira jumbo já tinha acabado. O jeito foi esperar por cerca de uma hora e meia até que o fornecedor mandasse mais alguns pacotes. Constatamos que aquele era o verão das tranças.

Dito e certo. A trancista estava com a agenda cheia, nas festas de verão só dava pessoas com os cabelos trançados. Era uma atitude controversa, afinal, as tranças contribuem na proteção dos fios e estímulo ao crescimento dos cabelos. Mas podia ter caído no campo do mainstream, da moda, do hype, e toda a carga ancestral e cultural do penteado ficar de lado em nome do capital.

Trança como um bem cultural

Estou com esse texto pra sair desde então. Passado o verão, entramos em quarentena devido à pandemia do novo coronavírus e as tranças seguiram como alternativa de cuidado, praticidade e economia. Isso porque o consumo de produto é menor, economizamos nos cremes, na hidratação, na nutrição, na reconstrução. Entre tantas coisas para nos preocuparmos, o cabelo não seria uma delas.

Acabou que fui engolida pela rotina, até que a atriz Zendaya apareceu com suas próprias box braids. Era chegado o momento. Uma busca ativa no Google Scholar, plataforma para pesquisa de material acadêmico, me ajudou a entender um pouco mais a simbologia das tranças.

Arte, expressão cultural da diáspora africana, herança dos ancestrais africanos que permanece na memória coletiva negra são algumas das compreensões que Luane Bento dos Santos traz em seu artigo ‘Bens culturais afro-brasileiros: o ofício de mulheres negras trançadeiras em debate‘, publicado em 2019 na Revista Eixo.

A pesquisadora argumenta que os penteados trançados estão presentes nas discussões políticas de identidade como uma das referências que constituem os bens culturais legados pelos povos africanos. E, como já disse Stuart Hall sobre o corpo ser usado pelas culturas como único capital cultural, o corpo negro, a cabeça e o cabelo são espaços de representação histórica, simbólica e luta política.

[…] pensamos como os penteados trançados, atualmente, têm raízes históricas, políticas e sociais, que fazem parte daquilo que será nomeado como patrimônio cultural nos processos de reconhecimento institucional do Estado brasileiro, por estar intrinsecamente ligado a elementos identitários do grupo afro-brasileiro. Dessa forma, os consideramos como adornos estéticos que rememoram significados identitários que quase foram perdidos […], mas que permanecem como lugar de memória através das ações das mulheres negras trançadeiras afro.

Luane Bento dos Santos, 2019

Trança é identificação

A pesquisadora Lindrielli Rocha Lemos, em artigo ‘O afroempreendedorismo: saber tradicional, empoderamento e contribuição à indústria criativa‘, publicado em 2019 na Revista Extraprensa, da USP, menciona que a trança afro era usada como forma de identificar tribos, estado civil, condição emocional e caminhos de fuga. Atualmente, se tornou atividade geradora de renda no afroempreendedorismo, que movimenta a indústria criativa.

Embora haja diversidade de tipos de tranças, penteados e cores, a mais conhecida e usada é a box braids – antes chamada de trança africana ou rastafari. Além do nome, mudança vista também nos materiais utilizados para fazê-la.

Primeiramente, eram usados cabelos de bonecas, que deixavam o cabelo com aspecto artificial. Em seguida, o material usado passou a ser o Kanekalon, fibra sintética de fabricação japonesa. Apesar do aspecto mais natural, esse material ainda era pesado e podia prejudicar quem tinha o cabelo mais fragilizado. Hoje, a jumbo é a favorita por unir naturalidade e leveza.

Tranças há 20 anos

A artista plástica e trancista Mariana Desidério acompanhou a evolução do mercado de tranças. Com 20 anos de atuação, no Brasil e agora em Portugal, onde faz mestrado em Antropologia, a especialista lembra que antes havia apenas uma fibra, e com aparência bem sintética. Atualmente, o cenário é outro: variedade, qualidade, sensação de cabelo natural.

Estou observando essa evolução no mercado. E quanto mais, melhor pra dar essa liberdade para mudarmos a hora que a gente quiser. […] Estão percebendo que o negro cresce, estuda, ganha poder de compra e se torna um consumidor nato. Estamos já falando do black money. Tem uma gama de particularidades dentro desse contexto, mas é muito bom saber que estamos sendo vistos como consumidores de fato; que está tendo produtos voltados para nossa linha, para o nosso fio, para nossa fibra capilar.

Mariana Desidério, artista plástica e trancista com 20 anos de atuação

Esse olhar do mercado é um reflexo da aceitação da negritude e ancestralidade da mulher negra, postura estimulada pelas redes sociais. Na avaliação de Mariana Desidério, trançar os cabelos vai além da moda: alcança o patamar de autocuidado mesmo. “As mulheres estão se amando mais”, ela diz.

A compreensão vale até mesmo para as mulheres não-negras que decidem trançar seus cabelos também. Isso porque, numa discussão entre pode ou não pode, que chega à seara da apropriação cultural, a trancista e mestranda em antropologia prefere ver a questão como uma espécie de homenagem. Em sua avaliação, o maior problema está no outro, em como o outro passa a ver isso numa mulher branca em comparação ao mesmo penteado numa mulher negra.

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“O que deixa mais bizarra e complexa essa questão é que o outro vai ver numa mulher branca trançada uma beleza que em uma mulher negra ele não vai ver. É aí que começo a questionar e bater na tecla que essa questão é muito mais complexa do que a gente possa imaginar. Mas também não deveria ter restrição a nada. Cada um poderia fazer o que quisesse. Mas em depreciar uma coisa que é da minha cultura em mim e achar bonito no outro, aí a questão é muito mais ‘lá embaixo'”, observa.