Política está na moda: O que significam os looks da posse presidencial

A política está na moda! O que produtos especializados em moda interpretaram das escolhas para a posse presidencial dos Estados Unidos.

A política está na moda! E não falo isso do ponto de vista das tendências de comportamento ou objetos de conversa entre as pessoas.

Trabalho com cobertura jornalística de política há cerca de cinco anos e, desde então, vejo pouco a presença de pautas de moda nessa editoria. No Brasil, principalmente.

Mas é interessante observar como, convenientemente, elementos da moda, um assunto tido como fútil, são acionados para sugerir mensagens políticas, um assunto tido como mais sério e relevante. Particularmente, discordo de um e entendo o outro.

Explico: discordo que moda seja fútil, afinal, precisamos nos vestir, e esse vestir precisa ser adequado às ocasiões nas quais estaremos inseridas. Da mesma forma, a roupa é uma forma de expressão não verbal, ou seja, permite dizer muito sem que se diga uma só palavra.

E entendo que política é, de fato, um assunto sério e relevante, mas que também sobrevive por mensagens não necessariamente faladas. Um aceno é suficiente para que se interprete um cenário ou seja traçada uma perspectiva para os dias seguintes.

Olhares sobre a posse

Todo esse conjunto de símbolos requer um conhecimento especializado que jornalistas de suas respectivas áreas dominam bem. Foi o que aconteceu nesta semana, com a posse de Joe Biden e Kamala Harris como presidente e vice-presidente, respectivamente, dos Estados Unidos.

A pauta no noticiário generalista e político foi Biden. No jornalismo especializado de moda, a pauta foi o que poderia querer dizer o traje escolhido por Kamala Harris.

+ Veja também: O que há de diversidade no jornalismo feminino através das capas de 2020

Não é à toa que todos os olhares estivessem direcionados para essas duas pessoas. Primeiramente, porque os Estados Unidos são considerados ainda a nação mais poderosa e importante do mundo ocidental. Em segundo lugar, é histórica a ruptura de um movimento populista e extremista que dominou o país com o mandato de Donald Trump.

Por fim, é a consolidação da vitória democrata após manifestações de extremistas trumpistas que puseram em xeque a democracia estadunidense com a invasão do Capitólio no dia em que o Congresso consolidaria a eleição de Biden e Harris. Noticiabilidade demais, podemos dizer.

E cada veículo calibra seu enquadramento para aquilo que está em acordo com sua linha editorial, seu modo de ver esse grande mundo em que vivemos.

O significado por trás do roxo

A vice-presidente Kamala Harris usou um conjunto de casaco e vestido roxos, assinado pelos estilistas Christopher John Rogers e Sergio Hudson. Também usaram cores da mesma cartela a ex-primeira-dama Michelle Obama e a ex-secretária de Estado Hillary Clinton.

Algumas interpretações do jornalismo especializado explicam o significado por trás do roxo. Na Marie Claire, o bipartidarismo, já que o roxo é a mistura do vermelho, cor do partido Republicano, e do azul, cor do partido Democrata. A leitura que se faz é de uma disposição de Harris para unir os dois lados, após quatro anos de estímulo à divisão a um “nós contra eles”.

Também na Marie Claire e na Vogue Brasil, a referência às sufragistas. O movimento reivindicava o direito das mulheres ao voto, no início do século XX, orientado pela Women’s Social and Political Union. Branco e roxo são cores associadas à causa.

Está na Maire Claire:

Em segundo lugar, é uma cor do movimento sufragista. “Roxo é a cor da lealdade, constância ao propósito, firmeza inabalável a uma causa. Branco, o emblema da pureza, simboliza a qualidade de nosso propósito; e ouro, a cor da luz e da vida, é como a tocha que guia nosso propósito , puro e inabalável “, de acordo com uma linha de um boletim informativo do National Woman’s Party, dos Estados Unidos. Harris escolheu vestir branco em novembro para fazer seu discurso de vitória depois que a eleição foi oficialmente convocada para Biden-Harris, então parece apropriado que ela usasse outra cor de sufragista nesta ocasião.

Sally Holmes para Marie Claire, em 20 de janeiro.

O significado por trás da grife

A política invadiu o jornalismo de moda, mas isso também implica o olhar direcionado aos quadros e pontos de vista que dialogam com essa especialidade. Vestir é político.

Prova recente disso é a transformação de Michelle Obama perante o eleitorado americano na primeira eleição de Barack Obama. Olívia Pereira Rêgo Meireles conta, em monografia de conclusão do curso de Comunicação Social do Centro Universitário de Brasília, que num cenário de recessão econômica, com norte-americanos perdendo fundos de previdência, empregos e até suas casas, a possível primeira-dama vestia peças de marcas populares e com preços acessíveis, daquelas que qualquer americano poderia comprar.

A autora da pesquisa cita um episódio que simboliza o quanto a estratégia deu certo – muito por causa do terceiro elo ali, a imprensa, pra fazer chegar ao cidadão e à cidadã o significado por trás de cada escolha.

O caso mais notório, entretanto, foi a sua ida ao matinal feminino The View10 no dia 18 de junho de 2008. Ela apareceu com um vestido floral preto e branco de uma marca popular. O preço da peça variava de US$ 99 e US$ 148, dependendo de onde se adquirisse o produto. Depois da entrevista, a roupa rapidamente sumiu da prateleira das revendedoras e do site da estilista. Na temporada seguinte a designer recebeu 35% a mais de pedidos por sua coleção (LIGHTFOOT, 2009. p. 143). As roupas baratas de Michelle viraram sucesso.

Olívia Meireles, 2009, p. 26/27.

No caso recente, a Marie Claire Brasil indica que Kamala Harris usou na posse o casaco roxo do designer Christopher John Rogers e o vestido de Sergio Hudson. Ambos são dois estilistas americanos negros e em ascensão. O primeiro, inclusive, foi eleito designer emergente de 2020 pelo CFDA e é queer, segundo a Vogue Brasil.

A conclusão, da Marie Claire brasileira:

Como primeira mulher e primeira pessoa negra e sul-asiática, filha de imigrantes, a ocupar o cargo de vice-presidente, a escolha de vestir apenas designers negros por Kamala mostra um novo capítulo da administração do país, principalmente após um ano de fortes manifestações por justiça racial nos EUA.

Fernanda Moura Guimarães para Marie Claire Brasil, em 20 de janeiro de 2021.

Também chamou a atenção as escolhas da primeira-dama Jill Biden. A esposa do novo presidente dos Estados Unidos vestiu um conjunto azul da americana Alexandra O’Neill, estilista e fundadora da marca Markarian. O G1 apontou que a estilista apoia o consumo sustentável na moda e a redução do desperdício.

É o aceno à sustentabilidade que não estava presente na Casa Branca e pode passar a compor a agenda presidencial.

Tranças: O penteado que reverencia a cultura africana

Símbolo de ancestralidade e autocuidado, as tranças atingem cada vez mais mulheres que têm preocupação além da moda. Conheça mais sobre o penteado!

Era dezembro de 2019. Com os dias cada vez mais quentes, com os meus fios cada vez mais frágeis e com minha paciência cada vez menor para lidar com meus crespos cheios, estava certa de que passaria o verão com os cabelos trançados. Já tinha tudo esquematizado: quando faria, com quem faria, que fibra colocaria.

Na loja, a surpresa: a fibra loira jumbo já tinha acabado. O jeito foi esperar por cerca de uma hora e meia até que o fornecedor mandasse mais alguns pacotes. Constatamos que aquele era o verão das tranças.

Dito e certo. A trancista estava com a agenda cheia, nas festas de verão só dava pessoas com os cabelos trançados. Era uma atitude controversa, afinal, as tranças contribuem na proteção dos fios e estímulo ao crescimento dos cabelos. Mas podia ter caído no campo do mainstream, da moda, do hype, e toda a carga ancestral e cultural do penteado ficar de lado em nome do capital.

Trança como um bem cultural

Estou com esse texto pra sair desde então. Passado o verão, entramos em quarentena devido à pandemia do novo coronavírus e as tranças seguiram como alternativa de cuidado, praticidade e economia. Isso porque o consumo de produto é menor, economizamos nos cremes, na hidratação, na nutrição, na reconstrução. Entre tantas coisas para nos preocuparmos, o cabelo não seria uma delas.

Acabou que fui engolida pela rotina, até que a atriz Zendaya apareceu com suas próprias box braids. Era chegado o momento. Uma busca ativa no Google Scholar, plataforma para pesquisa de material acadêmico, me ajudou a entender um pouco mais a simbologia das tranças.

Arte, expressão cultural da diáspora africana, herança dos ancestrais africanos que permanece na memória coletiva negra são algumas das compreensões que Luane Bento dos Santos traz em seu artigo ‘Bens culturais afro-brasileiros: o ofício de mulheres negras trançadeiras em debate‘, publicado em 2019 na Revista Eixo.

A pesquisadora argumenta que os penteados trançados estão presentes nas discussões políticas de identidade como uma das referências que constituem os bens culturais legados pelos povos africanos. E, como já disse Stuart Hall sobre o corpo ser usado pelas culturas como único capital cultural, o corpo negro, a cabeça e o cabelo são espaços de representação histórica, simbólica e luta política.

[…] pensamos como os penteados trançados, atualmente, têm raízes históricas, políticas e sociais, que fazem parte daquilo que será nomeado como patrimônio cultural nos processos de reconhecimento institucional do Estado brasileiro, por estar intrinsecamente ligado a elementos identitários do grupo afro-brasileiro. Dessa forma, os consideramos como adornos estéticos que rememoram significados identitários que quase foram perdidos […], mas que permanecem como lugar de memória através das ações das mulheres negras trançadeiras afro.

Luane Bento dos Santos, 2019

Trança é identificação

A pesquisadora Lindrielli Rocha Lemos, em artigo ‘O afroempreendedorismo: saber tradicional, empoderamento e contribuição à indústria criativa‘, publicado em 2019 na Revista Extraprensa, da USP, menciona que a trança afro era usada como forma de identificar tribos, estado civil, condição emocional e caminhos de fuga. Atualmente, se tornou atividade geradora de renda no afroempreendedorismo, que movimenta a indústria criativa.

Embora haja diversidade de tipos de tranças, penteados e cores, a mais conhecida e usada é a box braids – antes chamada de trança africana ou rastafari. Além do nome, mudança vista também nos materiais utilizados para fazê-la.

Primeiramente, eram usados cabelos de bonecas, que deixavam o cabelo com aspecto artificial. Em seguida, o material usado passou a ser o Kanekalon, fibra sintética de fabricação japonesa. Apesar do aspecto mais natural, esse material ainda era pesado e podia prejudicar quem tinha o cabelo mais fragilizado. Hoje, a jumbo é a favorita por unir naturalidade e leveza.

Tranças há 20 anos

A artista plástica e trancista Mariana Desidério acompanhou a evolução do mercado de tranças. Com 20 anos de atuação, no Brasil e agora em Portugal, onde faz mestrado em Antropologia, a especialista lembra que antes havia apenas uma fibra, e com aparência bem sintética. Atualmente, o cenário é outro: variedade, qualidade, sensação de cabelo natural.

Estou observando essa evolução no mercado. E quanto mais, melhor pra dar essa liberdade para mudarmos a hora que a gente quiser. […] Estão percebendo que o negro cresce, estuda, ganha poder de compra e se torna um consumidor nato. Estamos já falando do black money. Tem uma gama de particularidades dentro desse contexto, mas é muito bom saber que estamos sendo vistos como consumidores de fato; que está tendo produtos voltados para nossa linha, para o nosso fio, para nossa fibra capilar.

Mariana Desidério, artista plástica e trancista com 20 anos de atuação

Esse olhar do mercado é um reflexo da aceitação da negritude e ancestralidade da mulher negra, postura estimulada pelas redes sociais. Na avaliação de Mariana Desidério, trançar os cabelos vai além da moda: alcança o patamar de autocuidado mesmo. “As mulheres estão se amando mais”, ela diz.

A compreensão vale até mesmo para as mulheres não-negras que decidem trançar seus cabelos também. Isso porque, numa discussão entre pode ou não pode, que chega à seara da apropriação cultural, a trancista e mestranda em antropologia prefere ver a questão como uma espécie de homenagem. Em sua avaliação, o maior problema está no outro, em como o outro passa a ver isso numa mulher branca em comparação ao mesmo penteado numa mulher negra.

+ Veja também: Como é usar lace wigs – Jornalista Ashley Malia conta os bastidores de quem adere ao item

“O que deixa mais bizarra e complexa essa questão é que o outro vai ver numa mulher branca trançada uma beleza que em uma mulher negra ele não vai ver. É aí que começo a questionar e bater na tecla que essa questão é muito mais complexa do que a gente possa imaginar. Mas também não deveria ter restrição a nada. Cada um poderia fazer o que quisesse. Mas em depreciar uma coisa que é da minha cultura em mim e achar bonito no outro, aí a questão é muito mais ‘lá embaixo'”, observa.

A crise na indústria têxtil do Brasil

Empresários do setor comentam falta de matéria-prima suficiente para abastecer o mercado interno. Dólar a R$ 5 é uma das causas apontadas.

A maior cadeia têxtil completa do Ocidente, com capacidade de atuar desde a produção das fibras até a apresentação do produto final nas semanas de moda, enfrenta uma crise considerada inédita por atores do setor. Falta algodão para produzir tecidos no Brasil.

A situação viralizou com a thread da loja Brusinhas, no Twitter. A constatação da produtora em atuação há quatro anos é que as fábricas de tecido não têm fio para produzir malha, considerando que toda a produção de fio foi exportada. Ou seja: com o dólar na casa dos R$ 5, é mais vantajoso vender para fora do que abastecer o mercado interno com moeda tão desvalorizada como está.

Uma reportagem da Folha de S.Paulo, de 12 de setembro, indica que, apesar da safra recorde, a arroba do algodão pluma subiu 35% em 12 meses até agosto. As negociações da matéria-prima para a temporada de outono-inverno 2021, que começam a ser feitas agora, estão até 40% mais caras do que no ano passado.

O presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), Fernando Pimentel, disse à publicação que pode haver um “estresse temporário de abastecimento“, devido à defasagem entre colheita e beneficiamento da fibra.

Primeiros sinais

Em conversa com o Moça, a responsável pela loja, que preferiu não ser identificada nesta matéria, contou que desde o ano passado já notava problema de distribuição na fábrica. Algo leve, pontual, mas que implicava suspensão de pedidos externos.

Depois da pandemia, no entanto, que casou também com a desvalorização do real, a empresária curitibana relatou que houve aumento no preço dos produtos, atraso nos pedidos e recomendação de encomenda com mais antecedência do que o normal.

“Por precaução, decidi fazer um estoque de malha. Não por medo do material faltar, mas mais pelos aumentos e atrasos. Não tinha uma perspectiva de ‘não ter’, nesse momento, apenas de atrasar por causa da junção de pandemia e alta do dólar. Como eu compro malha de outras fábricas e lojas, conversando com os representantes e donos, começou uma conversa de novo aumento e falta de malha, falta de prazo pra entregar”.

Empresária dona da ‘Brusinhas’, que preferiu não ser identificada nesta matéria

Segundo ela, em março o pedido mínimo pra cada cor subiu de 60kg pra 200kg. Além disso, o quilo, que era até R$ 39, agora custa R$ 50.

Conjunção de fatores

O diretor da Polo Salvador e membro do Conselho da Abit, Hari Hartmann, avaliou que não falta algodão no mercado, mas há uma conjunção de fatores que leva à crise, como recuo da demanda no início da pandemia, alta demanda do algodão no Sul e demanda de consumo imediata ainda no período de colheita do algodão, em junho/julho.

“Não é que esteja faltando algodão. Temos hoje uma produção muito grande, um terço da produção é para atender o mercado interno ao longo dos seis meses seguintes à colheita. Mas acontece que a demanda foi muito rápida e ao mesmo tempo. A própria China estava sem comprar. No momento que começou a abrir o mercado, coincidiu com o aumento do dólar. (…) como começou a aumentar o dólar, percebeu-se que ia ficar essa a matéria-prima. Sempre tem a especulação ‘vamos estocar pra não faltar’, e se estoca mais do que precisa”.

Hari Hartmann, diretor da Polo Salvador

Na avaliação do empresário, o que falta mesmo no Brasil é indústria de transformação capaz de tornar o algodão em fio. Hartmann estimou também que a fábrica a ser instalada no Oeste da Bahia deverá aliviar a situação.

“As indústrias de transformação da fibra estão muito demandadas e, como não tem capacidade instalada maior do que essa demanda, não tem muito pra onde correr. Enquanto o dólar estiver nesse patamar de R$ 5, até o final do ano o melhor cenário seria R$ 5,20, é bem importante que não se busque tanto a exportação da matéria-prima. Se exportar muito, vai faltar no mercado interno”.

Hari Hartmann, diretor da Polo Salvador

Diante do cenário, Hartmann avalia que o abastecimento deverá ser normalizado dentro de 60 a 90 dias, ou seja, até dezembro. Isso tanto para o algodão quanto para o poliéster, que também está em falta no país.

De olho no mercado interno

Aparentemente, não há solução imediata para a crise, além de esperar o tempo de transformação da matéria-prima. Por outro lado, a empresária curitibana dona da loja Brusinhas aposta em iniciativas que podem evitar situação semelhante a essa no futuro.

Uma delas é acordo entre produtores de algodão, empresas de fio e malharias para garantir entrega suficiente para suprir o mercado interno.

“Não tenho conhecimento suficiente pra dizer como isso deve ser feito, nem de quem é essa responsabilidade, mas acredito que o governo poderia, sim, intervir economicamente. Afinal, a função do Ministério da Economia é justamente atuar na economia, não apenas numericamente, mas com reflexos sociais, tendo em vista que a economia em si é uma ciência social. E acho que é responsabilidade social de toda empresa que atua no Brasil, plantando no nosso território, cumprir com o papel social da empresa. Com certeza ele não é usar o nosso solo, pessoas e estrutura logística para mandar nossas commodities pra foram num nível que traz como consequência uma cadeia produtiva inteira sem ter como operar”.

Empresária dona da ‘Brusinhas’, que preferiu não ser identificada nesta matéria

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O alerta é ainda maior na pandemia, considerando que a principal barreira de proteção ao coronavírus são as máscaras. A maioria delas é feita de tecido. Sem eles, como daríamos conta dessa demanda crescente?