Cacheadas: Como passar pela transição capilar

Oi, moçoila!

Dia desses estava pensando sobre minhas madeixas alisadas e como às vezes bate a preguiça de dar a chapinha toda semana. Falo isso por causa dos cachos, que são bem tentadores. Já pensei em parar de alisar, mas ainda não o fiz por dois motivos: paciência e trato com as ondulações. E eu ainda não encontrei um motivo forte para essa ruptura.

Mas conheço pessoas que tiveram e foram muito bem sucedidas nesse momento, como a jornalista Midiã Noelle. “Precisei ter muita coragem para me abrir às mudanças físicas, psicológicas e emocionais do antes, durante e depois. Para alguém que durante a infância e adolescência ouviu que poderia ser bonita ‘se fosse…’ algo que não era, acho até que saí rápido da neura do ‘ser lisa’ para ser linda”, escreveu Midi certa vez sobre seu momento de transição.

A primeira vez que ela alisou os cabelos foi por curiosidade. Aos 20 anos, ela usou guanidina pra saber como seria o cabelo liso. A segunda vez que alisou, desta vez com a técnica Photon Hair, Midi estava com um novo namorado e queria fazer algo radical. Mas não só isso: ela não se achava muito bonita com o cabelo cacheado.

Linha do tempo capilar de Midiã Noelle (Foto: Reprodução/ Facebook)
Linha do tempo capilar de Midiã Noelle (Foto: Reprodução/ Facebook)

“Acredito que queria ser mais parecida com um padrão ‘branco’ de beleza estabelecido na grande mídia. Eu, por exemplo, sou jornalista e nunca me enxerguei como o padrão pra TV, sabe?”, confessou. E o estereótipo da mídia é bem cruel em relação ao ideal. Ainda bem que estamos avançando, mesmo que minimamente. Considero a ida de Maju Coutinho para o Jornal Nacional, com todos os seus cachos, uma vitória.

Midi ficou dois anos e meio nesse processo de alisamento até partir pra transição e retomar os cachos. Para dar esse passo, ela conta que assistiu vlogs no YouTube, leu blogs e sites sobre o assunto e amadureceu sobre como o racismo afeta as mulheres negras. O cabelo acaba sendo um dos primeiros símbolos destruídos.

“Também amadureci de um modo geral e de fato passei a me enxergar mais bonita naturalmente. Ressaltando o que é natural em mim, me sinto mais bonita”, contou.

Lisa desde os 10
A estudante de Serviço Social, Beatriz Portela, também passou pelo mesmo processo de reconhecimento. Desde quando tinha dez anos sua mãe usava aqueles alisantes para criança para deixar o cabelo mais “penteável”. O tempo foi passando e a química se tornando mais forte, até para também obedecer o padrão do liso. Bia conta que chegou um momento em que o cabelo não respondia mais aos alisamentos e era necessário usar um produto mais forte, o que danificaria mais ainda o cabelo.

“Parei de usar química com 17 anos, quando comecei a estudar gênero, conhecer os coletivos feministas e os discursos sobre emponderamento capilar”, acrescentou.

Beatriz Portela antes, durante e depois da transição capilar (Foto: Arquivo Pessoal)
Beatriz Portela antes, durante e depois da transição capilar (Foto: Arquivo Pessoal)

Apesar da consciência teórica, faltou aplicar os conceitos nos quais acreditava e estímulo também. A tia e a mãe desestimularam no início, mas ao perceberem que era possível ter cachos novamente, as três moças passaram juntas pela transição capilar. O processo requer um tanto de paciência e a de Bia veio da consciência de que o cabelo é um ato político, “a primeira voz nos espaços e a necessidade de mostrar na aparência o que me representa”. Em seu caso, como ela mesma diz, sua essência afro-brasileira.

No período de transição ela conta ter usado muitos coques, ficou pouco  mais de um ano sem dar qualquer tipo de química e após cortar “um tanto”, deu o permanente afro – o produto para cachear os cabelos. Outras coisas são interessantes fazer nessa fase, como interagir em grupos de meninas que estão passando pela mesma experiência; assistir aos vídeos com dicas de técnicas e penteados; e seguir um cronograma capilar para acelerar o crescimento. As dicas de Bia são os grupos do Facebook ‘Cacheadas em Transição’ e ‘Vício Cacheado’, e o vlog da Aline Silva, chamado ‘Gata Crespa Cacheada’.

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