Comportamento Opinião

Ainda dá para falarmos sobre transição capilar?

O “boom” da transição capilar parece já ter passado. Os produtos específicos para cabelos crespos e cacheados não saltam tanto aos nossos feeds como há três, quatro anos. As influenciadoras que antes passavam a mensagem do amor-próprio através dos cabelos naturais reformularam seu conteúdo e acrescentaram outras pautas – algumas defendendo até seu direito de alisar o cabelo se assim quiserem. E está tudo bem.

As revistas já não dão tanto espaço assim para o empoderamento das crespas e cacheadas. Não sei se porque já naturalizamos a atitude ou se porque ninguém mais se interessa por isso – embora na semana que eu tenha escrito esse texto, dois veículos especializados em mulher abordassem o tema, um programa local e a revista Glamour. Mas foi essa mesma publicação impressa que recentemente publicou uma matéria em que dois hair stylists explicavam o funcionamento do… relaxamento capilar. Oh, sim, aquele mesmo que aterrorizou as meninas por anos, quando a transição nem era uma tendência de comportamento.

Por sorte a internet é um baú de memórias sem fundo e quem se encorajou a abandonar a química depois do hype pode recorrer aos confins do Youtube para se informar. Sem contar os conselhos de amigas que já passaram por essa fase, claro. Mas me parece que, uma vez querendo traçar um caminho autônomo, as informações precisam ser buscadas, garimpadas. Diferentemente de quando, na crista da onda, só se falava disso, só se via isso.

(Foto: Tiago Caldas/ Moça Criada)

Parece que vivemos, então, uma fase de estabilidade dessa moda. Ainda dá para falarmos de transição capilar? Ou é um pouco old fashion trazer o assunto para o debate novamente?

Independentemente da resposta, considero necessário vermos a transição não como uma moda que aderimos para estarmos “in“. A quebra do paradigma do liso como único parâmetro de beleza precisa ser encarada como um momento importante em nossa sociedade – ainda racista, ainda machista. Afinal, é como sabemos, nós que passamos pela transição: não é só o cabelo.

Não são só as madeixas que mudam, mas a atitude diante da vida também. Não há mais nada o que esconder de quem quer que seja; passamos a aceitar e amar quem somos, sem nos importarmos com os outros. A ousadia de assumir os fios naturais irradia e alcança vestuário, relações, estilo de vida. Tudo muda. E nunca é tarde para mudar.

Ainda mais agora em que vemos valores em disputa. Não dá para abrirmos mão de vontades que dizem respeito, única e exclusivamente, a nós mesmas. Sermos certinhas, contidas, sem chamar a atenção, ou seja, limitações aplicadas socialmente e manifestadas também pelos cabelos, não precisam voltar a ser regra. Existir é um ato político e existir com toda a nossa liberdade é tão revolucionário, forte e vibrante quanto.

Pois que vivamos! E soltemos nossos cabelos. Que os deixemos ser o que são. Seja você, também, quem, o que, como quiser ser. A liberdade está aí para ser vivida em sua plenitude – da escolha à responsabilização por ela. Ainda dá para falarmos sobre transição capilar. Ainda dá para fazê-la. Hoje ou daqui a alguns anos. Sempre dá.

quem é Teté

Curiosa, jornalista e libriana. Mestranda no PósCom/Ufba, interessada nos valores - os meus, os seus, os de notícia e os humanos. Se piscar o olho, o cochilo vem, mas os olhos sempre estão abertos para uma série ou outra que desperte o interesse.

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