Moda,  Opinião

A falência da Forever 21 nos confirma: as coisas estão mudando

Fomos todos surpreendidos com a confirmação da crise que atingiu a Forever 21, uma das maiores de fast fashion do mundo. Surpreendente não porque ninguém esperava o pedido de falência, afinal, muito se falou sobre a possibilidade de isso acontecer. A surpresa está, na verdade, em perceber que as coisas estão mudando mesmo, como indica esta matéria do El País Brasil.

Não sei dizer com precisão a que velocidade as pessoas têm tomado consciência do impacto coletivo que escolhas individuais acarretam. Afinal de contas, uma das categorias de instablogs que mais fazem sucesso em Salvador é a dos “achadinhos”, nos quais somos motivadas a comprar – e comprar barato. Nada contra preço baixo, inclusive prefiro, mas não podemos esquecer que, para que algo seja bem barato, alguma etapa da cadeia de produção certamente não foi valorizada como merecia. E a gente sabe qual é o ente mais fraco de toda cadeia produtiva. 

Mas as coisas estão mudando. Não é à toa que a Forever 21 deve fechar 350 das 800 lojas que possui ao redor do mundo – concentrando os esforços de operação na América Latina e Estados Unidos. E não é a única. A H&M também anunciou o fechamento de 180 lojas, depois de ter acumulado 4,3 bilhões de dólares em estoque, aquelas peças que não foram vendidas, em 2018. As coisas estão mudando, o consumo tem se tornado cada vez mais pratico e racional.

Analistas atribuem a crise da Forever 21 ao hábito das mulheres, público-alvo da empresa, fazerem mais compras online. Por outro lado, há também a interferência da consciência tomada acerca dos impactos socioambientais da indústria da moda referentes à emissão de gases que ocasionam o efeito estufa, poluição da água, descarte irregular e prejudicial de tecidos e as condições de trabalho análogas à escravidão.

Comprar tem se tornado um processo mais complexo. Não é só ver a peça, gostar e levar pra casa. É refletir sobre a necessidade dela, vê-la, analisar seu material; pensar na quantidade de vezes que será usada, se combina com o que já temos em casa, se dialoga com nosso estilo, se nos deixa confortáveis; se a peça, enfim, vai durar.

De que adianta 20 blusinhas de dez reais cada, se em seis meses de uso elas já serão rebaixadas ao posto de “roupas para ficar em casa”, dado o desgaste que irão aparentar?

Repensar o consumo e a nossa relação com os objetos é um movimento que só cresce. Não à toa, a geração Z é apontada como aquela que ecoará, de forma potente, o que foi iniciado pelos millenials. Olha Greta Thunberg, ativista de 16 anos, concorrente ao Nobel da Paz, que se tornou a liderança do movimento em defesa e preservação do meio ambiente. E a quantidade de adolescentes que compartilham essa mesma preocupação, chamando a atenção para uma causa que interessa a todos nós!

Está acontecendo. Talvez aqui no Brasil não percebamos esse movimento, porque ainda não saímos da base da pirâmide das preocupações. Ainda somos carentes de tanto – alimentação, educação, saúde, saneamento básico, emprego – que não conseguimos pensar em nada que vá além do básico. Todo o resto é supérfluo. E tudo bem com isso também. É estrutural.

No entanto, acredito que esforços são possíveis. Dá para proporcionar: quem pode mais, faz mais; quem pode menos, faz menos; e quem não pode nada, nada faz. Se você chegou até aqui, você certamente pode fazer alguma coisa.

O que está dentro das suas condições?



Curiosa, jornalista e libriana. Mestranda no PósCom/Ufba, interessada nos valores - os meus, os seus, os de notícia e os humanos. Se piscar o olho, o cochilo vem, mas os olhos sempre estão abertos para uma série ou outra que desperte o interesse.

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