‘100 Humanos’: O que dizer sobre a série de comportamento da Netflix?

‘100 Humanos’: O que dizer sobre a série de comportamento da Netflix?

Em algum momento de sua existência, você vai procurar por uma série levinha, rapidinha e que esteja acessível. Aconteceu comigo alguns meses atrás, quando conheci a série 100 Humanos‘, da Netflix. Fiquei intrigada com o nome, mas a sinopse arrematou minha atenção.

Aquela coisa de fazer experimentos sobre beleza, idade, sexo, felicidade e outros aspectos da vida humana me empolgaram. Seria a oportunidade de conhecer o outro lado das pesquisas científicas que sempre lia a respeito na disciplina de estudos em comunicação do mestrado!

Ok que os temas não têm muito a ver, mas a inclusão de variáveis, perguntar “A” para descobrir “B” e tudo mais… Sonhei.

Sobre a série

Importante especificar que a pesquisa foi feita com cem pessoas diferentes – em idade, gênero, cor da pele, tipo físico -, mas que foram socializadas na cultura dos Estados Unidos. Isso quer dizer que os resultados podem ser bastante reveladores. Por outro lado podem também ser muito específicos àquela sociedade, por causa dos valores, dos estereótipos, da cultura daquelas pessoas.

Cheguei a pensar que os apresentadores Alie Ward, Sammy Obeid e Zainab Johnson eram mesmo cientistas, daqueles bem descolados. Mas eles são competentes atores e comediantes mesmo. Sigamos.

A moral da história nisso tudo é que, de uma maneira leve e didática, conseguimos absorver algumas lições sobre a natureza humana. E a série se propõe a isso mesmo, afinal.

Compartilho com vocês algumas lições também!

Ser bonito alivia o julgamento

É isso mesmo. Beleza é um privilégio até mesmo quando se trata do julgamento por um crime que alguém possa ter cometido. O professor de Direito Jordy Armour explica que isso é resultado de um preconceito inconsciente.

“Quanto mais escura for a sua pele, mais digno de morte será considerado. O júri julga com base no réu que estão vendo. O que sabemos é que vamos fazer um julgamento moral muito mais duro para os menos atraentes. É como jogar uma moeda e, se disser que você é atraente, você é menos mau”, diz ele.

Beleza é questão de familiaridade

Temos nossa referência do que é belo e do que não é. Mas de onde isso vem?

De acordo com estudos citados na série, nós somos atraídos por rostos que são mais familiares ao nosso cérebro. Ou seja: familiaridade cria atração.

Por isso não é difícil dizer que gosto é construção social e tendemos a considerar como bonito aquilo que vemos mais frequentemente na TV, nas revistas, nos programas de modo geral. Não só porque percebemos uma valorização daquele tipo de beleza, mas porque o vemos frequentemente.

Nossa memória não piora com a idade

É mito. Daqueles tipo o profissional que depois de 30 anos de indiferença e apatia anuncia que tem a fórmula que vai revolucionar sua área de atuação. Não existe.

A série cita estudos segundo os quais nem todo idoso perde a memória. Num experimento feito com pessoas de diferentes faixas etárias, o grupo de 60 anos se saiu muito bem nesse exercício.

A explicação pode ser porque pessoas mais velhas dormem mais. E o sono é um dos fatores mais influentes para uma boa memória.

Isso ocorre porque, quando dormimos, nosso cérebro consolida a memória, fortalecendo conexões e colocando-as profundamente no cérebro. Para ajudar, adote: cochilos, escrever, falar em voz alta o que quer memorizar, mimetizar e comer frutas – os mirtilos ajudam a prevenir a perda de memória.

Há inteligência nos 20 e nos 60 anos

Os experimentos sobre a melhor idade são bem interessantes. Uma das atividades mostra que há diferentes tipos de inteligência, em dois momentos bem marcantes de nossas vidas.

Na casa dos 20 anos, predomina a inteligência fluida, que é a habilidade de resolver problemas, a velocidade do pensamento, a inteligência analítica. Com o passar dos anos, ela diminui.

Já na casa dos 60 anos, predomina a inteligência cristalizada. O escritor Dan Pink a resume em todo conhecimento acumulado ao longo da vida.

O escritor também explica que os 20 anos e os 60 anos são os dois pontos da curva do bem estar.

“Se vir como as pessoas estão felizes em suas vidas, como estão satisfeitas ao longo da vida, é assim que parece: é uma curva em U. As pessoas são mais felizes aos 20, começam a declinar aos 30, 40, alcançam o fundo do poço, depois começam a subir de novo, por volta de quando têm 60 anos”, observa.

Somos socializadas a oferecer sempre mais

Nós, que somos mulheres, não precisaríamos de qualquer estudo científico para chegar a essa conclusão: somos mesmo muito cobradas. A professora de Estudos de Gênero, Juliet Williams, ressalta que nós somos socializadas para agradar mais do que os homens, e estamos mais sujeitas a julgamentos.

“A maioria, se disser para chegar na hora, chegará na hora. Os pontos fora da curva tendem a ser os homens. Talvez porque mulheres sejam socializadas para agradar mais, para seguir mais as regras, para fazer o que disseram a elas, e porque os homens são socializados para serem mais autônomos”, explica.

Homens se supervalorizam

Por termos a “obrigação” de oferecer sempre mais, somos condicionadas a acreditar que o que já temos não é suficiente. Disso vem outra lição: os homens se supervalorizam mais do que as mulheres.

Juliet Williams, professora de Estudos de Gênero, destaca que isso é resultado de frequentes mensagens que nos pressionam, como: “Você não é o bastante” ou “Não é assim que deve ser” ou “Tem algo errado com seu corpo”.

“Então, não me surpreende nem um pocuo que mulheres, quando perguntadas, se deem notas mais baixas”, acrescenta.

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Aceitamos com mais facilidade a farsa do prazer

Nós, humanos, tendemos a aceitar mais facilmente uma mentira que nos forje algum prazer. Estamos mais dispostos a isso do que a nos convencermos de que algo – ou alguém – pode nos machucar.

É como optarmos por acreditar que não vamos pegar coronavírus porque só vamos ali rapidinho e estamos de máscara, ao invés de considerarmos a possibilidade do risco de sair de casa. Ocorre o mesmo efeito num placebo também.

“Fazemos coisas porque nos trazem prazer psíquico, porque nos ajudam a crescer. Acho que o mais importante é o poder da crença. Isso diz muito sobre a psique humana”, diz o escritor Dan Pink.

Críticas são péssimas para o progresso

Se quiser que alguém melhore, elogie. As críticas tendem a nos colocar cada vez mais pra baixo e nos desanimar quanto à possibilidade de atingirmos nosso melhor.

O escritor Dan Pink explica que tem a ver com a sensação de afetar o ambiente. Se você é criticada, você olha o contexto e sente que já não está mais no controle. Quando é incentivada a dar o seu melhor, toma as rédeas e percebe que é capaz de gerar algum tipo de impacto.

Se divertir enquanto trabalha é mais produtivo

Trabalhamos melhor quando o foco está na diversão, não no dinheiro. Levantar todos os dias para trabalhar só porque precisamos da grana no final do mês diminui bastante nosso rendimento. Diferente ocorre quando sentimos prazer em realizar aquela atividade. #ILoveMyJob

Isso muda, claro, dependendo da atividade. Numa área mais criativa, funciona pouco. Já numa área em que se exige mais concentração, o foco nos rendimentos pode ajudar a manter a concentração.

“Achamos que basta colocar dinheiro na frente das pessoas, e se sairão melhor. É verdade em alguns casos, mas, para tarefas criativas, é menos verdade do que pensamos. Fazemos coisas porque nos trazem prazer psicológico, nos ajudam a crescer”, explica o escritor Dan Pink.

Cada faixa etária tem um cheiro único

Essa é boa: cada faixa etária tem um cheiro próprio, único. Acontece com os bebês, da mesma forma que acontece com os mais velhinhos. O designer multissensorial Jinsop Lee explica que isso tem a ver com um composto orgânico que produz odor. E não só em relação à idade.

O corpo saudável tem um cheiro diferente do corpo doente também. Segundo Lee, já houve casos de cães sentirem o cheiro de câncer em seus donos. Graças à descoberta, as histórias terminaram com final feliz.

Música é capaz de nos encorajar a loucuras

A música que ouvimos pode nos estimular ou nos desencorajar a fazer alguma aventura. Isso ocorre devido à liberação de hormônios.

O neurocientista Daniel Levitin explica: se uma música feliz nos acalma, pode estar liberando prolactina, que é um hormônio tranquilizante e pode nos gerar confiança; se a música feliz melhorou nosso humor, pode ter liberado serotonina e dopamina, o que nos deixa mais exploratórios. E se sentimos que as outras pessoas gostaram da música, pode haver liberação de oxitocina, que é o hormônio da confiança.

Estudos mostram também que a música encoraja o crescimento cerebral em bebês prematuros; saber tocar um instrumento musical aumenta partes do cérebro responsáveis por tomar decisões, focar a atenção e controlar impulsos. A música também ajuda a memória, alivia a depressão, reduz o estresse e melhora a função cognitiva.

Mais informações sobre música: pessoas que ouvem música juntas fazem mais sexo do que as que ouvem separado; e o sexo dura mais. Então, nada de abandonar aquela playlist, hein?!

O efeito de contexto prega peças nos sentidos

Existe um negócio chamado efeito de contexto, que interfere na forma como processamos o que é percebido por nossos sentidos. É como ver imagens de pedras na televisão e achar que, por serem pesadas, o aparelho de TV é mais leve do que naturalmente pensamos que seria. Ou achar que a água engarrafada é mais limpa do que a que sai da torneira, só porque um envoltório de plástico parece protegê-la.

“Nossos sentidos estão sempre nos enganando. Nossos sentidos são como um quebra-cabeça, um monte de informações chegam com lacunas e nossos cérebros as preenchem. Não são representações exatas do que está lá fora”, explica o neurocientista Daniel Levitin.



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