Uma mão vai no joelho, a outra vai na consciência

Quando eu era mais novinha, talvez no auge dos meus catorze anos, achava pagode uma coisa bem ruim. Pagode que eu digo não é o que o pessoal do Sul/Sudeste considera, mas a quebradeira que nós, baianos, conhecemos bem. Suingueira mesmo, de a gente escutar e não conseguir ficar parado. Bom, eu não conseguia.

Havia, sim, certo preconceito por causa da origem do ritmo, como também por causa das letras das canções. “Me dá / me dá patinha / me dá, sua cachorrinha” não é o tipo de música que a gente considera agradável de dançar. Lembro que certa vez curtia o verão numa praia do Litoral Norte e músicas assim ecoavam dos paredões dos carros. Dançávamos, claro, mas daquele jeito: uma mão vai no joelho, a outra vai na consciência.

Isso foi há cerca de dez anos, quando sequer parávamos pra analisar o que cada letra dizia. Uma vez ou outra isso acontecia, como quando a deputada Luiza Maia propôs que o poder público não contratasse bandas e cantores cujas músicas depreciassem a mulher. Justo, não é? Digno mesmo.

(Foto: Ilustrativa)

Hoje a gente já discute um pouco mais essas canções. A gente se atenta quando a letra parece abusiva demais. “Vai namorar comigo, sim / Vai por mim, igual nós dois não tem / Se reclamar, cê vai casar também / Com comunhão de bens” parece inofensiva, é fácil de gravar, mas quantas vezes já surgiram comentários do quanto ela era perigosa. A linha entre o romance e o sentimento de posse de outra pessoa é tênue demais. E quando surgiu aquele funk que dizia “Ai, safada / Na hora de tomar madeirada / A menina meteu o pé pra casa / E mandou um recadinho pra mim / Nós se vê por aí”? As pessoas ficaram preocupadíssimas sobre o contexto no qual se inseria esse texto. Seria uma tentativa de estupro? Seria o cara um psicopata que não aceitava um “não” como resposta?

De todo modo, nada pareceu tão chocante quanto o lançamento mais recente “Só surubinha de leve“, do MC Diguinho. A música repercutiu nos últimos dias por estimular o estupro. No refrão, diz-se “Taca a bebida / depois taca a pica / e abandona na rua”. A canção foi excluída das plataformas digitais e o MC lançou uma versão modificada: “Taca a bebida, depois taca e fica / Mas não abandona na rua”.

(Foto: Reprodução / Twitter)

Seria uma boa saída, não fosse a reação do próprio cantor diante das críticas. Circula no Twitter um print no qual ele diz que, se a música faz apologia ao estupro, “prazer, sou o mais novo estuprador”. “Apenas fiz a música da realidade que eu vivo e muitos brasileiros vivem. Viva a putaria”, diz. Depois, o próprio MC Diguinho divulgou um comunicado no qual fala que houve “conflito de informações” e que jamais iria “denegrir” a honra e a moral das mulheres, quando na verdade ele mora com a mãe, as irmãs e uma sobrinha.

E a chave dessa questão aparece exatamente aqui. Por dois motivos que digo a seguir.

Sexo não é problema. Funk também não.

Se uma pessoa cresce achando que o céu é amarelo, toda sua visão de mundo terá como referência o céu amarelo, não azul. Logo, se uma pessoa cresce em um ambiente onde os estímulos sexuais não são ordenados, no sentido de pudor e objetificação do corpo, a tendência é que a pessoa acredite que esse é o certo, o natural. Um dos grandes problemas enfrentados pela música feita na periferia é exatamente dizer com todas as palavras tudo o que eles querem dizer. Não há forma figurada, nem mesmo subjetiva. E não é errado isso. Nem é o certo. É algo que a gente precisa aceitar simplesmente por ser algo que existe, é parte da nossa cultura também. As razões de existirem, sim, são erradas – falta de atenção do poder público nessas regiões, baixa adesão escolar, famílias que surgem sem estrutura por herdarem a falta de atenção do poder público e por aí vai.

Apontar os erros da música é necessário para compreendermos a sociedade na qual vivemos, inclusive onde o acesso à informação não chega em sua plenitude. E aqui a gente entra na segunda questão desse problema.

Respeita a mãe, mas não a mulher.

“Não sou machista, tenho mãe e irmã”. Essa lógica perversa que tenta ensinar ao homem uma lição a partir do próprio umbigo pode até remediar, mas duvido que ensine muito. É perigoso que o homem respeite a mulher apenas sob a perspectiva que ele “tem mãe e irmã, imagina se fizessem com elas o que você faz com as mulheres na rua?”. Isso não garante que ele vai respeitar a mulher pela condição de ser humano que merece respeito e não ser subjugada por causa do seu gênero e do modo como seu papel foi desenhado em uma sociedade patriarcal. Não vem dessa lógica a ideia de que o respeito ao ser humano deve existir, mas a de que poderia ser a mãe naquele lugar.

E para além de criticar o ritmo ou que a canção fale de sexo, a gente deve reverter é a cultura da objetificação da mulher, de que o homem está naturalmente a um patamar acima e por isso pode fazer e acontecer, tacar bebida e o que mais achar que deve. Sinceramente, não tenho qualquer esperança de conseguir reprogramar a mente de marmanjos, mas acredito na eficácia de educar os meninos de hoje para que cresçam homens melhores. Homens que veem a mulher como igual – nos direitos, nos gostos, nos comportamentos, no que quer que seja.

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