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Um som que faz bem

Era noite de setembro de 2013. O bairro era o Rio Vermelho. Acho que Aymée e eu estávamos sem nada para fazer quando decidimos ir ao Festival da Primavera que a prefeitura promoveu naquele ano. Uma banda massa que eu não conhecia, mas Ay sim, se apresentava. Que bom que estávamos sem nada pra fazer. Foi ali que conheci o BaianaSystem.

Confesso que não sei dizer ao certo se já ali senti o que sinto hoje ao ouvir o mix de sound system com guitarra baiana. Por outro lado, lembro que o pagodinho com arrocha em “Terapia” foi certeiro. É a terapia do som que faz bem, já diz a canção. Pra fechar os olhos e deixar que intuitivamente o corpo siga o ritmo, expresse os passos que não expressaria se nos importássemos com o que existe ao redor. É liberdade.

Tem artista que exerce esse poder sobre a gente, né? Talvez não ocorra da mesma forma com todo mundo, como ocorre comigo, mas tem som que bate certo. E na busca por essa paz de espírito fazemos algumas loucuras. Tem gente que viaja quilômetros, enquanto outras pessoas não hesitam em investir a quantia que for necessária para chegar perto. Há também quem curte à distância, admira de longe, encontra a sintonia com o artista do conforto do seu lar mesmo. As experiências são inúmeras, diversas. Isso é bonito.

Particularmente, ocorre um pouquinho de cada jeito com aquela que é uma das minhas bandas favoritas. Começar o dia ao som de “Afoxoque”, por exemplo, é de alcançar uma serenidade gigante. Mas não se compara com a lavagem de alma que é se juntar ao mar de gente que segue o BaianaSystem. E participar das rodas, até se permitir à situação de massa, fazendo o que o cantor recomenda – “joga mão pra cima”, “bate palma pra segurança”, “é só amor“.

Mas que emblemática essa frase, porque é vibrando tal energia que a gente sai de uma experiência como essa. Ainda que o som seja gingado, que ninguém fique parado, que um roxo ou outro apareça no braço, é só amor. Recomendo um exercício pra facilitar. Feche os olhos e se deixe levar por “BembaDub”. Depois dê play em “Lucro (Descomprimido)”, para um pouco mais de gingado.

Na verdade, sugiro mesmo que você escute a versão de “Selva Branca” em parceria com Carlinhos Brown. Essa versão incrível me lembrou o Carnaval deste ano de 2018 – e que Carnaval! Nas duas vezes em que me vi em crise fui atrás do Navio Pirata para extravasar. Aquela música, a terapia do som que faz bem, nunca se fez tão real. Voltei pra casa com alguns quilos a menos, principalmente aqueles que carregava nas costas.

Gratidão.

Curiosa, jornalista e libriana. Mestranda no PósCom/Ufba, interessada nos valores - os meus, os seus, os de notícia e os humanos. Se piscar o olho, o cochilo vem, mas os olhos sempre estão abertos para uma série ou outra que desperte o interesse.

2 Comments

  • Alex Rocha

    O navio pirata contagia! Foi uma sensação ímpar quando ouvi pela primeira vez, a batida que vibra e arrepia o corpo todo. A mistura rítmica que te leva em transe. Seu texto foi perfeito!

    • Estela Marques

      Exato!! E a gente sabe que o negócio é bom porque não é toda banda que proporciona essa sensação. Obrigada pela visita! 🙂

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