Um parecer sobre as botas: Ruptura e o novo feminino

Dia desses, antes de uma aula começar, conversávamos sobre usar botas em cidades mais quentes. Paulinha Paz estava na conversa e de pronto defendeu o uso deste item até mesmo em Salvador, que tem o clima e a infraestrutura mais loucos que alguém poderia encontrar. De pronto, defendo que a gente use também. Talvez seja um pouco difícil ir além das canelas por causa da temperatura. De todo modo, vale o risco. Por outro lado, acredito que o estranhamento para usar tal calçado pode não se resumir às temperaturas.

Historicamente, a relação da mulher com as botas é irregular. A presença constante deste item na sapateira feminina data de mais ou menos a transição dos anos 1970 para os 1980. O que não quer dizer, no entanto, que nunca antes na história da moda as mocinhas puseram um par de botas nos pés. No início do Período Vitoriano (1837-1858), as botas apareciam em cano curto, usadas apenas para caminhar. Detalhe: os pés deveriam parecer o mais pequeno possível, porque este era um símbolo de refinamento da mulher e delicadeza física. É aqui que está meu ponto.

A bota só voltou a aparecer no look do dia feminino nos anos 1914, quando da Primeira Guerra Mundial. Mais uma vez a bota é dissociada da figura delicada e tida como feminina, porque nesse período a mulher teve que assumir postos de trabalho antes ocupados por homens. Daí surgiram as botas de amarrar de cano alto, que muitas vezes eram combinadas a looks mais práticos, como macacões (trabalho industrial), calções amarrados abaixo do joelho (trabalho agrícola) e saias até o tornozelo com paletós de corte masculino com bolsos (trabalho no transporte público). Sem que percebêssemos, construíamos, enquanto sociedade, a ideia de que bota não compõe o imaginário do que deveria ser feminino, delicado.

Talvez, e muito talvez, Marilyn Monroe tenha ajudado a desconstruir isso quando apareceu com jeans e botas de couro, como compunha o traje do vaqueiro do Oeste desde a popularização das calças jeans da Levi Strauss, nos anos 1950. Se antes era vista com vestidos de cetim, corpo marcado e diamantes, Marilyn traz uma nova imagem para a mulher no filme ‘O rio das almas perdidas’ (1954). Pessoalmente, acredito que essa aparição foi positiva por mostrar que uma mulher não deixa de ser sensual por usar peças não tidas como femininas, no entanto, deu margem para o efeito contrário também: o estilo western, associado ao vaqueiro, ao agreste, ao rústico, não tem qualquer elemento de “feminilidade”.

(Foto: Reprodução / Pinterest)

Independentemente, nota-se que desde então é crescente o uso das botas em diferentes contextos, a cada década um pouco mais: nos anos 1960, apareciam em propostas futuristas (lembre que vivia-se a Era Espacial, da chegada do homem americano à Lua), assim como no visual retrô chic, numa tentativa de recriar o passado; a geração dos anos 1970 foi inspirada pelas botas militares ‘Pinball Wizard’ criadas pelo figurinista Bill Whitten para Elton John (com cano longo e pedras coloridas no salto), os punks já abusavam da peça e as mulheres adotaram o calçado em situações cotidianas. A transição desta década para a seguinte, para mim, marca o que significa hoje usar botas.

Nessa fase, elementos que indicavam feminilidade e sensualidade foram substituídos pela silhueta desestruturada, volume nas partes de cima, pelo menos duas camadas de roupa… Os cabelos eram cobertos por boinas e não havia qualquer exposição da pele que não fosse do próprio rosto. A mulher demonstrava autoconfiança para usar peças que não davam forma ao seu corpo. E é exatamente o que usar botas requer.

Porque existe aí a quebra de paradigmas culturais. Em Salvador ou em qualquer cidade do Norte/Nordeste/Centro-Oeste, sob a justificativa das temperaturas elevadas, mas também sob a ótica do ideal de feminilidade que foi construído ao longo desses anos todos. Claro que hoje temos uma variedade de botas que se aproximam do delicado, principalmente essas em que o cano longo mais parecem uma meia de tão justas que ficam ao nosso corpo (alô, socks boots!). Outras, por outro lado, são mais pesadas, como aquelas cheias de tachas e correntes, ou aquelas que parecem mesmo com botas de vaqueiro, ou ainda as galochas, que protegem tão bem da chuva. Essa diversidade permite que você faça escolhas mais conscientes, conforme seu gosto, estilo e necessidade.

E não se engane, não, porque não há regras. E se elas existirem, pode questionar. Quem foi que disse que você não suporta pés quentinhos com as botas, estejam as pernas cobertas com roupas longas ou à mostra com peças mais curtas? E se você quiser enfrentar a temporada mais fria (ou menos quente?) da sua região com um item que se destaca, quem tem alguma coisa a ver com isso?

É importante apenas que se tenha em mente o conforto e a adequação para determinados ambientes e situações. E esse equilíbrio pode ser facilmente obtido com as peças que compuserem o visual.

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Fonte
Stevenson, NJ. Cronologia da moda: de Maria Antonieta a Alexander McQueen; tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.

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