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Sobre o peito de Bruna, o adesivo para mamilos e eles continuarem sendo polêmicos

A discussão no país Twitter durante o Carnaval teve como ponto central os peitos de Bruna Marquezine – isso antes de a Paraíso de Tuiuti desfilar todo seu protesto contra o presidente Michel Temer. É que a atriz ousou (e muito bem) ao sair em um bloco no Rio de Janeiro com os seios expostos, exceto por uma armação que cobriu parte deles e os mamilos. A briga foi: o peito da global é caído ou não?

Look de Bruna Marquezine para curtir o bloquinho no Rio de Janeiro (Foto: Reprodução / Instagram)

Honestamente, não me interessa. E isso não deveria interessar a ninguém além dela mesma. Surgiram nessa discussão vários argumentos de defesa, entre os quais o de que existe uma variedade enorme de formatos de seios, mas as pessoas estabeleceram como padrão o peito redondo e firme. Qualquer outro formato é tomado pra Cristo.

E esse parece ter sido o Carnaval dos dito cujos, porque não demorou muito para artistas colocarem seus peitos na rua com os adesivos para mamilos – também conhecidos como, segundo o Glamurama, “nipple tassels“, “nipple pasties“, “pasties“, “tapa-seios“, “tapa eles ou “tapa-teta“. Cleo [ex-Pires] chamou a atenção ao desfilar com um coração em cada mama, todos expostos ao centro de um grande coração cortado no abadá que vestia ao ir para um camarote. Ouvi de um programa vespertino de fofoca que era preciso ter peito – no sentido literal e figurado – pra segurar uma ousadia dessa.

Cleo arrasou na Sapucaí com essa customização no seu abadá. Tem que ter muito peito pra segurar uma ousadia dessa – e eu falo de atitude mesmo! (Foto: Reprodução / Instagram)

E aí a gente para e pensa: mamilos continuam sendo polêmicos, né?

Não conheço o site, mas encontrei um artigo no Universo Racionalista que sugere algumas explicações para isso. Assim como todo o corpo da mulher é sexualizado, os peitos o são em especial porque, segundo estudo realizado na Polônia, o inconsciente dos homens conclui que seios fartos e cintura fina são indicadores de alto potencial reprodutivo nas mulheres. Isso seria corroborado pelo antropólogo Frank Marlowe (década de 90), da Universidade de Cambridge, segundo o qual os seios femininos evoluíram porque seu formato e tamanho eram um bom jeito de os machos analisarem seus valores reprodutivos. Uma terceira tese foca no erógeno mesmo: o psiquiatra Larry Young concluiu que a atração masculina com os seios existe porque as mulheres se sentem estimuladas quando tocadas na região, de modo que as mesmas áreas do cérebro são ativadas quando há estímulos no clitóris e nas mamas (veja aqui).

Então quer dizer que toda a polêmica em torno dos mamilos é só porque os moços não conseguem olhar para o corpo da mulher sem erotizá-lo.

E aí voltamos à discussão sobre o adesivo para mamilos, que ganhou destaque num momento em que todos os telejornais faziam campanha contra o assédio, pelo “não é não“. Parece que desta vez a resistência feminina veio em duas frontes, sem qualquer timidez, aliando teoria e prática. Porque, como diz numa dessas montagens que circulam pela web, a fantasia usada não é uma permissão. Não-é-não! E como repetiu Julieta Palmeira, secretária de Políticas para as Mulheres da Bahia, tudo o que vem depois do “não” é assédio. Simples assim.

Anitta bem plena com o adesivo de mamilos. Fazer o suporte com tule pode ser uma alternativa para quem tem seios grandes. O que acham? (Foto: Reprodução / Instagram)

E eu sou obrigada a concordar com o programa de fofoca passado dia desses: tem que ter peito, muito peito, pra segurar o tal adesivo. E não digo da parte física, não, porque aí é reforçar mais um estereótipo. É atitude. É se empoderar do corpo que está sob seus cuidados nesta vida, gritar ao mundo que com ele você faz o que bem entende e assume as respectivas responsabilidades. Mas também obriga que cada um lide com os problemas que porventura venham a ter com o corpo humano e suas partes. Lembro que, na ocasião da exposição com nudez que foi proibida lá no Sul, alguém muito sensato disse que um corpo nu não é nada além de um corpo nu. A erotização está no imaginário das pessoas.

A atriz Giselle Batista compôs sua fantasia de um jeito divertido, mas não menos empoderado. (Foto: Reprodução / Instagram)

Talvez o inconsciente, numa tentativa de economizar energia, já associe a nudez ao sexo. Mas vivemos numa sociedade que avançou em algumas tomadas de consciência, principalmente naquela que diz respeito à objetificação do corpo da mulher e do papel que nós desempenhamos. Chegamos à conclusão de que vai além do sexo, vai além da reprodução, além do bel prazer masculino. É bom que o cérebro de cada um use um pouco mais energia para reprogramar a lógica vigente.

Curiosa, jornalista e libriana. Mestranda no PósCom/Ufba, interessada nos valores - os meus, os seus, os de notícia e os humanos. Se piscar o olho, o cochilo vem, mas os olhos sempre estão abertos para uma série ou outra que desperte o interesse.

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