Salvador ganha e-commerce de roupas clássicas e sustentáveis

“Vamos tirar tudo o que excede e ficar mesmo com o que é essencial”. Poderíamos falar sobre pessoas, energias e até mesmo responsabilidades, mas o contexto aqui se trata de roupas mesmo. A advogada Taiana Dantas e a arquiteta Vanessa Kiki se juntaram há um ano para desenvolver uma grife batizada pelo slow fashion e pela moda consciente, sustentável e de produção justa. O e-commerce Alend já está disponível (conheça aqui) e traz peças como biquíni, maiô, body, bermuda, camiseta, camisa social, calça, short, saia, vestido e macacão, todos inspirados no clássico. São itens atemporais, em cores neutras, produzidos em materiais orgânicos, com acabamento de qualidade. “Seria muito mais fácil vender aqui uma roupa 100% poliéster, que é muito mais barata. Poderia me preocupar também com uma mão de obra barata. Mas quando você vê algo barato demais, está saindo caro pra alguém”, explicou Taiana. O bate-papo completo com essa dupla de empresárias segue abaixo!

As sócias Vanessa Kiki e Taiana Dantas, no lançamento da grife e-commerce Alend (Foto: Paulo Kiki / Divulgação)

Como é que funciona essa ideia de criar uma grife sustentável com o propósito de reconectar pessoas à sua essência?
TD:
Eu e minha sócia, Vanessa, estávamos cansadas daquele guardarroupa cheio de roupas e vazio de significado, a sensação de você ter muita roupa, mas não ter o que usar, fazia parte do nosso dia a dia. A gente resolver fazer o armário cápsula, que você tem exatamente o que você precisa; tira o que excede e fica apenas com o essencial. A gente começou internamente a mudar nossos hábitos com relação ao vestuário. Eu sempre fui apaixonada por moda e Vanessa também, muito embora nossas formações sejam diferentes da moda – ela é arquiteta e eu sou advogada. A gente resolveu se unir pra concretizar esse sonho de abrir uma marca de roupa. Por que nossa marca de roupa é sustentável? Porque a gente tem muita preocupação com o meio ambiente, então todos os nossos tecidos têm preocupação em causar o menor impacto ao meio ambiente: são feitos com algodão orgânico, fibras naturais, algodão derivado de garrafa pet, nossa malha é biodegradável; a gente trabalha com linho e seda puros. Nossa preocupação toda com sustentabilidade vem disso, de se preocupar com o meio ambiente. A indústria têxtil é a segunda mais poluente do mundo. Pra gente não faria sentido abrir mais uma marca de roupa ou colocar ali roupinhas da moda como várias lojas, porque iria de encontro com nosso próprio sentimento de descarte.

Como surgiu esse estalo em vocês, essa mudança de consciência?
TD:
Acho que de uma crise existencial mesmo, de abrir o guardarroupa e falar “Meu Deus, qual o sentido disso tudo?”. Você entra na loja, os vendedores te induzem a comprar algo que você não precisa, às vezes você compra por influências externas. Acho que foi esse sentimento de “vamos tirar tudo o que excede e ficar mesmo com o que é essencial”.  E por que a peça é atemporal: se a gente trabalha com sustentabilidade, a gente busca causar menos impacto ao meio ambiente, evitar o descarte. Se a gente trabalha com sustentabilidade e tem peça que segue tendência, ela vai ser descartada no próximo verão. Seria um pouco contraditório a gente ter uma marca de roupa sustentável, mas que fica vidrada no modismo. E não é que nossas peças estejam fora de moda, elas são peças clássicas, atemporais, que você consegue utilizar em diversos tipos de circunstâncias – você vai sair de noite, vai pra um congresso, vai pra um jantar, vai trabalhar…

Qual o cenário de Salvador em relação à moda sustentável e atemporal, como vocês propõem?
TD:
Infelizmente nem todo mundo alcança ainda essa questão da sustentabilidade. Eu costumo dizer que as pessoas ainda vivem o padrão do fast fashion, com a mentalidade de cada vez consumir mais, com relação a qualquer coisa. É como se quanto mais você tem, mais importante você é. Mas a gente já tem visto bons resultados quando a gente conversa, mas a partir de agora a gente vai ter um termômetro melhor sobre esse retorno [por causa do lançamento da marca]. Mas eu acho que as pessoas estão começando a se conscientizar muito, não só com a questão da sustentabilidade e do meio ambiente. Eu trabalho em um centro espírita e percebo o quanto as pessoas buscam se especializar. Não é religião, porque cada um tem a sua, mas se espiritualizar, buscar algo que conforte. As pessoas estão se preocupando em comer melhor, em se vestir melhor, numa roupa que cause menos impacto ao meio ambiente, a uma comida que cause menos impacto ao meio ambiente. Em que pese seja um mercado ainda novo, é um mercado promissor e a cada dia que passa, acredito que as pessoas estão se conscientizando.

(Foto: Paulo Kiki / Divulgação)
(Foto: Paulo Kiki / Divulgação)

Você acha que o caminho da moda é esse, esquecer tendências e focar no que é clássico e multifuncional?
TD:
Eu acho. As pessoas estão cansando dessa necessidade de ter o tempo inteiro. As pessoas estão começando a se preocupar com coisas que realmente importam: sua espiritualidade, sua saúde, seus momentos com amigos e família, é você parar e ir pra uma praia. É fazer o que você gosta. A roupa é um acessório pra você ser feliz, não é o ponto crucial, o que há de mais relevante. A gente acabou se utilizando da nossa paixão, que é a roupa, indumentária mesmo, pra fazer algo que a gente acredita. A marca sustentável tem muita relação com empatia, você se colocar no lugar do outro. Porque, assim, seria muito mais fácil pra mim vender aqui uma roupa 100% poliéster, que é muito mais barata. Poderia me preocupar também com uma mão de obra barata. Mas quando você vê algo barato demais, está saindo caro pra alguém. Seria mais cômodo pra gente, mas o propósito não é esse.

Você falou da mão de obra. Quem é que faz as roupas da Alend?
TD:
Toda nossa produção é local, feita por mulheres, cooperativas, costureiras maravilhosas, mães de família daqui de Salvador, de bairros humildes. Tenho Vani, Eliana, Carol, Paulinha. Tem cooperativas especializadas em bolsas que estão desenvolvendo com a gente. A gente encontrou essas costureiras através das cooperativas. Tivemos reunião com várias e elas começaram a desenvolver. Elas são maravilhosas. É uma relação direta, contato direto. Se você olhar meu celular, é WhatsApp o tempo inteiro com todas; a gente se vê, a gente sai, compartilha mesmo. Nunca cheguei pra uma costureira minha e falei “Você vai ter que fazer por esse preço”. A gente pergunta “Quanto você quer receber com essa peça?”, “Quanto tempo você gasta pra fazer essa camisa? Quanto você acha que vale essa camisa?” e aí a partir do preço delas a gente consegue fechar. Geralmente, o preço que elas oferecem é o preço que a gente fecha. Tem que ter uma cadeia justa, tem que ser bom pra todo mundo. Se um só sai ganhando, o negócio não é legítimo, verdadeiro, não é genuíno.

Você falou sobre mão de obra, matéria-prima. Como ficam essas boas condições no repasse ao preço final?
VK:
A gente trabalha com valores honestos. A gente tem um preço abaixo do mercado, porque, como a gente vende pelo e-commerce, a gente consegue reduzir nosso custo fixo, então consegue reduzir nosso valor repassado para o consumidor. A gente também tem uma média de preço abaixo do mercado porque a gente vê que o consumidor precisa ter acesso a esse produto com matéria-prima de qualidade. A gente está trabalhando pra isso, comprando com fornecedor direto da fábrica, a gente não compra através de outros tipos de loja, a gente compra direto na fábrica porque consegue ter um preço reduzido.

TD: É importante registrar que quando a gente fala em “valores honestos” é muito subjetivo, o que é barato pra você talvez não seja barato pra mim. Tem peças de R$ 79,00 a peças de R$ 300. Não passa disso. O que a gente gosta de registrar é que valores honestos não significa que será barato pra você ou pra mim. O que a gente fala de valores honestos é que nossa matéria-prima é a melhor do mercado; as pessoas que produzem nossas peças ganham bem por isso, ganham o que elas querem ganhar. Nossa troca com as costureiras é muito genuína, de amizade. A gente utiliza a melhor matéria-prima do mercado, a gente utiliza seda pura, linho puro; nosso modal é certificado com algodão orgânico, tecidos biodegradáveis. Quando a gente fala de valores honestos é trazer a melhor matéria-prima do mercado com preço acessível. Nosso preço é bom e as pessoas que produzem estão ganhando com isso. Poderia ser menor, se fosse trabalho escravo ou se fosse um tecido sintético.

Atenção para o acabamento das peças. As costuras são bem feitas, botões e zíperes parecem bem pregados. A mão de obra é toda de Salvador, segundo Taiana Dantas (Foto: Moça Criada)

 

Uma das ideias da marca é se reconectar com sua essência a partir da roupa. De que modo vocês acham que isso é possível?
VK:
A gente pensa que a marca não pode definir um estilo do consumidor, porque hoje o que a gente vê no mercado é que muitas marcas que vivem um estilo. O que a gente quer não é que as pessoas sejam “estilo Alend”, mas que as pessoas usem aquela roupa e sejam “estilo Vanessa”, “estilo Taiana”, e com isso se olhar e falar “poxa, essa roupa faz sentido pra mim porque vou usar ela com um tênis, com um All Star, porque é mais confortável e representa mais minha identidade” ou “vou usar com salto, porque quero ser uma mulher elegante”. Então, com isso trazer o olhar pra dentro, como aquela roupa faz sentido pra você. A gente vai trabalhar com isso através das nossas redes sociais, levando com que as pessoas se conectem e busquem o autoconhecimento na hora de consumir, escolher bem uma peça que faça sentido. Através disso a gente acha que vai conseguir que as pessoas se reconectem, através dessa mensagem.

TD: E eu acho também que essa questão de se conectar com sua essência vai além. Nossa marca que a base é o amor, marca com muito propósito. Por isso que a gente se preocupa com o meio ambiente, se preocupa em você não seguir regras e determinações da mídia. Quando a gente fala em reconectar com o que importa é bem isso, se preocupar com o meio ambiente, se preocupar em sua roupa não te rotular.

É dissociar a imagem da marca com a imagem da pessoa…
TD:
Exatamente. A gente fala: a roupa não precisa comunicar mais do que sua alma. Então por isso que a gente não trabalha com muita estampa. A gente pensa em desenvolver peças com estampas, mas estampas atemporais – poá, listradas e geométricas – porque às vezes você vê uma estampa e já sabe que é daquele lugar, custou aquele preço. A gente não quer isso, não quer estereotipar ninguém. Vamos ter poucas coisas – boas – no nosso armário e gastar o tempo com o que realmente importa.

Como funcionou o processo de desenvolvimento das coleções, desde quando vocês tiveram a ideia da marca até hoje, em que ela está vendendo?
TD:
A gente contratou a estilista Marina de Luca, diretora do Fashion Revolution [movimento de fomento a uma moda justa, sustentável e consciente], que desenvolveu as peças com a gente. Muita coisa foi autoral, minha e de Vanessa, de eu ter uma peça em minha casa que eu amava, mas que não me sentia confortável às vezes porque o decote era um pouco profundo, enfim. Tiveram algumas peças que eram acervos nossos, meu e dela, e a gente aprimorou; a gente fez muita pesquisa, muita coisa a gente desenhou, muita coisa Marina fez. Foi um trabalho muito conjunto. Marina fazia as fichas técnicas, porque ela é profissional especializada. Toda a procura de tecidos foi Marina com a gente, procurando empresas que trabalham com sustentabilidade, se preocupem com a água. A gente buscou pessoas que tinham conexão com a gente. O processo durou um ano.

E quem é o público da Alend?
TD:
 Acho que o público da Alend são pessoas que se preocupam com coisas além da moda, em fazer o que realmente gostam, estar com pessoas que realmente gostam, independentemente do que se determine. Acho que a mulher Alend… A gente tem nossa persona, Beatriz, e é uma mulher trabalhadora, espiritualizada, que gosta de se alimentar bem, valoriza os momentos com a família e os amigos, gosta muito de viajar. Acho que a mulher Alend é a mulher moderna, que trabalha dentro de casa e fora, que corre pra alcançar tudo o que sonha, é uma mulher que tem sensibilidade maior para com o outro, com as pessoas que estão próximas. Espero que nosso público sejam pessoas conectadas com um propósito maior. Prefiro que esse público seja realmente verdadeiro, de pessoas que pensam no outro, que têm empatia pelo outro, do que pessoas que simplesmente comprem e aquilo não tenha significado. Quero que as pessoas consumam e tratem a marca como um amigo confiável.

Compartilhe com as amigas
Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Share on TumblrPin on PinterestEmail this to someone

2 thoughts on “Salvador ganha e-commerce de roupas clássicas e sustentáveis

    1. Verdade, Nine!! Empresas que chegam com essa propósito, nós, consumidoras, que apoiamos essa iniciativa. Assim, quem sabe, a lógica possa mudar mais rapidamente. Beijo! Obrigada pela visita!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *