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‘Queria muito poder fazer com que todo mundo se amasse mais’

Se dependesse da escolha de um título para começar a escrever este texto, certamente ele demoraria a sair. Se dependesse da escolha de um trecho da entrevista para intitular este texto, sem sombra de dúvidas ele teria não só um, mas dois, três ou até quatro títulos. É porque Pedro Henrique – mas pode chamá-lo de “Um Cartão”, como dizia a camisa que vestia no lançamento do livro “Um Cartão para Você” – fala coisas inspiradoras não só nos cartões que publica diariamente no Instagram.

A ideia de não dizer muito sobre si mesmo no perfil que acumula quase 2 milhões de seguidores é puro reflexo do que ele demonstra publicamente. O máximo que o rapaz de 29 anos aceitou assumir foram seu nome, sua idade, sua profissão e o seu não-signo: seu nome é Pedro Henrique, tem 29 anos, é um sonhador e não-pisciano. “Acho que consigo passar melhor essa mensagem por não aparecer, porque aí tem menos preconceito, menos aquela repulsa do tipo ‘ah, eu acho ele mais bonito ou mais feio’, ‘eu acho mais interessante ou menos interessante'”, explica, depois de uma tarde de autógrafos na Livraria Leitura, no Shopping Bela Vista, em Salvador, no último dia 2.

O bom humor, a atenção e a calmaria com que atendeu ao público – adolescente, jovem e até mais maduro – deu o tom da entrevista que vocês podem ler a seguir.

(Foto: Divulgação

Já são quatro anos desde que saiu a primeira matéria sobre o Um Cartão – do Zero Hora, se não me engano – época em que você tinha 6 mil seguidores e preferência pelo anonimato. O que mudou nesse tempo, além de alcançar a marca de quase 2 milhões de seguidores? Cara, mudou muita coisa. É muito gostoso hoje olhar para esses quatro anos e meio de Um Cartão e ver tanta gente junto comigo, tantos  cartões publicados, tanta coisa que já alcancei graças a todas as pessoas que resolveram me acompanhar, acompanhar os cartões. Hoje já são três livros, tenho coleção de camisa, já trabalhei com grandes marcas aqui do Brasil. Só posso agradecer. Isso que mudou. Aprendi a agradecer mais tanta gente que resolveu fazer essa história junto comigo. Não tem fórmula secreta, não tem segredo, só agradecer e continuar espalhando as coisas bonitas, porque acho que é isso que a gente precisa.

Você falou em três livros. Assim como o perfil do Instagram, é de leitura fácil, rápida, mas não perdem em intensidade. Como você vê o papel desse tipo de leitura, diante de uma realidade em que 44% da população não lê, e a maioria lê livros em parte? Quando comecei a fazer o Um Cartão, eu tinha muito pouco tempo pra escrever, porque eu estudava pra concurso, e eu sabia também que as pessoas têm muito pouco tempo pra ler ou pouco interesse. Então, qual foi minha ideia: conseguir pensar em frases curtas e rápidas pra que a pessoa em um deslizar de dedos da tela conseguisse ler aquela mensagem e interpretar aquilo e seguir aquilo de alguma forma, deixar que aquilo tocasse o coração dela de alguma forma. E pra meio que compensar essa rapidez existem os livros, existem alguns textos maiores já no Um Cartão, uma nova fase de mais palavras para que mais pessoas leiam, para que as pessoas leiam mais. Apesar da simplicidade, foi como você falou, a intensidade é tudo e é nisso que eu acredito.

Vi uma entrevista sua ao Instagram em que você diz que desistiu de ser promotor de Justiça para se tornar “promotor do amor”. Que observações você faz da reação das pessoas às suas mensagens, ao passo em que hoje presenciamos tantas manifestações de ódio e preconceito? Eu sou muito feliz porque nos cartões existe muito pouco disso. A maioria esmagadora dos comentários é de amor, de pessoas se marcando em coisas legais e compartilhando mensagens positivas. Tem cartões com 10 mil comentários e é gostoso saber que as pessoas se engajam, conseguem ver aquilo de um lado bom. Como eu vejo as coisas ruins… Cara, sempre vai ter gente que não vai gostar ou sempre vai ter gente que vai disseminar o ódio, o preconceito,coisas horríveis. O que eu tento fazer nos cartões é levar mensagens positivas, levar mensagens de amor, para que a gente consiga vencer essa batalha um dia.

Você acha contraditório isso? Porque você tem 10 mil comentários legais e positivos, mas também tem um monte de gente que propaga o ódio de alguma maneira. Eu queria muito poder fazer com que todo mundo se amasse mais, mas eu sei que é uma tarefa difícil. Não vou desistir, acho que é possível, mas é isso que eu tento fazer: passar mensagens positivas para que as pessoas consigam perceber que é muito mais legal quando a gente faz o bem do que quando a gente faz o mal, ou dissemina qualquer coisa ruim.

Sabemos que é inspirador, correto, o ideal a fazer. Mas é difícil ter certeza que algo vai dar certo ou curtir mais a nossa própria companhia. É fácil pra você colocar suas “lições” em prática? Cara, não é fácil. Tem muitos cartões ali que eu não consigo colocar em prática, mas que eu escrevo pra eu conseguir.

Tipo quais?Ah! Tipo vários. São muitos….

Diga três. Diga três… As coisas que eu tento corrigir mais em mim, não cartões específicos. Eu tento ser um pouco menos orgulhoso, tento ouvir mais as pessoas e a perceber que os problemas dos outros também me afetam, no sentido de eu quero tentar ajudar cada vez mais. Acho que é isso: orgulho e esses outros dois. Os cartões que eu escrevo sobre isso são as coisas que eu tento melhorar em mim.

(Foto: Divulgação)

Uma curiosidade: O Instagram é uma rede social essencialmente de imagens, brinca-se no Twitter até que é lá onde as pessoas postam fotos arrumadas e felizes. Mas o Um Cartão faz sucesso apenas com frases. Você não aparece. De onde veio o insight pra explorar a rede social dessa forma?Muito tranquilamente, cara, porque eu queria ser capaz de tocar as pessoas pelas coisas que eu escrevo, não pela pessoa que eu sou por fora. Eu acredito que a gente é por dentro. Então não importa se eu sou alto,se eu sou baixo, se eu sou bonito, se eu sou feio. Isso faz pouca diferença pra mim. Eu quero que as pessoas gostem de mim a partir das coisas que escrevo, das mensagens que eu passo, da pessoa que eu tento ser através dos cartões. Não preciso que meu rosto esteja estampado pra conseguir passar essa mensagem. Acho que consigo passar melhor ainda essa mensagem por não aparecer, porque aí tem menos preconceito, menos aquela repulsa do tipo “ah, eu acho ele mais bonito ou mais feio”, “eu acho mais interessante ou menos interessante”. Na verdade, eu não quero esse julgamento físico. Quero que as pessoas estejam comigo por quem somos por dentro, isso que eu acho que é de verdade.

Mas visualmente os cartões coloridos foram uma estratégia? Eu sempre gostei de escrever, sempre tive muito material de papelaria em casa, então aconteceu. Falava “Ah, cara, quero escrever coisas bonitas e que fique visualmente bonito”. Foi assim que surgiu e é assim que eu tento sempre aprimorar os cartões, trazendo senso de estética um pouco melhor pra compensar eu não aparecer.

Imagino que o Instagram seja a principal plataforma para divulgação do seu trabalho, e hoje a rede social está mais profissionalizada do que estava há quatro, cinco anos, quando você começou. Seu processo criativo também mudou? As taxas de engajamento oferecidas pela rede social interferem na sua inspiração? É óbvio que eu me importo, mas eu não escrevo para ter likes. Escrevo porque acho que aquilo é importante ser dito naquela hora.Porque hoje, depois de quatro anos e meio fazendo Um Cartão, é muito tranquilo eu olhar para os cartões e saber o que preciso escrever ou fazer para que tenha várias curtidas, por exemplo. Então eu não me preocupo nesse sentido, prefiro que seja de verdade, que aquele sentimento daquele cartão naquela hora seja oque eu queria passar, o que eu estava vivendo. Não pra caçar likes ou ser um perfil mais curtido ou menos curtido. Eu tento sempre colocar o que está acontecendo de verdade, não forçar só pra conseguir curtidas ou coisas assim. É muito importante o Instagram ser profissionalizado, ter mais informações de acesso. Isso é importante para as marcas, principalmente, as marcas parceiras. Mas, pessoalmente falando, escrevo o que estou sentindo e nunca vou pautar osmeus sentimentos pelas curtidas.

Eles vêm, assim, do nada? Tipo, você olha para uma prateleira e pensa “Cara, posso pensar uma coisa bem profunda olhando essa prateleira”? Depende, depende muito. Tem inspiração em todos os lugares. Adoro falar sobre isso, porque inspiração é quando a gente consegue perceber o lado bom das pequenas coisas. Então tem inspiração todos os dias, em todos os momentos, até nas coisas que a gente acha só ruim existe coisa boa. Inspiração é quando a gente sabe olhar, aprende a olhar um pouquinho mais refinado para a sensibilidade, deixa aquilo te tocar de alguma forma. É fundamental pra você conseguir ser inspirado e deixar a vida te inspirar.

Pedro Henrique evita se expor, mas hoje ele revela: “Tento ser um pouco menos orgulhoso, tento ouvir mais as pessoas e a perceber que os problemas dos outros também me afetam” (Foto: Divulgação)

Você já tem livros, objetos de decoração, roupas e quadros. Que projetos você tem bolado para o Um Cartão, pelo menos pra 2019? Ah! Muitos planos, muitos planos. Já tem produto novo pronto que vou lançar ano que vem, que é segredo. Não é só o produto pelo produto.Gosto sempre de pensar o que as pessoas gostam de ter em casa, ou gostariam deter em casa ou no trabalho. Não é só pela venda. É pelo transporte de sentimentos da minha casa para a casa da pessoa. Todos os produtos são pensados com o maior carinho e cuidado. O ciclo do produto é esse: eu crio primeiro pra mim e coloco no Instagram para medir a emoção daquilo pronto. Quando alguém pede, tento fazer com que seja possível pra mais gente.

E para o futuro você não pode dizer mais nada ainda? (risos)Ah! Você vai me matar! (risos) Tem muitos segredos legais. A única coisa que posso te adiantar é que vão acontecer coisas lindas em 2019. De todos os tipos.

Um levantamento feito pela CAUSE e Ideia Big Data apontou que “mudança” foi a palavra do ano para os brasileiros – disputando na final com “medo”,”esperança”, “luta”, “mudança” e”caos”. Que tipo de mudança você gostaria de ver no nosso país?Eu quero muito que a gente aprenda a viver mais em sociedade, que a gente entenda que a gente é uma coisa só, que todo mundo está no mesmo lugar, que a gente precisa lutar para que coisas boas aconteçam pra todo mundo. Não quero um país dividido, não quero nada que distancie as pessoas. Acredito que as pessoas juntas podem fazer muito mais a diferença do que elas separadas ou lutando pela mesma coisa em lados opostos. Acho que tem que todo mundo lutar para que o país seja melhor, para que as instituições sejam melhores, que as pessoas sejam felizes. Quando tem mais gente feliz é muito melhor. É isso que eu desejo: que a gente aprenda a olhar para o outro e desejara felicidade dele, lutar pela felicidade dele também. Que a gente consiga perceber que é melhor quando mais gente está bem.

Curiosa, jornalista e libriana. Mestranda no PósCom/Ufba, interessada nos valores - os meus, os seus, os de notícia e os humanos. Se piscar o olho, o cochilo vem, mas os olhos sempre estão abertos para uma série ou outra que desperte o interesse.

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