Artes,  Opinião

Por que não podemos resumir ‘Bluesman’ a ‘músicas para cigarro e sexo’

Desde quando foi lançado no último dia 23, o álbum ‘Bluesman’ (EAEO Records), de Baco Exu do Blues, reacendeu uma discussão que volta e meia aparece vinculada ao rapper baiano. As músicas do artista, alguns dizem, são a trilha sonora para uma noite regada a sexo e cigarros.

A batida, nítida lembrança ao R&B, pode ser uma explicação. Mas precisamos entrar em acordo quanto a algo: não dá pra ignorar as inseguranças expostas nas canções, nem mesmo dá para manter o clima de sensualidade e tesão diante de apelos como “To entre tirar sua roupa e tirar minha vida / Procuro um motivo pra sair da cama e melhorar meu autoestima / Quero Balenciaga estampada na minha camisa / Faculdade ou seguir meu sonho / O que que eu faço da vida”, em “Me Desculpa Jay-Z”. Ainda que fale-se sem pudor sobre sexo, como num trecho de “Queima Minha Pele”: “Boca aberta e a intenção de um gemido / Seu corpo tem linhas que eu queria ter escrito / Queria largar seu corpo mas ele é tão bonito / Morde minha pele pra abafar seu maior grito”.

Um último acordo que precisamos fazer antes de seguirmos: não é porque falamos de sexo que é tudo sobre sexo.

Essa impressão pré-conceituosa logo deveria passar quando nos damos conta da capa do álbum. A foto de João Wainer, na qual um homem aparece tocando guitarra no Carandiru, reflete o que ‘Bluesman’ significa. Em entrevista ao Noisey, canal de música do Vice, Baco diz o porquê. “É uma quebra de tudo possível. Todo tipo de preconceito existente se quebra com aquela foto. Ela é muito forte, e isso é muito Bluesman”, afirmou. E quem parte em defesa (ou alerta?) da mensagem que o rapper quer passar em seu novo trabalho não o faz à toa, ou por mero “mimimi” racial.

Encarar ‘Bluesman’ como trilha sonora para alcançar o orgasmo, ou pelo menos desbravar os caminhos que levam o parceiro ou a parceira ao prazer, é minimizar uma carga de conflitos, emoções e batalhas travadas diariamente por pessoas como eu e você. Especificamente, homens e mulheres negras que cotidianamente buscam por sua autoestima e autoafirmação. Aquela mesma entrevista ao Noisey foi bastante esclarecedora nesse aspecto. O blues, para o jovem Diogo Moncorvo (nome de batismo de Baco), é amor, perda, dor e conquista. E ‘Bluesman’ fala disso. “Algumas pessoas podem ouvir só como love songs, mas as love songs desse disco têm contextos sociais que são bem brutais. Se você olhar, elas são bem mais sobre a fragilidade do homem negro do que sobre amor de fato”, disse ele à publicação. A música “Queima Minha Pele” ilustra bem, vocês podem ter notado no trecho destacado acima. Mas outro também chama a atenção para isso: “Fotografar meu medo é tão difícil / Fotografar insegurança é tão difícil / Eu disfarço tudo com cigarro, cerveja e sorriso”.

Em outra entrevista, desta vez à Folha de S.Paulo, Baco reforçou o recomeço incutido no álbum, como um “impulso para sair de baixo”. “É qualquer tipo de pessoa que já se sentiu oprimida, subjugada ou desvalorizada – e não quer mais estar nesse lugar”, disse ele. E é coerente com a realidade que o próprio relata ter vivido. ‘Bluesman’ sucede o disco ‘Esú’ (Cremenow Studio), resultado de um período conturbado e autodestrutivo em que ele conviveu com a depressão. Na entrevista concedida a Lucas Brêda, Baco reforçou a importância social do seu novo trabalho, dizendo que é pra fortalecer os negros da mesma maneira que ele foi fortalecido; “é mais sobre luta do que sobre celebração”. “Há apenas uma celebração pessoal. Passei por estágios de suicídio e não me matei, então, é algo que tenho de comemorar. Em um momento em que pretos são caçados, estou vivo. Temos que celebrar que estamos vivos, dar força aos nossos. Enquanto a gente ficar se lamentando, nada vai acontecer”.

Capa do álbum ‘Bluesman’, de Baco Exu do Blues. Homem toca guitarra no Carandiru. (Foto: João Wainer)

Ainda fica a dúvida do porquê alguém aposta no álbum como a trilha para o prazer. É preciso admitir, de todo modo, que não dá para determinarmos o que será gatilho do tesão de alguém. Não à toa existem diferentes parafilias, como cheirar roupas sujas, toque em materiais que sejam usados em áreas eróticas do corpo, sexo com fezes etc. (veja mais aqui). No entanto, precisamos considerar outros aspectos atrelados a esse imaginário. Não devemos descartar os esquemas mentais que fazemos quando somos estimulados por um elemento e imediatamente acionamos outros a ele associados.

Por exemplo. E se parássemos pra pensar que associamos blues ou R&B a um momento mais intimista, talvez pela velocidade da batida, o que de pronto nos faz associar ao que imaginamos ser ideal para o sexo? Ou se, na verdade, estabelecemos esta relação por serem ritmos representados por artistas negros, e nós fomos conduzidos a relacionar pessoas negras ao sexo, em um nítido indício de racismo estrutural ao qual estamos susceptíveis desde a colonização? E ainda no guarda-chuva do racismo, se descartamos qualquer mensagem densa, intensa e profunda em canções como essa porque não acreditamos de imediato que obras feitas por pessoas negras podem, sim, serem carregadas de mensagens densas, intensas e profundas?

Não tenho respostas, nem sei se há alguma correta. O criador da obra já disse a que (ela) veio. O autor do texto já estabeleceu parâmetros de interpretação da sua mensagem. Fugir disso é flertar com preconceito. E, mais ainda, desperdiçar uma bela oportunidade de exercitar a empatia, conhecer as dores do outro e usufruir de uma obra que não perde em nada para o The Carters, por exemplo – só pra ficar nos ídolos do próprio Baco.

Curiosa, jornalista e libriana. Mestranda no PósCom/Ufba, interessada nos valores - os meus, os seus, os de notícia e os humanos. Se piscar o olho, o cochilo vem, mas os olhos sempre estão abertos para uma série ou outra que desperte o interesse.

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