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O que esperar de 2019 e por que acreditamos nisso

As previsões para 2019 são as seguintes: é ano de Ogum, considerado o orixá da sentença. Se o ano que passou foi guiado por Xangô, aquele que tira a sujeira de baixo do tapete e faz cair as máscaras, Ogum seria aquele que continua a tarefa, mas dando a colheita justa a quem plantou. E ainda segundo os astros e a espiritualidade, 2019 também é o ano em que enfrentaremos os obstáculos que precisamos ultrapassar.

Segundo Nemi, astróloga que administra o perfil Nemi Astrologia no Instagram, 2019 será marcado por alguns movimentos importantes. A entrada definitiva de Urano em Touro no mês de março indica grandes mudanças na área financeira, na nossa subsistência e meio ambiente, com expectativa de avanço tecnológico e aceleração nessas áreas. Os efeitos devem ser vistos até 2026. Entre abril e maio, o mesmo Urano entrará em contato com Marte no mapa do Brasil, o que pode desencadear algum conflito ou momento desafiador.

Júpiter em Sagitário até dezembro deste ano tende a potencializar questões ligada às religiões, mitos e profetas. “O período teve início em novembro de 2018, já dando sinais desse direcionamento com a denúncia do médiu João de Deus”, explicou Nemi. Esse trânsito, segundo a astróloga, também põe em destaque o ensino superior. “Júpiter é benéfico, porém seu conceito está ligado à justiça e à verdade. Portanto, expõe e amplia tudo. Se as questões estão bem resolvidas, ótimo, ele mostra oportunidades. Agora, se não estão, ele tende a colocar um holofote nas situações para que enxerguemos a verdade”, acrescentou.

Thaísa Tenório, que administra as páginas Espiritualidade Luz Astrologia com Luz no Twitter e no Instagram, observa que essa clareza nos permitirá saber onde é necessário intervir para vencermos medos, dores e inseguranças. É como se 2019, portanto, fosse um ano para sairmos da zona de conforto e fazermos acontecer a evolução espiritual tão esperada. “Será um ano extremamente importante. Muitas energias estão chegando e há uma mudança interna acontecendo para todos. O despertar da humanidade está acontecendo cada vez mais intensamente e 2019 será um grande portal para a entrada dessas energias de limpeza e renovação”, explica.

Coincidentemente ou não, Nemi conta que o planeta está passando pela transição da Era de Peixes para a Era de Aquário, o que implica grandes mudanças para a humanidade. Fica evidente o conflito entre razão e emoção; o conservadorismo e nacionalismo se acentuam no mundo inteiro. A previsão é que esse movimento mais conservador se mantenha até 2020. “Porém o lado canceriano também começará a aparecer mais proeminentemente com os eclipses”, tranquiliza. Esse aspecto pode ser um sopro de esperança para os mais ansiosos.

É porque os eclipses nos signos de Câncer e Capricórnio chamam atenção para as nossas origens, relações familiares, lar. A tendência é que sejamos motivados a equilibrar as estruturas que nos cercam. Isso implica maturidade e capacidade de observação para onde existe necessidade de limites e restrição, onde devemos colocar amor e cuidado para que seja nutrido.

Sem perceber, Thaísa resumiu bem o que esperar de 2019: “Será um ano para sair da zona de conforto e realmente arregaçar as mangas e fazer acontecer nossa jornada de evolução e transcendência do ego. Ogum estará irradiando energia de força, ação, impulso e coragem para que consigamos vivenciar essa tarefa com plenitude”.

As leituras feitas aqui carregam instruções espirituais e astrológicas, ambas consideradas paranormais. Sem fazer qualquer juízo de valor, estas vivências se afastam do que é convencionado como normal em uma dada sociedade, num período específico.

No artigo “A Psicologia das crenças paranormais. Uma revisão crítica” (2011), Everton de Oliveira Maraldi, Wellington Zangari e Fátima Regina Machado dizem que essas vivências constituem manifestações psicológicas individuais e coletivas que ao longo do tempo se tornaram centrais à cultura e à sociedade, e tendem a constituir práticas específicas que são adotadas pelas pessoas.

Não à toa esta matéria tem como gancho o que esperar do ano novo, ou todo jornal impresso ou digital que se preze tem uma parte dedicada ao horóscopo do dia. Também não podemos esquecer as páginas dedicadas à astrologia ou a mensagens espiritualizadas nas plataformas de redes sociais, das quais a Espiritualidade Luz e Astrologia com Luz são algumas representantes.

Por que acreditamos?

Esse interesse pela astrologia cresce desde os anos 1960. O porquê desse interesse ou da crença nesse componente do que é considerado paranormal suscita algumas hipóteses. Em uma revisão teórica sobre a psicologia das crenças paranormais, Maraldi, Zangari e Machado (2011) consideram quatro explicações possíveis: marginalidade social, visão de mundo, déficit cognitivo e funções psicodinâmicas. A gente explica o que seria cada um desses pontos.

Marginalidade social – Essa hipótese considera que estão mais vulneráveis à adoção de crenças paranormais as pessoas que são menos favorecidas – baixo nível escolar ou socioeconômico, desempregados, negros, idosos, mulheres, minorias sociais de modo geral. Alguns autores acreditam que a marginalidade social decorre do fato de este não ser o discurso dominante em nossa sociedade, do mesmo modo que são os discursos científico e tecnológico. “Muitas dessas crenças e práticas não foram ainda plenamente institucionalizadas e permanecem no nível que Berger e Luckmann (2003) definem como ‘sub-universos sociais e simbólicos’, em constante competição com as visões dominantes”, escrevem os autores.

Visão de mundo – Segundo esta hipótese, tendemos a acreditar em astrologia para conferir sentido a uma realidade, da mesma maneira que a ciência faz. Isso ocorre a partir de fatores culturais, como socialização e formação de identidade. Desta maneira, as crenças paranormais fornecem elementos práticos e conceituais que permitem aos indivíduos explicar diferentes situações de suas vidas e lidar com outras. Ppor exemplo, se você e o crush combinam ou não; por que todos os aparelhos eletrônicos resolveram dar pane no mesmo período (alô, alô Mercúrio retrógrado!)…

Déficit cognitivo – Mais uma hipótese que flerta com o elitismo, por sustentar a ideia de que as pessoas que creem em paranormalidade seriam irracionais, ilógicas e/ou exageradamente crédulas. Logo, essas pessoas seriam pouco inteligentes e teriam funcionamento cognitivo abaixo da média, susceptíveis a adotar crenças absurdas. “Curiosamente, poucos estudos foram realizados nesse sentido e os resultados disponíveis são contraditórios”, observaram Maraldi, Zangari e Machado.

Funções psicodinâmicas – Esta é uma das explicações mais interessantes para o porquê de acreditarmos no paranormal. A psicodinâmica diz respeito a forças psicológicas que agem sobre o comportamento humano. Sob este aspecto, a crença estaria mais associada à necessidade humana de tornar tolerável o desamparo e debilidade diante de forças da natureza, segundo Freud. Já Jung relaciona o conjunto das crenças a uma tentativa da psiqué de restabelecer equilíbrio e buscar desenvolvimento e individualização, ou seja, as crenças paranormais serviriam a propósitos construtivos e saudáveis (bem estar subjetivo, enfrentamento, diminuição da ansiedade).

Ainda falando de funções psicodinâmicas surge a teoria da atribuição. E pode fazer sentido pra você, caso decida por à prova a assertividade das previsões astrológicas para o seu signo: a teoria da atribuição pressupõe que todo mundo é motivado a descobrir as causas de eventos e acontecimentos, para compreender o ambiente em que está inserido e a si mesmo. Aquelas pessoas que acreditam tendem a considerar eventos e experiências como paranormais, e a atribuir relevância à influência de fatores ambientais em suas vidas mais do que sua própria personalidade. “Em contrapartida, indivíduos descrentes quanto à existência do paranormal apresentam um estilo de atribuição mais próximo do lugar de controle interno, manifestando a crença de que possuem maior controle sobre os eventos de sua vida”, ponderam os autores.

Não estamos aqui para desencorajar sua fé ou te fazer questionar a veracidade de campos que transcendem a normalidade à qual estamos submetidas. Mas é curioso atentar para fenômenos que existem para a psicologia, como o Efeito Barnum. Este, inclusive, é um ponto sobre o qual analisar a crença que temos em astrologia, embora não responda em um nível mais aprofundado. É que, segundo Guenia Buchaft e Helmuth Krüger, em artigo publicado há oito anos, o Efeito Barnum consiste em aceitar descrições vagas e gerais sobre a personalidade como sendo exatos, reais, verdadeiros.

O termo foi designado pelo psicólogo Paul Meehl, em 1971, quando se referia ao ilusionista norteamericano Phineas Taylor Barnum, conhecido por sua capacidade de manipulação psicológica coletiva. Esse efeito de validação subjetiva também foi observado por Bertram Forer, cujo estudo demonstrou que as pessoas tendem a aceitar como precisas as descrições pessoais de personalidade.

“As avaliações de personalidade formuladas de forma vaga, geral, ambígua e favorável são propícias à ocorrência do Efeito Barnum, sendo consideradas ingenuamente pela pessoa como exatas. Isso explicaria por que, em relação aos horóscopos, por exemplo, tanto os astrólogos como seus leitores concordam em que os feedbacks fornecidos são exatos, refletindo traços e tendências da personalidade de uma pessoa com probabilidade de acerto superior ao acaso”, concluem os autores.

Talvez essas possibilidades façam sentido pra você – uma delas, duas ou todas. Thaísa Tenório, a conselheira astrológica sobre quem falamos no início desta matéria, tem uma explicação transcendental para este fenômeno: é energia, vibração. E isso explica facilmente o momento de instabilidade e confusão que estamos vivendo numa proporção macro.

“Toda sujeira sendo evidenciada no mundo é simplesmente um resultado da limpeza que está sendo realizada no próprio coração das pessoas. Chegou a hora da grande mudança, e para mudar é preciso limpar. Não há como o novo chegar se o velho não for embora. Todo contexto social, político e econômico que estamos vivendo é simplesmente a exposição do que estava escondido e que agora, de uma vez por todas, será eliminado do nosso Planeta”, explicou.

Que hipótese te convence?

Leia mais:
Efeito Barnum: Por que acreditamos em horóscopos
Relações entre traços de personalidade mensurados por testes psicológicos e signos astrológicos
A Psicologia das crenças paranormais. Uma revisão crítica
Credulidade e Efeito Barnum ou Forer
Clique Ciência: Por que cientistas dizem que a astrologia não funciona

Curiosa, jornalista e libriana. Mestranda no PósCom/Ufba, interessada nos valores - os meus, os seus, os de notícia e os humanos. Se piscar o olho, o cochilo vem, mas os olhos sempre estão abertos para uma série ou outra que desperte o interesse.

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