Nossa realidade é muito Black Mirror

Estamos em janeiro de 2017 e a gente ainda fala que alguma coisa é muito Black Mirror quando surpreende ou chega a ser tão bizarro?! Sei lá, a ilustra em que o pai prefere compartilhar no Facebook que sua casa está pegando fogo antes de tomar alguma providência… Ou quando a gente critica tanto um sistema até conquistar um espaço dentro dele, porque aí a gente vai se tornar igualzinho ao que era alvo das críticas… Ou quando algum asiático resolver inventar um jeito de trazer de volta alguém que já morreu. Ainda é tempo de dizer que tudo isso é muito Black Mirror, não é?!

Do jeito que as coisas estão, acho que essa expressão vai ser atual por alguns anos. E isso é tão assustador! É porque muitos episódios refletem bem o que vivemos hoje, embora não reconheçamos essa realidade. É duro. Se a gente encontrar na rua alguém em uma situação inusitada, possivelmente a primeira reação de muitos será pegar o celular, ativar a câmera e começar a filmar. Vemos isso em situações felizes, como em shows e apresentações, imagina em se tratando de alguém alvo de perseguição, a pé, no meio da rua? O episódio ‘Urso Branco‘ (S02E02) assusta mesmo. O desfecho eu não vou contar, mas já adianto: é mais assustador ainda.

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

Basicamente, a série original Netflix faz apostas de como será nossa relação com a tecnologia no futuro, e isso vai além de um dispositivo tipo smartphone. Não é muito o que propõe o episódio piloto, ‘Hino Nacional‘, em que o primeiro-ministro é desafiado a transar com uma porca em rede nacional em troca do resgate de uma princesa do Reino Unido. Mas na segunda temporada mesmo, o episódio ‘Volto Já‘ (S02E01) sugere que a ausência de um ente querido em função da morte não mais será um problema. Imagina que louco um serviço em que a gente dá todas as informações virtuais da pessoa e isso nos permite falar com ela, como se do além? Mais doido ainda: já pensou materializarem nosso ente querido e um boneco chegar na nossa casa, se propondo ser aquela pessoa que se foi? Ué, ela não foi mais?!

A morte também passa a ser vista como, definitivamente, um além em um dos episódios mais confusos da terceira temporada. ‘San Junipero‘ (S03E04), no entanto é um amorzinho depois que a gente passa a entender a dinâmica. É porque tem alguns episódios de Black Mirror que a gente passa 40 minutos assimilando informações para entendê-las apenas no final. Não gosto muito, porque depois me questiono se entendi da maneira correta, aí me sinto meio idiota (hahahaha!). Mas o episódio é lindo, lindo, lindo, e traz o romance homossexual, entre duas mulheres, algo bem difícil de ver em produções artísticas com apelo do grande público.

Em termos de tecnologia, essa temporada mais recente me parece ser a melhor. Primeiro porque mostra o caminho da dependência que estamos seguindo quando se trata de redes sociais digitais. Precisamos compartilhar o mesmo espaço ou somos excluídos da sociedade (aqui virtual e física, porque ambas se misturam; o que acontece no online repercute no off), somos julgados a partir daquilo que compartilhamos nessas redes e da quantidade de likes que recebemos (quanto mais engajamento, mais as pessoas te querem por perto). Sem contar que cometemos loucuras para chegar nesses níveis de aprovação e, principalmente, quando a média diminuir e estamos em ‘Queda Livre‘ (S03E01). Segundo, porque eu não duvido nada que nossos sentimentos – hoje ainda no campo abstrato, mas capazes de fazer estrago – sejam forjados como entretenimento em jogos de realidade virtual. Eu super recomendo que vocês assistam o episódio ‘Versão de Testes‘ (S03E02) pra facilitar o entendimento aqui. E é muita tensão. Não entrarei em detalhes, ou corro o risco de dar spoiler. Melhor não.

Mas termino com meu terceiro ponto, que é o uso literal da tecnologia para nos “ajudar” (muitas, muitas aspas aqui) a identificar potenciais ameaças à nossa estabilidade. Em ‘Engenharia Reversa‘ (S03E05) um soldado começa a perceber que, por alguma razão, ele não compartilha com os colegas a mesma visão acerca de um determinado grupo social. Isso já existe hoje, mas é construído, demora mais tempo para se fortalecer e perder espaço. Neste caso, os avanços tecnológicos estão a serviço desse propósito. É mais um favorito meu, que recomendo demais a audiência. Uma horinha só!

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

Espero pelas próximas perspectivas da nossa sociedade que Black Mirror é capaz de apostar. Minha expectativa é que a narrativa se desenvolva com mais fluidez nos episódios, para que a gente não espere tanto por cenas que poderiam ter acontecido desde antes, sem muita enrolação. No final das contas, o que me foi vendido como uma série sobre tecnologia foi capaz de surpreender. Quem me recomendou com essa definição o fez errado. Black Mirror nada mais é, ao pé da letra, o reflexo do que somos hoje. E isso é bastante assustador.

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2 thoughts on “Nossa realidade é muito Black Mirror

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