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Não é só uma cor: Living Coral chama atenção para crise ambiental

Foi-se o tempo que moda e tudo aquilo que lhe rodeia era considerado futilidade, sem qualquer vínculo de relevância com a realidade. Saber a cor do ano tem ido além do que investir, de qual cartela de cores adotar na decoração da sala de estar ou compreender por que todas as vitrines parecem monocromáticas. A Pantone aposta no Living Coral como a cor de 2019 e parece não ser à toa.

No site do instituto, o tom vívido de fundo dourado traz como explicação a nossa busca por experiências autênticas e imersivas, que permitem conectividade, intimidade, sociabilidade e espontaneidade. Nada como sermos nós mesmos, alegres, otimistas, crentes de que a experiência humana vai melhorar. A diretora executiva Leatrice Eiseman chegou a dizer que o Living Coral é um verdadeiro equalizador das realidades naturais e digitais dessa nossa experiência. “Consumidores anseiam por conexões mais humanas e por conectividade social, qualidades expressas pelo alegre e acolhedor Living Coral, que acerta em cheio, preenchendo esta busca”, observou.

Mas a escolha do Living Coral chama a atenção para algo mais sério, que deveria ganhar espaço maior nas nossas rodas de conversa. Sabemos que a poluição das praias é um problema para a vida marinha, porque frequentemente somos tomados por notícias sobre tartarugas marinhas que comem canudos, ou peixes que têm plástico no seu organismo.

E o impacto ambiental sobre os recifes de corais?

Uma reportagem da Time sobre a cor do ano destaca dois aspectos: o tanto que estamos conectados à tecnologia e a nossa preocupação com os recursos naturais, o que estamos fazendo com a nossa natureza, o esgotamento dos recursos naturais de modo geral. Esta mesma cor, que anima e afirma a vida, parece gritar para a preservação de um ecossistema que fornece meios de subsistência para centenas de milhões de pessoas – peixes, caranguejos e lagostas vivem toda ou parte de sua vida junto aos corais -, apoia mais de um quarto da vida marinha e protege comunidades e costas de desastres naturais.

Levantamento feito pelo setor de Meio Ambiente da Organização das Nações Unidas (ONU) coloca os recifes de corais como a principal espécie ameaçada de extinção em todo o mundo. Pelo menos três quartos dos recifes de corais do mundo estão sob risco. Por causa disso, o ano de 2018 foi escolhido pela Iniciativa Internacional para os Recifes de Coral como o Ano Internacional dos Recifes de Coral.

Está claro para qualquer um que o destino dos recifes de corais do mundo está pendente na balança. No momento, essas explosões submarinas de cor e vida enfrentam um futuro extremamente sombrio. As expectativas para essa coalizão não poderiam ser maiores. A proteção dos recifes de coral deve se tornar uma prioridade global. Os recifes de coral precisam de um acordo melhor

Erik Solheim, chefe da ONU Meio Ambiente

A maior ameaça às espécies é a poluição por protetores solares, segundo a ONU Meio Ambiente. Um estudo de 2015 aponta que até 14 mil toneladas de protetor solar são “lavadas” anualmente da pele de banhistas e mergulhadores em todo o mundo. A substância oxibenzona é a vilã dessa história. Embora ajude a barrar os raios ultravioletas responsáveis pelo câncer de pele, a substância química torna os corais mais vulneráveis ao branqueamento. Neste caso, os corais expelem as algas que vivem sobre eles, ficando sem o tradicional revestimento colorido. O prejuízo ocorre porque as algas são fontes primárias de alimento para os corais.

Ainda de acordo com informações da ONU Meio Ambiente, empresas do setor estão resistentes à culpa e apontam outros fatores como motivo da deterioração desses ecossistemas, como mudança climática e despejo de outras substâncias poluentes nos oceanos. Por outro lado, já existem produtos “coral-friendly”, que usam óxido de zinco ou dióxido de titânio em sua composição.


A cor do ano de 2019 é o Living Coral (Foto: Reprodução / B9)

De todo modo, países membros da Convenção sobre Diversidade Biológica já se reuniram para proteger os recifes de corais. Um encontro realizado em novembro, no Egito, estabeleceu esta como a prioridade global. A estimativa é que 70% a 90% dos recifes de corais sejam perdidos nas próximas décadas, ainda que executem-se as ações necessárias para estabilizar a temperatura ambiental – isso porque o aquecimento das águas do oceano também é prejudicial à vida desses seres.

Não é o primeiro – nem tom de coral, nem ativismo
O coral, não necessariamente a tonalidade 16-1546, parece mesmo ser a cor da vez. Em outubro, a Pantone criou o tom Unignorable em parceria com a ONG United Way, para destacar problemas sociais. A intenção era chamar a atenção de canadenses para questões como pobreza, desemprego, isolamento social, violência doméstica, fome e falta de moradia. Essa cor já pintava aqui pelo Brasil, país que compartilha estes mesmos aspectos negativos. Será que agora encontramos um motivo mais politicamente aceitável para colorir o cotidiano?

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Curiosa, jornalista e libriana. Mestranda no PósCom/Ufba, interessada nos valores - os meus, os seus, os de notícia e os humanos. Se piscar o olho, o cochilo vem, mas os olhos sempre estão abertos para uma série ou outra que desperte o interesse.

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