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‘Não é cada um comprar o seu copinho dobrável que vai resolver o problema’

Já faz algum tempo que “consumo consciente” é a expressão da moda no mundo da moda. Comprar só o que for usar, aderir aos brechós, apostar em peças de segunda mão, observar o preço das peças, prestar atenção à qualidade do tecido da peça cujo preço passamos a reparar… Vocês entenderam.

Tudo isso em prol de uma causa bem maior: um mundo ecologicamente sustentável e melhores condições de trabalho na cadeia produtiva da moda. A consultora de imagem e estilo Ana Fernanda é um dos nomes engajados nesse movimento aqui em Salvador. Há pouco mais de três anos ela criou o Justa Moda e representa o movimento Fashion Revolution Brasil na Bahia.

“Tive uma cliente de consultoria que ela sozinha tinha dez portas de guarda-roupa só pra ela. A cada sessão de consultoria, ela comprava mais roupas e sapatos. Eram cinco sessões. Ela não era pessoa rica, pelo contrário. Estava endividada, menina de classe média baixa, estava maluca endividada por causa de moda. Ali foi o ponto de virada. Isso não tava normal”, lembrou, em um bate-papo com o blog.

Seu ponto de vista sobre o tema, no entanto… Bom, foge um pouco ao que estamos acostumadas a ver por aí. É que, para Ana, o consumo consciente não vai salvar o mundo. Confira a entrevista abaixo para entender o porquê.

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Em dezembro do ano passado, você apresentou no TEDx a ideia de que o consumo consciente não vai salvar o mundo, indo na contramão do que muito se diz por aí. Por que a gente acredita que essa é uma alternativa?
Não sei. Minha hipótese pra isso é que a gente aprendeu a se tratar como consumidor, não como cidadão. Nós nos vemos como pessoas consumidoras, a gente hipervaloriza as atividades de consumo que tem. Então, como a gente se vê como consumidor, a gente acha que uma atividade de consumo vai resolver o problema. O que eu explico é: foi o consumo excessivo que nos colocou nesse caos socioambiental que a gente vive hoje, então não vai ser pelo consumo que a gente vai resolver. O caminho é, uma das coisas, reduzir o consumo.

E quais são as outras alternativas para salvarmos o mundo?
Olha, eu falei no TEDx sobre três coisas. Uma delas é a gente se ver como cidadão, como sujeito ativo nesse mundo; se entender como parte desse coletivo, participar de movimentos, estar juntos com outras pessoas que pensem e encontrar soluções semelhantes. Não é cada um comprar o seu copinho dobrável, seu canudo, na sua casa, que vai resolver o problema . A gente precisa de soluções coletivas. Isso é uma coisa. Também fazer as perguntas certas para as marcas. Esse argumento do sustentável, do consciente, do propósito, é um argumento de marketing, e às vezes a gente escuta isso e não pergunta. A gente simplesmente ouve a marca dizer que é sustentável ou que é consciente e aceita. Então é perguntar as coisas certas: Por que isso é sustentável? Que redução de impacto você está promovendo de fato? Quem fez essa roupa? Quanto essa pessoa que fez a roupa recebeu? Perguntar minimamente o porquê quando uma marca trouxer um argumento. Isso vale para produtos sustentáveis também. Por que esse copo é melhor do que um copo descartável? As pessoas sabem por quê? Tive essa conversa com uma amiga. “Ah, mas o canudo de inox gasta água e sabão pra lavar, então também está gastando coisas. Não é melhor usar o descartável?”. Faz sentido a pergunta dela. Ela está perguntando. Não é simplesmente alguém vender e você aceitar. Por que é melhor, se eu vou gastar água e sabão e sabão polui, compõe o esgoto? E aí eu conversei: “Olha, é verdade, mas a produção de um de plástico e o descarte dele, ele vai ficar bastante tempo na natureza, então o consumo de água diante disso…”. E tem uma coisa, eu acho que a palavra “consciente” não resolve o que a gente precisa, porque às vezes a gente é consciente de coisas e isso não muda o nosso comportamento. Você está super consciente que Coca-Cola faz mal, mas está lá super tomando a sua coquinha. Eu sou essa pessoa. Consciência por si só não resolve nosso problema agora . A gente precisa de ação, de responsabilidade diante do consumo e de comprometimento pra mudar nossas ações. São essas coisas.

Como você observa essa relação consciência versus comportamento aqui em Salvador? É mais consciência e menos atitude?
Não sei. Salvador é grande, né? E eu vivo numa bolha que pensa mais sobre isso, então é difícil avaliar. De certa forma, as pessoas que me conhecem sabem que eu me interesso por isso, então elas me convocam pra conversar, me dão a impressão que há uma percepção crescente. A palavra “consciente” eu acho confusa, porque pode dizer muita coisa. Se você cai, bate a cabeça e desmaia, você tá inconsciente; se você acordou, você está consciente. Então, o que é isso mesmo? Mas eu acho que tem, sim, uma percepção de que precisamos mudar comportamentos. O que também é muito sério, porque isso às vezes vem junto com uma culpa. A gente precisa mudar, mas a gente tem fontes poluidoras muito maiores do que eu e você. A agropecuária consome muito mais do que escovar o dente todo santo dia. Tem que ser uma responsabilidade que não venha junto com culpa; ela não pode ser ingênua. Isso tem a ver com consumo individual, que “minha ação de consumo vai resolver tudo”, que “minha ação de fechar a torneira…” Não vai. Agora, a sua ação de saber em quem você vota e se aquele deputado apoia a bancada ruralista, que apoia o agronegócio, que polui muita água, isso muda. É preciso fechar a torneira, mas é preciso também ficar de olho nesse macro, de onde vem essa roupa, a pegada de carbono disso, o tanto de água que isso consome, o que acontece depois que você não quer mais essa peça de roupa, de celular, qualquer coisa. Isso faz mais diferença. Não que a gente vá deixar água jorrar enquanto escova os dentes, mas ambas as coisas têm pesos diferentes e a gente precisa saber disso.

Engajada no slow fashion e na moda mais ética, Ana Fernanda nos recebeu na Loja Guapa, quando se preparava para uma oficina de bordado (Foto: Moça Criada)

A gente tem muito isso com relação à roupa: não vou comprar muito, porque quanto menos eu compro, menos a indústria produz, então diminui o impacto. Por outro lado, a gente tem também com o descarte do que não quer mais, que destino dar. E a indústria, o que deveria fazer com o que não utiliza mais? Como podemos balancear esses dois lados?
Hoje já tem pesquisas pra reciclagem de tecido, mas tecido é um produto que perde muito valor quando reciclado, então, de verdade, o que acontece com a grande indústria é que ou é despejado em aterro ou é incinerado e libera para a atmosfera gases poluente. É isso. O poliéster, que é plástico, polímero, é a coisa que está mais próximo de ser reciclado como produto de valor semelhante ao original, até onde eu sei. A questão da reciclagem é: o que é reciclado perde muito valor, cai. O vidro fica igual, alumínio também. Tecido, não. O tecido que sai reciclado é muito ruim, então ele vai virar estofamento de automóvel, aquele cobertor cinza usado por pessoas em situação de rua, que se desgasta em pouco tempo. Ele não fica igual. Esse é o problema da reciclagem em tecido, porque não compensa financeiramente. Tem um negócio social que recicla tecidos, que é a Retalhar, de São Paulo. O que não pode ir pra doação, ele tritura e transforma nesses cobertores. Mas é um problema, não tem o que fazer. A doação, pra gente, classe média consumidora mundial, virou nosso grande álibi pra poder comprar mais. Doar para o Centro Espírita, pra Igreja, para o inferno, pra poder liberar o armário e comprar mais coisas. E a gente tem países que viraram lixo da classe média consumidora. Uma amiga, Mari Pelli, foi pra algum país da Ásia e ela fez um vídeo do tamanho do depósito de roupas que o país recebe dos Estados Unidos. Não tem pobre pra tanta roupa , dito simplesmente assim. O volume de peças doadas é muito superior ao que as pessoas precisam. É uma conta que não fecha.

Você acha que o volume de brechós cresceu por causa disso, dessa ideia de consciência na moda?
Não sei, talvez. Tem muitas coisas aí. Os brechós cresceram num momento de crise econômica muito severa, então tem também esse fator. É mais barato comprar uma roupa legal num brechó do que em uma loja. Tem uma crise econômica associada, sim. Tem também o contexto da crise socioambiental que lançou o olhar pra isso. Há todo um mercado de outras coisas de segunda mão que os brechós foram nessa rabeira. Se eu compro um celular de segunda mão, não posso comprar uma roupa de segunda mão? Tem mudanças de mentalidade que podem ser interessantes. Não saberia dizer o que ganhou, pode ser multifatorial. Mas vejo essas coisas todas: crise econômica, crise socioambiental, outros segmentos. Tem tecnologia mais bem resolvida pra isso, como Mercado Livre, OLX, Enjoei. A tecnologia contribuiu pra simplificar e agregar valor a coisas interessantes para o brechó. Tem pesquisas que dizem que daqui a dez anos a maioria das pessoas terá mais roupas de segunda mão do que roupas novas. Há otimismo no segmento de brechós. Vamos ver. Acho que é uma coisa bem interessante.

“Não tem pobre pra tanta roupa , dito simplesmente assim. O volume de peças doadas é muito superior ao que as pessoas precisam. É uma conta que não fecha”, Ana Fernanda (Foto: Moça Criada)

Um estudo de inteligência de mercado aponta que as lojas de departamento se tornaram o maior ponto de vendas de roupa. Quão problemática é nossa cultura de ainda alimentar uma indústria que não dá garantias de sustentabilidade ou condições de produção? A gente não sabe como eles fazem…
É um modelo que é predatório o modelo fast-fashion em si. É muito rápido, muita produção. Incita um consumo em alta velocidade, extrai matéria-prima demais, descarta muito rápido. É muito problemático a gente ainda ter as fast-fashions como principal lugar de compra. Nem digo mais que são as mais baratas, porque tenho sérias dúvidas com relação a isso. Essa última coleção da C&A, ‘5 Mares’, tem roupas feitas na Loja Guapa em escala menor e feitas à mão com o mesmo preço. Roupas legais, de linho também. A gente tem o argumento do preço, que é mais barato, mas realmente não tenho certeza se é tão mais barato assim. Tem coisas que são bem caras e bem ruins. Mas ao mesmo tempo, há mecanismos de controle social que tornam as lojas mais permeáveis. Por exemplo, a C&A hoje é uma fast-fashion que assumiu compromissos socioambientais muito claros no Brasil, de monitorar cadeia produtiva, rescindir contrato com fornecedor que seja flagrado usando trabalho escravo. É uma marca que assumiu internacionalmente o compromisso de usar algodão orgânico até um tempo, só usar matéria-prima que seja certificada. A Renner patrocinou o Brasil Eco Fashion Week, em São Paulo. Tem coisas interessantes acontecendo vindas dessas lojas, enquanto tem lojas de grife – M.Office, Le Lis Blanc, Animale – que se fecham super na sua visão de grife, público AAA que não vai parar de comprar porque a marca foi flagrada numa batida do Ministério do Trabalho. É difícil enxergar um pouco mais longe do que isso. O modelo em si é ruim, predatório, poluente, só funciona se for crescente e quanto mais cresce, mais a gente consome, mais a gente polui…

E tirar esse hábito das pessoas é bem difícil, né?
É, porque a gente aprendeu a comprar roupa em shopping. Por um tempo a gente aprendeu a fazer roupa, ter roupa feita por alguém. Isso foi desmontado na década de 1990, quando as fast-fashions deram essa inflada, e aí a gente aprendeu a comprar roupa barata em shopping – barata em termos, porque se a gente fosse mandar fazer talvez ficasse mais caro. Comprar bom tecido, ter bom corte, daria mais trabalho e sairia mais caro. É difícil ter uma marca como C&A dizer pra uma pessoa “olha, compre menos”, porque ela vive de que a pessoa compre mais, e divide, inclusive. Mas ao mesmo tempo tem coisas interessantes, então, é difícil. Não tem uma resposta fechada pra isso.

O Fashion Revolution até chama atenção pra essas questões. Como estão os preparativos pra edição desse ano?
Não estão, mas vai ter. No ano passado, a gente fez muita coisa. Foram 14 oficinas, uma sessão de cinema na Sala de Arte da Ufba [Universidade Federal da Bahia]. Exibimos o filme River Blue, que fala sobre o impacto da produção do jeans nos rios do mundo, principalmente da Ásia. Além do tingimento azul, o agrotóxico do algodão, tem esses químicos que dão efeito desgastado. A gente exibiu esse filme, fez bate-papo, fez mil loucuras, um encontro de trocas de roupas bem legal.

Você falou do Brasil Eco Fashion Week. Como está a situação da moda sustentável no Brasil hoje? O que você destaca de mais interessantes pra gente acompanhar?
Tem muitas iniciativas legais. Acho que o Brasil Eco Fashion Week é o nosso grande evento, porque o Fashion Revolution é massa, o Brasil acho que é o país que tem mais participantes, é ótimo participar da rede enquanto país, mas ter criado um evento nacional sobre o assunto pra discutir as coisas sob a nossa ótica… Foram três dias de muitos talks e oficinas, olhando o mesmo problema sobre vários ângulos: tecnologia para produtos mais sustentáveis, inovação na cadeia produtiva pra menos resíduo, comunicação mais inclusiva na moda. O Brasil Eco Fashion Week apresentou novas iniciativas e novas marcas, novos modelos de negócio. A gente tem ainda um olhar pra moda assim: “quero trabalhar com moda, vou criar uma marca”. Não tem que ser só criar uma marca. Banco de tecido é um negócio em moda. Não é uma marca, é um negócio que distribui tecido excedente para marcas que queiram trabalhar com isso. E é moda. Não é fazer roupa. É o que eu quero fazer com a Justa Moda: ser moda, mas não fazer roupas, criar produtos. Tinha um negócio incrível lá, que não era moda, mas uma tecnologia de captar carbono do ar em produtos. E aí tem um fio feito de carbono que foi captado do ar, e aquilo pode ser usado para costura. Tinha armação de óculos feita a partir da captação de carbono, fio, etiqueta. Mesma questão vista de muitos ângulos, com desfile das marcas. Muito legal. Tem boas discussões saindo dessa galera de São Paulo, que organizou. É um negócio que tem pra onde ir. Temos muitos desafios, de não virar apenas mais uma marca eco, mais uma marca verde, mas vejo de forma muito positiva. Acho que o problema é o capitalismo. Substituir pelo quê? Não sei. O sistema complica muito o problema. O Brasil Eco Fashion Week dá outra perspectiva: é pelo capitalismo que eles querem resolver. Pra mim foi um pouco chocante ver. Teve uma palestra que o cara falou exatamente isso. Quais são os caminhos para a solução da crise? Aí ele apresentou a primeira lâmina: “Olha, um caminho as pessoas falam que é o decrescimento econômico. Eu acho que não vai acontecer. Sendo realista, o mundo não funciona assim. Não vai haver decrescimento econômico. Todos os países querem crescer, as marcas. Acho que o caminho é crescimento, criar tecnologias que permitam crescimento que seja ecologicamente sustentável”. Fica aí para a reflexão, porque crescer implica reduzir custos; reduzir custos implica extrair de qualquer jeito, e pau no lombo do trabalhador. Reduzir custos é isso, para vender mais. Mas aí sou eu elucubrando. É o tal beco sem saída. Enfim, tem essa pegada de que é pela economia que a gente resolve. O que é bem legal, porque se a gente ficar falando só pra quem é da “Ursal”, o negócio não vai andar. A gente tem que ampliar esse discurso. Talvez seja um caminho.

Curiosa, jornalista e libriana. Mestranda no PósCom/Ufba, interessada nos valores - os meus, os seus, os de notícia e os humanos. Se piscar o olho, o cochilo vem, mas os olhos sempre estão abertos para uma série ou outra que desperte o interesse.

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