Moda funcional é melhor do que aquela “diferentona”?

Desde quando emergiu na época da burguesia no século XVIII até hoje, a moda tem passado por mudanças incrivelmente práticas e revolucionárias. Abandonamos vestidos longos, anáguas*, a pompa dos anos 1920, peças sem qualquer impacto prático na vida de homens e mulheres para dar lugar a uma indumentária mais funcional, principalmente para as mulheres. Observando brevemente a rotina minha e daquelas que me circulam, não saberia dizer como seria a vida sem calças, bolsos e grandes bolsas.

A partir do momento em que as mulheres foram obrigadas a assumir a força de trabalho deixada pelos homens que participaram da Segunda Guerra Mundial, passamos a conhecer o doce veneno da funcionalidade na moda. Veneno, sim, porque a gente acostuma e isso pode se tornar “prejudicial” – tipo aquela coisa “não sei se estou representando minha personalidade nessas roupas ou apenas usando uma calça, uma blusa e uma sapatilha”. Não que isso seja errado, inclusive, aqui vem o meu ponto principal desse texto, a parte doce de uma vestimenta funcional: ela funciona.

O dicionário Priberam da Língua Portuguesa define “fun-ci-o-nal” como relativo às funções vitais, que funciona bem ou que é de fácil utilização – ou seja, prático -, que permite efetuar alguma coisa da melhor maneira- ou seja, operacional. Bonito o que a moda se tornou nesses tempos modernos, afinal, rompe com as tradições. Se antes apenas meninos usavam calças, as meninas passaram a precisar desse tipo de vestimenta para viabilizar algumas tarefas requeridas no trabalho. Se os tecidos antes eram delicados e suaves, tornou-se necessário o uso de matéria-prima mais resistente e mais barata, já que em tempos de guerra os recursos são limitados. A funcionalidade assumiu um lugar que parecia vazio.

Assim foi nos anos seguintes, quando as peças cumpriam o propósito de vestir, representar uma identidade, passar uma mensagem – sem entrar no mérito das inspirações para cada peça, claro. De uns tempos pra cá têm me chamado a atenção alguns modismos que pouco contribuem para essa funcionalidade. Aqui eu me deixo ser convencida por Lars Svendsen, em Moda – Uma filosofia, quando ele diz que a moda é irracional e contraditória, apesar de se assemelhar à modernidade por romper com tradições. “Consiste na mudança pela mudança, ao passo que a modernidade se vê como constituída por mudanças que conduzem a uma autodeterminação cada vez mais racional”, ele escreve, na página 25.

Calça da grife Opening Ceremony, cujas laterais são feitas com tela transparente. (Foto: Divulgação)

Me convenço dessa irracionalidade quando, por exemplo, uma marca lança uma bolsa transparente, na qual todos os objetos guardados – e que deveriam ser protegidos – se tornam, na verdade, a estampa daquele item. Ou quando, mais recentemente, uma grife norteamericana decide lançar uma calça jeans com tela de painel transparente nas duas laterais, do quadril até a barra, deixando toda a lateral da perna à mostra. Detalhe: a calça deve ser usada sem calcinhas.

Não sei dizer ao certo que pretensão possui essa grife ao lançar uma peça desse tipo. De todo modo, não parece algo que a cidadã comum usaria – no máximo uma blogueira famosa e descolada que, sabemos, não é tão gente como a gente assim. Talvez exista aí o desejo de ser “instagramável”, chamar a atenção nas redes sociais pela ousadia, por ser cool, substituir o velho jeito de fazer por um novo, substituir o igual por algo diferente, ainda que o diferente não faça tanto sentido. É como diz o mesmo Lars Svendsen ao citar o filósofo Gianni Vattimo, segundo o qual a modernidade é uma era em que ser moderno é um valor: ser moderno torna-se sinônimo de ser novo. Sem contar que as calcinhas cumprem um papel importante de proteção às nossas partes íntimas. Daremos atenção a elas – as calcinhas – em outro momentp.

Mas, até aí, ok para a grife queridinha das famosas conhecidas por usar peças diferentonas, como a Rihanna. Como entender, então, uma marca que lança bolsas transparentes, num momento em que tanto se rouba e furta nas ruas? Por que, por outro lado, as pessoas adquirem esse tipo de item? Até que ponto vale à pena expor o que você carrega? Redes sociais não são suficientes?

Sou #teamfuncionalidade, porque aprendi nos tempos de escola a reconhecer a importância de uma moda que esteja a nosso serviço. Ter dois bolsos na camisa me ajudavam a guardar o celular, documentos importantes e dinheiro num lugar acessível. O short-saia poderia ser até meio sexista por diferenciar os meninos das meninas, mas dava o conforto das pregas costuradas, de modo que pulávamos, subíamos, descíamos, sem qualquer preocupação com qualquer constrangimento.

Não digo aqui que é errado ter uma peça cujo design põe à prova seu propósito enquanto vestimenta. Nem digo que dessa água nunca bebereis, afinal, não sabemos o calor que será feito no dia de amanhã. De todo modo, acredito que vale à pena a reflexão sobre o que a moda representa para você. Se ser uma exposição de arte – que se dissocia por completo do caráter prático da roupa – ou se uma pessoa que tem seu próprio estilo, gosta de peças que funcionem e usa a moda a seu favor. É escolha. Mas vale pensar um pouco antes de fazê-la.

Compartilhe com as amigas
Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Share on TumblrPin on PinterestEmail this to someone

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *