Língua Franca: Realidades para todo mundo entender

Descobri Emicida há pouco menos de um ano. Já sabia que ele existia, fazia ideia do que ele cantava, mas só parei pra ouvir depois de uma aparição no programa Altas Horas. Também rapper, conheci Rael há pouco mais de um ano. Foi aleatoriamente, numa dessas playlists do Spotify. A primeira música dele que ouvi foi ‘Vejo Depois‘ e ele ainda assinava como Rael da Rima (hoje parece que é só Rael, né?).

Quando dei por mim que esses dois moços sempre faziam coisas juntos, passei a não desgrudar. Até que em maio deste ano tive notícia de um projeto novo com uma dupla de rappers portugueses, Capicua e Valete. Estamos falando de ‘Língua Franca‘, um dos melhores projetos musicais que já ouvi na vida.

E o nome é bem sugestivo: língua franca é a linguagem que um grupo multilíngue de pessoas adota ou desenvolve para que todos possam se comunicar uns com os outros. E ainda que Brasil e Portugal compartilhem similaridades no idioma, Língua Franca canta realidades que algumas pessoas talvez não tenham percebido. E será que não é exatamente por isso que ele foi criado? Um jeito de tornar um contexto acessível a qualquer pessoa?

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A música ‘Gênios Invisíveis‘ é um bom argumento para isso, como numa perspectiva de quem vive as ruas e por isso mesmo não merece ter menos valor. “Que em cada calçada que eu estava, estava lá mudando o mundo / Muitos não percebiam que ali havia som de conteúdo / Ninguém viu” emociona. É como se fosse um sopro de energia para aqueles que correm atrás do que é seu, em defesa do que crê e do seu povo. Me emociona ler, mais do que ouvir, o seguinte:

“Toda gente olhou a pedra / E ninguém viu o diamante / Toda gente olhou a tela / E ninguém viu ali a arte / Chapéu vazio no chão e um céu cheio de estrelas”.

Língua Franca também cumpre seu papel de denúncia e crítica social. A faixa ‘(A)tensão!‘ não deixa que passem batidos os dramas vividos lá, em Portugal e Europa, e cá, no Brasil. “Mundo escuro / Medo de um futuro nulo / Tudo é soturno / Europa ergue o seu muro, juro / (…) Sós no arame farpado / Naufrágio, o barco afundado / Só mais um corpo encontrado / Morto de morte matada”. De um lado, a Europa se fecha ao fenômeno da imigração e impede socorro àqueles que fogem das guerras civis e crises que assolam seus países. De outro, “um Brasil que fecha escola pra inaugurar cadeia”, e está cada vez mais preocupado (e desesperado) em remediar a impedir que o problema surja.

“Silêncio de tumba na sala / Quer ser livre? Leva bala / Epidemia conformista sobre a qual ninguém fala / Infantes com grilhões / Mentes pensantes nas prisões / E o mundo procurando Nemo, ignorando os tubarões”.

Nota: Vocês precisam ouvir essa música toda para entender a força do que ela diz. Não dá pra ter dimensão do significado de tudo isso através de trechos. Sério.

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Mas se eu tiver que eleger uma música que me toca mesmo, essa é ‘A Chapa É Quente‘. Tem ritmo, tem ação, tem uma crítica social fortíssima que eu consigo enxergar aqui do meu país Salvador. Reflete muito bem a sensação de medo e de que vivemos em um constante fogo cruzado, seja por causa da guerra do tráfico contra o Estado, seja por causa da guerra do tráfico entre eles mesmos.

“São tribos inimigas, exércitos e fronteiras / São guerras, são brigas, quebradas são ruas / E ruas virando trincheiras / E se trombar, noiz vai cobrar / Quer olho por olho, dente por dente / A chapa é quente”.

Sinto um pouco de aflição por causa da realidade relatada nas músicas acima, por saber que isso existe tão perto, mas que ainda não há muito o que eu possa fazer. E quem pode certamente não ouvirá esse som, e, se ouvir, muito pouco se importará em modificar esse contexto. Uma pena. Por outro lado, a aflição dá lugar a uma maré de plenitude quando escuto ‘Modo de Voo‘. É uma música que traduz a necessidade que a gente tem de ser livre para estar em paz e da necessidade de fugir de tanta intriga, crise, do sofrimento. Atualiza as definições de “jogar tudo pra cima” com o trecho “Eu tô numa de relaxar / Nem o Google vai me achar”.  Me impressiona também a facilidade que eles têm em encaixar elementos do cotidiano tão divertidamente.

“Ana é o meu nome, mas hoje mudei pra Bela / E vou ficar adormecida, fechada no meu castelo / E vou ficar adormecida, fechada no meu castelo / Ai de quem abra a janela, que eu exijo proteção / Do Greenpeace, sou preguiça e entrei em hibernação”. 

Mas não limitee Língua Franca a essas músicas que elegi como preferidas. O álbum inteiro, em todas as suas dez faixas, é incrível! Claro que não há um momento propício para ouvi-lo; que você pode, sim, apertar o play em casa, no carro, no trabalho. Mas experimenta curtir esse som para começar o dia e para terminá-lo – chegando em casa, tomando um banho, deitada na cama pensando em nada. Acho que você vai se sentir flutuando, tamanha viagem que as letras e o beat proporcionam. Eu me sinto assim. Inclusive, estou assim agora, enquanto escuto o álbum para escrever esse texto e sorrio feito boba lembrando da sensação que tenho quando o escuto. Mais metalinguagem im-pos-sí-vel!

Deixo esse link do YouTube com o álbum completo. Espero que goste. Me diga depois o que achar. Beijo no core!

As fotos usadas são de divulgação.

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