Isabela Capeto avalia incêndio seis meses depois: ‘Escolho a vida, e na vida acontece essas coisas’

Sem percebermos, a vida nos coloca próximas de pessoas que dialogam com o que acreditamos. Na última quarta-feira (12), fomos cobrir a abertura do projeto Estações, do Salvador Shopping, que desta vez dava as boas vindas à temporada de Primavera-Verão 2019. Tivemos a oportunidade de conhecer a estilista Isabela Capeto, proprietária de uma marca homônima que se destaca por peças marcantes e cheias de personalidade.

Uma novidade entregue no bate-papo com a imprensa é a preparação de uma coleção inspirada na Bahia. Hoje, ela tem pesquisado sobre orixás, fotografado o que vê na rua, observado a alegria e o colorido do povo baiano. “Liberdade que interessa muito. Fora a religiosidade, que acho fascinante. Quero fazer uma Bahia tipo tudo”, antecipou.

Com um ar espirituoso, e imagem que lembra o místico, Isabela Capeto parece fênix. Em entrevista ao blog Moça Criada, ela contou seu processo de renascimento após um incêndio consumir seu ateliê e levar consigo 20 anos de história e 600 modelagens – noção suficiente de um prejuízo que não foi contabilizado.

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Como é que você recebeu a notícia [do incêndio no ateliê], do primeiro momento até essa reconstrução que foi resgatar o que conseguiu, continuar a coleção que você estava preparando?
Ah, foi tipo bem difícil. Assim, não foi fácil, sabe? Meu pai passou por acaso na frente da onde era o ateliê e viu que tava pegando fogo, me ligou e eu fui lá. Foi horrível, mas é uma coisa que a gente não tem escapatória. São coisas que acontecem e independem da gente. Eu tenho um pensamento na minha vida que eu acho que tudo na vida da gente é pra melhora, então acho que era uma coisa pra começar de novo, era pra aquilo mesmo acabar, era muita coisa que eu carregava há um tempo. Eu meio que penso por aí…

Tinha seus 20 anos de carreira naquele ateliê?!
Pois é. Queimaram todas as minhas modelagens, eram mais de 600 modelagens. Mas, assim, vai fazer o que, né? É você aprender que é isso. É bom tentar fazer de uma outra maneira. Sempre ver de uma possibilidade que você pode dar as cartas de novo e não ficar ali amarrado a coisas do passado. É fazer tudo de uma outra forma, de uma outra maneira.

Como foi que você fez isso de começar do zero, pegar modelagens, tecidos? Como foi esse processo?
Acho que minha cabeça é assim mesmo. Eu já passei por outras coisas que foram difíceis na minha vida e acho que minha cabeça é dessa maneira, que se acontece uma coisa a gente tem que tentar ver aquilo da melhor maneira possível e tentar transformar aquilo num bem, não ficar num drama. Porque, se ficar num drama, vida que passa. E acho que vida é isso: posso escolher ter uma vida ou ficar numa vidinha. Acho que eu escolho a vida, e na vida acontece essas coisas – coisas ruins, coisas boas. Não é porque a gente é do caralho que não vai acontecer coisas ruins.

Vamos considerar que esse incêndio tenha sido um marco na sua vida. O que você consegue perceber de diferença no que aconteceu nos 20 anos iniciais de sua carreira e o que deve acontecer nesses próximos 20 anos?
Eu, na verdade, o incêndio foi no final de março, então eu ainda estou… Por mais que sou pessoa que estou fazendo minhas coisas, o negócio está indo. Agora não posso ver o que isso mudou em minha vida, sabe? Agora estou transformando minha vida, redimensionando tudo, vendo o que eu quero fazer, se eu quero ter loja ou não, se quero de repente ficar num outro formato, num formato de coleções-cápsula e fazendo cada vez mais essas parcerias e licenciamentos, que é uma coisa que gosto muito. Não sei ainda.

O que te faz ter dúvidas? O que você pondera antes de tomar uma decisão?
O Brasil tá passando por um momento difícil, e eu acho que cada vez mais as pessoas gostam muito quando as coisas chegam em casa. A gente tem uma loja, mas a gente acaba mandando muita coisa para as casas das pessoas. Ou mesmo ter uma loja, mas de uma maneira diferente. Acho que tá num momento, do mundo mesmo, em que as pessoas têm que refletir e pensar no que elas querem fazer, sabe? Lojas momentâneas, lojas-cápsula, ou juntar uma loja com várias pessoas. Não dá pra não prestar atenção nas coisas que estão acontecendo. A gente tá com uma crise, tá difícil pra todo mundo. É momento para as pessoas olharem mesmo pra dentro e pensarem no que elas podem mudar, transformar, fazer uma coisa mais legal, se unir. Estava hoje mesmo falando sobre isso. Não cabe mais no mundo a pessoa ficar no “bloco do eu sozinho”, sabe? Não querer trocar com o outro, dar uma informação; não querer que o seu funcionário trabalhe com você e com outras pessoas também. Isso é legal. Liberando ele pra fazer outras coisas, você também tá ganhando outras coisas, outras experiências. Acho que isso é o moderno. Aquele pensamento da pessoa que é só ela sozinha, acho ultrapassado.

Mas aí a gente ainda está pensando nisso. Esse movimento não finalizado, digamos assim, atrapalha ou ajuda em seu processo criativo?
Acho que tudo o que aconteceu comigo no incêndio me fez pensar nessas coisas todas, cada vez mais. Era uma coisa que eu já pensava, porque acho que minha roupa é uma coisa moderna, roupa do futuro, que mexe com a pessoa, muito artística, atemporal. Mas aconteceu tudo isso na minha vida, que eu não esperava – imagina perder 600 modelagens, o seguro me pagar só 30% do que tinha que me pagar?! Aí você começa a pensar: “Será que eu quero mesmo fazer isso?”. Eu peguei o ateliê e botei dentro da minha casa, não sobrou pedra sobre pedra. Daí você começa a refletir o que quer fazer da sua vida. Quando acontece alguma coisa, se você não é uma pessoa vazia… Sei lá, eu acho que sou uma pessoa que tem uma espiritualidade, eu busco, tento olhar em volta, os outros…

Como você consegue atingir essa espiritualidade pra encarar não como um sofrimento, como “fui mal abençoada pela vida”? Como chega pra alcançar essa espiritualidade?
Acho que é uma coisa minha mesmo. Eu jamais pensaria isso, nossa, Deus me livre. Eu nunca penso. Por que a vida ia ser cruel comigo? Pô, eu sou tão legal, faço uma coisa tão bacana. São coisas que acontecem, eu acho, que não é porque você é legal que não vai acontecer coisa ruim pra você, entendeu? É isso. Aconteceu. Foi um acidente. A pessoa tem que tentar ver isso como “pô, foi um acidente, mas como é que eu vou transformar isso numa coisa que foi boa pra mim?”. Não tem sido fácil. Pra mim tá difícil. Tive que mandar pessoas embora, tive que cortar custos, tive que reduzir, fazer tudo de novo. Mas é isso. São coisas que acontecem.

Foto: Roberto Abreu / Divulgação

Você falou sobre slow fashion, coleções-cápsula. Esse movimento ajuda a pensar roupa hoje – você que pensa roupa e estilo? Isso ajuda ou atrapalha? Não sei, talvez numa visão bem senso comum, se você faz roupa pra durar, você vende menos, então não tem como se sustentar. Como você observa esse movimento, que tem sido fortalecido?
Tudo bem, a minha roupa é atemporal, feita pra durar, passa de mãe pra filha, mas ninguém deixa de comprar. Não acaba isso. O consumo fica de outra maneira, e aí eu acho que tudo muda. O consumo das pessoas vira de uma outra maneira e o meu também vira de outra maneira. Acho que as pessoas estão repensando isso, de se emprestar mais, de se ajudar mais, de ficar mais econômica, de um jantar na casa do outro. Isso eu estou falando de pessoas normais, da gente, classe média, classe média alta, ou até mesmo as pessoas mais ricas estão começando a pensar nisso. É mico hoje em dia você sair com uma bolsa de marca, bolsa toda grifada; uma bolsa que custa 60 mil reais, quando tem um monte de gente morrendo de fome. Acho que não é legal. As pessoas compram minha roupa porque é um desejo. Elas vão lá, juntam dinheiro, compram, acho muito legal. Mas também minha roupa é cara, mas não é absurda. Meu vestido mais caro – tudo bem, é um super vestido de festa – custa 4 mil reais. É caríssimo, mas é uma coisa que dá pra você comprar, dividir várias vezes. Não tem nada que custe mais do que isso. E eu acho que as pessoas estão cuidando. Eu faço muita coisa também reciclada: jaquetas jeans, que eu compro velhas, eu reciclo, estampo em cima, bordo. As pessoas têm que ter consciência e fazer uma coisa mais legal, mais atual.

Hoje abre-se aqui no shopping a temporada de Primavera-Verão 2019. Que tendências você acha que são mais possíveis de serem abraçadas pelas pessoas, e que modismos continuam nesse verão?
Eu vou te falar que eu não acredito nessa coisa de tendências. Eu não sou uma pessoa que fico vendo revistas e seguindo tendências. Acho que as pessoas cada vez mais se vestem como elas gostam de se vestir, o que é bonito, o que enfeita. Acho que é meio por aí. Até porque acho que, nessa coisa de ficar seguindo, o que você faz com a outra roupa? Então, as pessoas estão se vestindo mais com o que elas gostam. As pessoas gostam do que está legal, do que é bonito. E eu também penso muito que a pessoa tem, da mesma maneira que a liberdade de expressão, a liberdade de vestir. A pessoa pode vestir o que ela quiser, não importa se é gorda, magra, alta, baixa. Essa coisa do estilo vai pela atitude: se você tem atitude e bota uma roupa, está tudo certo, vai ficar lindo. Não tem isso.

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