Comportamento,  Opinião

Hoje ‘Garota’, um dia Miss

No último dia 28, a Bahia conheceu a Garota BCS, eleita em um concurso de beleza promovido pelas Bases Comunitárias de Segurança da Polícia Militar da Bahia. Um evento moderadamente pomposo, com intervenções artísticas fruto do trabalho realizado nas regiões mais populosas (e pobres) do estado. A vencedora do concurso foi Thaila Souza, de 19 anos, moradora do bairro de Narandiba, em Salvador. “Espero representar a base, honrar a base. Sempre quis ser modelo. Minha porta de entrada foi o concurso ano passado, que me deu coragem pra participar do Beleza Black”, contou a estudante, em referência a um evento local direcionado para a beleza negra.

O evento promovido pela PM-BA já acontece há pelo menos três anos. Quem é mais chegado à bandeira feminista e costuma observar os padrões construídos em nossa sociedade questiona o porquê de se promover algo nesse formato, com características já conhecidas e consequências tão debatidas. É reforçar o mito da beleza, segundo Naomi Wolf (citado nesta dissertação): aquilo que é propagado pela mídia, sustentado por grupos poderosos, e coloca como ideal mulheres altas, magras; o paradigma da perfeição a ser buscada por todas as mulheres.

Essa discussão é antiga. Não à toa, há relatos de protestos contra essa forma de estigmatização da mulher já no século passado. Se houve qualquer mudança estrutural nessa indústria por causa dos atos, não se sabe ao certo. Pelo menos não diretamente – inclusive, estamos em 2018 e concursos de beleza ainda são usados para fortalecer o relacionamento de instituições com seu público-alvo ou com seu target, como podemos ver; inclusive, os concursos de Miss ainda seguem firmes, como veremos adiante.

O ponto é que gosto é construção e os papeis são atribuição social, segundo pensam alguns com os quais concordamos. Em sua dissertação, Batista (1997) lembra que fatores culturais, sociais e históricos determinam o comportamento social e reforçam determinados padrões de beleza e feminilidade, interferindo até no modo como as pessoas experienciam cada aspecto desse. Ainda, a beleza segue sendo um dos pilares mais permanentes do modelo hegemônico do feminino. Vemos com isso o quão cilada é nos apegarmos e reforçarmos determinadas práticas.

Os concursos de beleza, portanto, devem ser extinguidos da cultura ocidental e oriental? Ou da cultura brasileira pelo menos?

Aí seria muita presunção. Os concursos de beleza existem aqui há pelo menos um século, quando em 1900 Violeta Lima Castro foi eleita a primeira Miss Brasil. Batista conta que as fotos das “mesdemoiselles” candidatas eram publicadas no Jornal do Ouvidor, do Rio de Janeiro, e os votos eram computados também conforme eram enviados ao jornal. O concurso só assumiu o modelo semelhante ao atual em 1929, quando Olga Bergamini foi eleita a primeira Miss Brasil.

Violeta Lima Castro, considerada a 1ª Miss Brasil em 1900. (Foto: Reprodução / Blog Passarela Cultural)

Mas, popularmente, o concurso é considerado oficial quando o Diários Associados assume a organização, em 1954. Tanto que as referências que se tem à primeira Miss Brasil, na verdade, colocam a baiana Martha Rocha como detentora do status. Naquele ano, a Miss brasileira foi a segunda colocada do Miss Universo – apenas duas brasileiras ganharam esse título, ambas nos anos 1960: Ieda Maria Vargas (Rio Grande do Sul, 1963) e Martha Vasconcellos (Bahia, 1968).

Em seu Trabalho de Conclusão de Curso, Azevedo (2018) traz um boato interessante: Martha Rocha perdeu o título para a norte-americana Mirian Stevenson porque tinha duas polegadas mais na medida do quadril. E quem lembraria que, naquele tempo, a beleza já havia passado por tantas transformações?

Do que veio depois, a história dos concursos de beleza no Brasil e nos Estados Unidos – apontado pela Superinteressante como o país que mais alimenta esse negócio no mundo – se mistura com a da publicidade e da televisão. A marca Catalina Swimwear foi a patrocinadora do concurso no Brasil, depois de criar o Miss Estados Unidos e o Miss Universo.

Além disso, era preciso se apropriar do veículo de comunicação que mais atingia a população para que o evento tivesse apelo. E o troca-troca não é pouco: restringindo ao âmbito local, dos anos de 1981 a 1989, a organização e transmissão do Miss Brasil esteve a cargo do SBT, que também transmitia o Miss Universo. De 1990 a 1993, a organização ficou com a empresária Marlene de Britto, ex-funcionária do Silvio Santos, dona da The Most of Brazilian Beauty, mas não houve transmissões em rede nacional. A partir dali, Paulo Max assumiu a organização do evento, até sua morte, em 1996. Seus filhos, Paulo Max Filho e Ana Paula Sang assumiram em seguida a franquia nacional do Miss Universo, até 1999.

Segundo Azevedo conta em seu retrospecto sobre o concurso, nos anos 2000, a Gaeta Promoções e Eventos se tornou proprietária do evento, que voltou a ser transmitido pela televisão, inicialmente apenas no Rio de Janeiro, e a partir de 2002, pela então RedeTV. Em 2003, foi fechada uma parceria com a Rede Bandeirantes e naquele ano, o Brasil voltou a integrar as primeiras colocações no Miss Universo: Gislaine Ferreira foi a 6ª colocada do concurso.

Anos depois, Natália Guimarães ficou em 2º lugar no Miss Universo. Já em 2011, o concurso foi realizado no Brasil, quando a conterrânea Priscila Machado conquistou o 3º lugar do evento. Depois dessa edição, a organização concedeu os direitos do Miss brasil à Rede Bandeirantes, que também ficou responsável pela direção dos 27 concursos regionais, bem como pela seleção das candidatas municipais. Hoje, o Miss Brasil é realizado pela Be Emotion, marca de beleza da Polishop.

Ao que parece, os concursos de beleza não deixarão de existir tão cedo. Talvez seja bom, a contar que este pode ser um dos caminhos para que meninas alcancem o tão desejado sonho de ser modelo, além da movimentação da indústria da moda e beleza (uma das poucas que não entram em crise). Por outro lado, com certeza é necessário o cuidado para os parâmetros que adotamos ao avaliarmos as belezas, nos atentarmos para não cairmos ou criamos um estereótipo do corpo, cabelo e beleza ideais.

Este último certamente é um ponto não tão simples de desenvolver. Comecemos, então, por nós: não caiamos ou cedamos à tentação de eleger um tipo como o ideal. Lembremos sempre que a indústria muda. O que é ideal hoje pode ser o inadequado de amanhã. E isso não tem nada a ver com quem somos.

Curiosa, jornalista e libriana. Mestranda no PósCom/Ufba, interessada nos valores - os meus, os seus, os de notícia e os humanos. Se piscar o olho, o cochilo vem, mas os olhos sempre estão abertos para uma série ou outra que desperte o interesse.

2 Comments

  • Danillo Ferreira

    Ótimo texto. Penso que num contexto capitalista, mercadológico, é difícil superarmos a lógica competitiva em todos os setores – intelectuais, estéticos, profissionais etc. Essa lógica é responsável por produzir desigualdade e frustração em massa, e quanto mais ela se aprofunda, mais problemas emocionais, sociais, ambientais e humanitários surgirão. Mas é ela que sustenta a nossa cultura, as nossas organizações, as nossas formas de ver e se relacionar com o mundo. É como se nós não soubéssemos que é possível caminhar de outro modo.

    Os concursos de beleza se inserem nisso, um tipo de competição que formata o que é belo, exaltando quem ganha e excluindo quem perde (todos os concursos funcionam assim, aliás). Num contexto mais amplo, solidário, inclusivo e compassivo, não deveriam existir.

    No caso de concursos de beleza negra, como o concurso Garota BCS é (mesmo com dificuldades no reconhecimento disso), estamos falando de um concurso que é quase um anti-concurso, porque cria uma narrativa alternativa aos concursos tradicionais. É como se ele utilizasse a lógica da desigualdade para tornar menos desigual o cenário das referências estéticas. Como ocorre com as cotas nas universidades, trata-se de uma “discriminação do bem”. Está longe de ser o ideal (nem sei se os(as) organizadores(as) têm essa consciência), mas parece ser o início da construção de uma narrativa alternativa ao stablishment da desigualdade.

    Enquanto isso, continuamos sonhando com um mundo em que concursos não sejam necessários, e que o sofrimento fruto das desigualdades seja extinto.

    Parabéns pela escrita cuidadosa e aprofundada. Precisamos de jornalismo desse quilate em tempos tão difíceis!

    • Teté Marques

      Entendo. E já estamos tão acostumados a essa lógica, que talvez não surtisse o efeito esperado se quebrássemos com ela. Quem sabe um dia nos tornamos menos discriminatórios em nossas escolhas, fugindo de um padrão construído há tantos anos?!

      Obrigada pela mensagem, e pelos elogios também.

      Até a próxima!

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