Especialista detalha história e processo de desenvolvimento do perfume

O cheiro é algo que fica. E o perfume é algo com o que fomos acostumados e que, se tirarem de nós, logo sentiremos falta. Afinal, quantas vezes não bateu o desespero quando esquecemos de passar desodorante ou a frustração de não ter passado perfume? E aquele cheirinho de sabonete que fica depois do banho? Eu, inclusive, amo o Protex básico, o laranjinha, assim como o rosinha também. Amo.

De todo modo, o perfume é capaz de contar a nossa história enquanto humanidade. E é isso que Renata Ashcar, uma das autoridades em perfumaria no mundo, conta pra gente aqui no Moça Criada. A especialista atua há 30 anos na área e é autora de livros como Brasilessência: A Cultura do Perfume e Guia de Perfumes 2017.

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De onde surgiu o perfume?
Foi no Egito, com incensos. O nome perfumum é “através da fumaça”. Os egípcios acreditavam que através da fumaça perfumada as preces iam chegar mais rapidamente aos deuses. E o perfume ao longo de cada uma das culturas foi adquirindo formas diferentes. A gente quando fala de perfume vai desde o incenso até o perfume que a gente conhece hoje, que é uma mistura de álcool, água e fragrância, que foi registrado comercialmente falando em 1700 d.C. A gente tem quase 5 mil anos de história e cada civilização foi tratando ele de uma maneira. Ele sempre teve um papel super importante na sociedade, seja no Egito, como começou; na Grécia, depois dos Jogos Olímpicos, óleos eram usados no corpo; em Roma. Além do livro que fiz sobre perfumes, fiz sobre banhos. E Roma foi a capital mundial do banho, eles idolatravam o banho, usavam todos os ingredientes naturais. Pra perfumar um banquete, por exemplo, eles enchiam de pétalas de rosas. Incensos eles queimavam em praça pública. E o incenso não é aquela varetinha que a gente conhece; era tudo natural. Então assim, como é produzido o incenso, a mirra até hoje: ele vinha da Arábia, eram gotinhas que saíam da água e, como a borracha, eram feitas incisões nessa água. Ela soltava uma resina que queimava em contato com o sol e virava um cristal. Não é à toa que quando Jesus nasceu foi oferecido a ele ouro, incenso e mirra. O valor do incenso e da mirra era equivalente ao valor do ouro. Assim foi indo até… Com evolução das matérias-primas tudo foi sendo natural, aí descobrem processos de destilação. Os árabes tiveram papel importante na perfumaria porque eles foram mercadores da cultura, com as viagens, eles acabavam levando tudo isso ao mundo. Na perfumaria eles descobriram o alambique, começou a se processar esses ingredientes naturais até chegar na fórmula do perfume, que nada mais era do que a receita de um italiano que mudou pra cidade de Colônia e lá ele registrou a primeira água de colônia, na cidade de Colônia, que era um cítrico aromático.

Qual a relação da Bahia com a perfumaria?
Pra mim as raízes da perfumaria brasileira são muito culturais. Então, assim, a Bahia, o baiano, toda a origem que vocês têm, o berço africano, a questão dos banhos de erva, isso é uma coisa presente na cultura de vocês. Foi isso que levou à admiração do banho, uso constante dos banhos, as águas de colônia, a lavanda, alfazema. E isso foi pro Brasil inteiro. Mais de 90% do que se vende no Brasil são produtos nacionais. São as famosas águas de banho. E a Bahia é o berço de tudo isso.

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Agora uma coisa mais prática… Como identificar o perfume que combina com a gente? Você elaborou um teste pra ajudar nisso, né?
É uma questão até um pouco antropológica e social. A gente percebe que uma pessoa mais esportiva, mais moderna, mais descolada gosta de perfumes mais frescos. Tem a ver com o estilo dela. As sedutoras, aquelas que passam e deixam um rastro de perfume. Então isso tem um pouco a ver. A gente estudou isso, 30 anos de perfumaria, cheirando todos os dias perfumes. E pra mim não é só isso, tem a parte antropológica, a maneira de ser, comportamento. Tem também a questão dos números – quem vende, onde vende, por que vende, as preferências olfativas em cada região do Brasil. Tudo isso me ajuda a compor, cruzar esses dados, a experiência que eu tive e a história, me dá ferramentas pra assumir que perfume indicar e pra quais estilos. São divididos em quatro e nas famílias olfativas, e aí varia pela intensidade, os perfumes mais suaves e os perfumes mais intensos.

Como a pessoa pode identificar seu estilo e qual perfume ela deve comprar? Porque a gente tem aquela coisa mais intuitiva, sente o cheiro e gosta…
Já comentei das seis famílias olfativas, que a gente tem o cítrico, o aromático, o floral, o amadeirado, o oriental e o chipre, mas eu acho que é meio difícil uma pessoa ler e entender tudo isso. Eu recomendo entrar no meu site e na última página do guia tem, fazer o teste e ver qual o estilo mais indicado. Em linhas gerais, o que eu falaria: unissex. É um caminho bem importante. Hoje na perfumaria a gente está estudando o que fazer com o genderless, essa coisa do sem gênero, porque é um novo perfil de consumidor que está se formando. Aí o cítrico é tanto pra homem quanto pra mulher. Pras mulheres acho que o floral é sempre a primeira dica e pros homens sempre o aromático. O resto tem que ler, tem que aprender. É porque é uma cultura muito pouco difundida. E mesmo assim o Brasil é o primeiro mercado do mundo. Dá pra acreditar?

O que explica isso?
É o gosto. A questão que pra mim a Bahia explica tudo. Esse gosto é cultural. Perfume, banho. Em São Paulo, mesmo com a crise hídrica, as pessoas não diminuíram o banho. Talvez ao invés de tomar três, tomava um, mas imagina ficar um dia sem banho? Ninguém. É um hábito do brasileiro que a Bahia ajudou a difundir muito, culturalmente falando. Essa coisa de prolongar o frescor do banho, lavar o corpo e a alma. Um banho de lavanda é aquela coisa “deixa eu tirar tudo”. A seiva de alfazema da Phebo, nossa, na festa de Iemanjá é super vendida, na Lavagem do Bonfim… E Deus pra completar me deu uma filha que nasceu no dia 2 de fevereiro [dia de Iemanjá]. Eu vou vim passar um aniversário dela aqui pra entender o que é Iemanjá. Uma divindade que é homenageada com flores e perfumes.

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Como funciona o desenvolvimento de uma fragrância?
Isso é uma curiosidade, poucas pessoas sabem. Existem os perfumistas, profissional que conhece… Do mesmo jeito que você tem o artista, que faz os quadros, ele tem as cores, o perfumista ele tem os ingredientes, tem cerca de três mil ingredientes para criar um perfume. Geralmente no perfume vão 50 ingredientes. Então o cara tem que ter todo esse conhecimento. Vou te falar que tem mais astronautas no mundo do que perfumistas. É uma profissão raríssima, porque pensa o cara conhecer tudo isso. E eles trabalham nas casas de fragrância. Não é no Boticário, não é na Dior. Eles geralmente trabalham nas empresas de fragrância. Então acontece o seguinte: Boticário vai lá e fala “olha, quero criar um perfume pra um homem de 30, 40 anos, amadeirado, inspirado no vinho, assim, assim” e o perfumista vai processando tudo isso, pensando nas cores que ele vai pintar esse quadro, nos ingredientes que ele vai usar na fórmula do perfume. Ele prepara isso, é submetido ao cliente, tem toda uma equipe de marketing e de avaliadores, e o cliente escolhe e coloca isso dentro da embalagem. Tem time que faz o design e tem o pessoal na fábrica que mistura o álcool, água e fragrância, e lança no mercado. Pronto.

E precisa do quê pra ser um perfumista?
Estudar muito. É muito difícil. O cara, primeiro, tem que ser ou químico ou farmacêutico, no mínimo. Tem que ter uma formação técnica, porque tem cheiros que você cheira separado e fala “não é possível que isso fique bom num perfume”, e fica, combinando a dosagem. Então tem que ter experiência técnica e tem que ter talento pra cheirar bem, saber. Hoje não existe um curso de formação de perfumaria e é uma profissão bem rara. A única escola que tem fica em Versalhes e é uma escola especializada em perfumaria. Só que o cara, além de ser químico ou farmacêutico, tem que estudar dois anos, pagar em euro e falar francês. E o que acontece hoje é que muitos dos perfumistas nacionais acabam se formando na própria empresa em que trabalham. Mas é uma profissão bem rara. Tem muita gente que promove cursinho de perfumaria, não dá. Não é uma coisa que você vai aprender num curso de 20 horas. Você vai aprender no mínimo a perceber, saber cheirar. Mas pra ser perfumista é difícil.

Quais são as sete maravilhas da perfumaria, além da rosa de maio?
A rosa de maio é uma coisa linda. Sândalo é outra. Sabe quantos anos precisa crescer uma árvore? Trinta anos, pra poder tirar a essência dela. A gente tem o âmbar também, que é um cheiro fantástico. Na verdade, muitos deles são reproduzidos sinteticamente, mas o âmbar vem da baleia, é uma excreção que a baleia solta. Flutua, seca no mar, vai pras costas do mar. Uma outra maravilha é a íris, que vem da flor de íris. Muito linda. Mas o cheiro é extraído do risoma dela. Sabe o gengibre, que tem aquele bulbo? O cheiro é extraído do risoma da íris. Você precisa colher, deixar secar por três anos pra depois cozinhar, vira como uma manteiga, e aquela manteiga se torna uma cera. É mais caro do que a rosa. Jasmim também… As flores são fantásticas. Eu recomendo um filme que é muito bacana “Perfume – História de Um Assassino”. Ele fala muito do olfato, da cidade de Grace, no sul da França, e mostra esses métodos de extração. Dependendo da flor, você tem métodos diferentes, muito delicados. Tem ingredientes fantásticos.

Que outras coisas são importantes da gente saber sobre o perfume, mas a gente não ouve muito por aí?
Nunca você comprar o perfume baseado no cheiro que ele tem na outra pessoa. É fundamental testar na própria pele, porque sua alimentação faz diferença, o próprio estresse. Perfume é química e pele é química. Então assim comportamento do perfume na minha pele e na sua é completamente diferente, tem que testar na própria pele. Outra curiosidade é que perfume é um super aliado na hora da sedução. Então use o perfume onde você gostaria de ser beijada. Pode ser uma super ferramenta. Eu digo pra mim que perfume tem tudo a ver com seu estado de espírito, com as suas intenções. É uma paleta tão variada de ofertas, que use um de acordo com sua intenção e com cada momento da sua vida. Tem opção pra tudo isso.

Renata Ashcar, especialista em perfume (Foto: Divulgação)
Renata Ashcar, especialista em perfume (Foto: Divulgação)

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